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Calendário perpétuo

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 12 de março de 2010

Esta semana três notícias da periferia distraem da bancarrota grega e do risco em que ela põe o euro, da falta de afirmação da União Europeia imposta pela prosápia dos grandes (na Europa de hoje, dizia já há 40 anos Paul-Henri Spaak, há dois grupos de países: os pequenos e os que ainda não perceberam que são pequenos) e da mola pasmada da Administração em Washington que deixou de dar o tom ao resto do mundo e passou a estimular cacofonia universal.

Um inquérito da BBC revelou que em 1984 e 85, durante uma grande fome na Etiópia que matou mais de um milhão de pessoas, foi exacerbada por guerra civil e mobilizou a benemerência de grandes ONG, de Bob Geldof e de mais artistas de variedades, cerca de 95 milhões de dólares foram desviados da ajuda às vítimas para a compra de armas pelos rebeldes - do que a CIA desconfiara na altura. Parte do dinheiro fora entregue em pagamento de cereais produzidos nas poucas zonas de abundância - ou assim julgava quem os recebia de guerrilheiros disfarçados de agricultores - mas debaixo de um palmo de trigo os sacos levavam terra. (Quando a Espanha era muito mais pobre do que Portugal, a seguir à Guerra Civil, fazia-se para lá contrabando de café, passando a raia seca. As transacções eram feitas de noite, à pressa, e muitas vezes, de café, os sacos só levavam o palmo de cima).

Segunda notícia. O Governo sul-africano anunciou que cerca de 90% das propriedades agrícolas compradas pelo Estado a fazendeiros brancos desde o fim do apartheid e distribuídas a famílias negras tinham deixado de ser produtivas. A meta de redistribuir um terço dos solos aráveis do país até 2014 não poderá ser cumprida e o ministro da reforma agrária, Gugile Nkwinti, ameaçou confiscar terras se as coisas não melhorarem. (Quando no século XIX o governo do regime liberal em Lisboa mandara dividir no Alentejo baldios da Coroa de uso comum em courelas atribuídas individualmente a camponeses sem terra, em poucos anos a maioria delas foi comprada por meia dúzia de proprietários que arredondaram as suas casas agrícolas).

Terceira notícia. Investigação do juiz espanhol Eloy Velasco confirma que a Venezuela dá apoio político e logístico a uma aliança entre a ETA do País Basco, que contará com meia centena de homens de mão, e as FARC da Colômbia, com vários milhares de guerrilheiros, que há quase duas décadas partilham informações, se aproveitam do narcotráfico e se entreajudam nas respectivas práticas terroristas. A Espanha pediu explicações a Caracas. Hugo Chávez reagiu de maneira típica: o relatório do juiz trazia a marca do colonialismo espanhol e era parte de campanha norte-americana para desacreditar o seu Governo. Tal como Mugabe e Kadhafi, Chávez arma-se sempre em vítima do imperialismo. (Não temos paralelo português, salvo talvez em quem pense que as desgraças correntes da pátria se devem à maldade do dr. Salazar - ou, do outro lado do espelho, à dos capitães de Abril).

O mundo anda à roda.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

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