A liberdade de imprensa já estava em risco muito antes de José Sócrates sonhar sequer em ser primeiro-ministro. Num país que em toda a sua história conheceu apenas 35 anos sem censura, estamos a falar de um bem escasso e frágil. Apesar de estarem no centro de todos os conflitos políticos e económicos, apesar do poder extraordinário que lhes reconhecemos, os jornalistas têm muito pouca autonomia e estão cada vez mais proletarizados. A separação entre redacções e administrações é muito ténue e as manipulações externas cada vez mais prováveis. Mesmo os grupos de comunicação social ou são financeiramente débeis ou dedicam-se a outros negócios, que quase sempre dependem do Governo que está ou do que há-de vir. E é por aí que muitas das pressões se fazem.
Apesar de vulnerável, a nossa comunicação social tem de conviver com todos os problemas que podemos encontrar no resto do mundo desenvolvido: judicialização da política, mediatização da justiça, mercantilização do espectáculo noticioso, substituição do confronto ideológico por uma sucessão contínua de escândalos que cria nos cidadãos uma descrença geral na democracia.
Na verdade, a nossa comunicação social é tão relevante para a vida pública como a de qualquer outra sociedade livre. Mas é incrivelmente mais frágil na autonomia das empresas e dos seus profissionais. Os media, junto com a justiça, são o calcanhar de Aquiles do nosso sistema democrático.
Esta relevância - que não existia no tempo de Soares ou de Cavaco - e esta fraqueza fazem com que o comportamento de Sócrates toque no nervo da nossa liberdade. O que Sócrates terá feito com a PT e a TVI não pode ser perdoado. Se for, o próximo não hesitará em seguir-lhe os passos. E nossa democracia passará a ser uma farsa.
Fim de festa
Depois de Pedro Passos Coelho, aspirante a líder desde o pré-escolar, chega Paulo Rangel, o homem que nunca abandonaria um mandato a meio, e Aguiar Branco, um senhor que deixa um rasto de banalidade à sua passagem. As escolhas são, já se vê, animadoras. Mas a verdade é que depois da fome veio a fartura. Porque quando cheira a poder não falta quem sinta o súbito apelo do dever patriótico. Uma destas personagens será, muito provavelmente, o próximo primeiro-ministro.
No estado em que as coisas estão, são várias as possibilidades: Sócrates cai com mais uma ou duas revelações ou aguenta-se até depois das próximas presidenciais. Não acredito que passe daí. Na primeira hipótese, ou Cavaco espera por Abril para dissolver o Parlamento e marcar novas eleições ou arranja um governo com o Parlamento que temos. Esse, ou não corresponde ao cenário partidário - coisa difícil - ou o PS terá de desencantar outro homem do leme, transitório ou definitivo. Mas mesmo que o Governo chegue a 2011, o PS tem de começar a tratar de arranjar quem queira concorrer contra um destes três candidatos.
A não ser que o PS esteja resignado com o fim à vista, o que é sempre uma possibilidade, a eleição de um novo líder do PSD abre inevitavelmente e no pior momento para os socialistas a preparação da sucessão. Com uma certeza: terá de ser em quase tudo o oposto de Sócrates. E, ainda assim, o fim da festa é o mais provável. Fim de festa
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010