Esperava-se que o CAN Angola 2010 fosse uma festa. Há-de ser ainda, certamente, mas já foi manchado pela tragédia ocorrida em Cabinda. Independentemente das razões que possam assistir à FLEC, utilizar uma delegação desportiva, causando morte, para dar continuidade à sua acção no terreno é simplesmente condenável. Ponto final. Mas entremos no CAN. Confesso que esperava ver nas ruas mais vida em torno deste campeonato. Só à medida que as horas foram correndo e a tarde começou a fazer nervoso miudinho é que esses sinais se tornaram mais visíveis. E imagine-se o que se passava na mente de cada um quando Angola atingiu os quatro a zero! A partir daí, e falo por mim e pelo grupo com quem partilhava o jogo, o sentimento começou a ser de alguma piedade pelo adversário. Afinal, também era de mais. Não era! Foi a reviravolta e a estupefacção. O que virá a seguir é uma incógnita e é caso para dar razão à gíria dos comentaristas: a bola é redonda e prognósticos só no fim. Entretanto, venha daí, para esquecer, mais uma Cuca. Ou, em alternativa, uma Sagres do grupo Unicer, que é, aliás, um dos patrocinadores da selecção angolana. Tal como para esta, também para a Unicer a esperança é a última a morrer. A notícia mais recente relativamente ao investimento que pretende efectuar no mercado local indica que está quase... mas esse quase começou, recorde-se, em 2003! Quando a fábrica estiver a laborar, possivelmente já se farão sentir efeitos de algumas infra-estruturas que, por força da realização do CAN, foram aceleradas. A reabilitação de estradas e dos aeroportos são um sinal visível e útil. Mas muito ainda há por fazer. O problema da energia eléctrica, doença crónica, continua a ser mais do que uma dor de cabeça, quer para os particulares quer para as actividades económicas. E se a realização do CAN pretendeu mostrar uma Angola diferente, em paz e com pujança económica, não tenho a certeza de que este tenha sido o melhor momento. Compreende-se, enquanto objectivo político e diplomático, que se quisesse realizar este evento agora. Mas os constrangimentos à recepção de turistas, por exemplo, a par dos problemas que limitam em muito o dia-a-dia, não ajudam. Teria sido melhor guardar os milhões gastos em estádios para mais tarde? Para outras prioridades? É um tema que, eventualmente, terá sido bem ponderado. Mas olhar para aqueles quatro estádios faz recordar o caso dos estádios para o Europeu em Portugal. Até no pormenor do estádio de Benguela se situar na segunda província com maior dinamismo em Angola e não ter, surpreendentemente, nenhuma equipa na 1ª divisão do campeonato nacional de futebol. Como acontece com o Algarve e o estádio de Faro, ou de Aveiro... Enfim, espera-se que tenha havido algum estudo económico custo-benefício que demonstre o impacto positivo futuro. Porque o custo para o país na perspectiva político-diplomática foi logo na véspera da inauguração do CAN bastante elevado e comprometedor.
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010