Não é fácil escrever um texto sobre o passado quando se acaba de receber a notícia da morte de um grande amigo e compadre, vitimado pelo cancro. Em Moçambique e em Portugal, vivemos muitos anos agitados do nosso país. O Zeca Galamba era um benfiquista optimista, bem-disposto e amigo do seu amigo. Dedico-lhe esta crónica.
Passado e futuro representam papéis importantes no debate político. Recordo "a pesada herança" na fase inicial de construção de um risonho futuro, concretizado pelas espectaculares mudanças que o 25 de Abril proporcionou. No entanto, tem-se agudizado o peso do passado na agressão política, em detrimento do debate sobre o futuro. Recentemente, o primeiro-ministro afirmou: "Há quem queira regressar ao passado: com ideias do passado, valores do passado e protagonistas do passado".
É verdade que os partidos anunciam acções viradas para o futuro, nomeadamente as agradáveis, a maioria de natureza avulsa e não inseridas numa sustentável estratégia de longo prazo. Mas também é verdade que os mesmos partidos passam anos a remoer o passado. Uns cantam o oásis por eles construído, cheio de palmeiras, camelos à sua sombra e relaxados beduínos comendo doces tâmaras. Outros insistem que o oásis não passa de uma miragem. Palmeiras, tâmaras, camelos e beduínos podem ser os mesmos, mas a sua visão altera-se conforme os partidos estão no poder ou na oposição. Em vez do debate de ideias de futuro, assiste-se ao apedrejamento do passado recente ou afastado.
O primeiro-ministro tem razão quando pede para se discutir futuro, sobretudo ideias que sustentam as promessas da campanha. Há que visitar o passado, mas sem a obsessão de permanentemente dizer mal de tudo o que foi feito. Temo que os meus netos, se um dia lerem os documentos que fui acumulando, concluam que os Governos do tempo do avô - provisórios, de minoria, de coligação, de iniciativa presidencial e de maioria - nunca fizeram nada bem feito. O que é falso.
Os partidos prestarão um grande serviço à geração dos meus netos se, nesta campanha, iniciarem uma mudança de discurso. Falarem, com realismo e verdade, de futuro. E quando referirem a acção do actual ou de anteriores governos, o façam com objectividade e com igual verdade. Se esquecerem as brutais consequências da crise que afectou e afecta o mundo, estão passados. Recomendo-lhes medicação para a amnésia.