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Calcanhar de Aquiles

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 18 de fevereiro de 2010

A liberdade de imprensa já estava em risco muito antes de José Sócrates sonhar sequer em ser primeiro-ministro. Num país que em toda a sua história conheceu apenas 35 anos sem censura, estamos a falar de um bem escasso e frágil. Apesar de estarem no centro de todos os conflitos políticos e económicos, apesar do poder extraordinário que lhes reconhecemos, os jornalistas têm muito pouca autonomia e estão cada vez mais proletarizados. A separação entre redacções e administrações é muito ténue e as manipulações externas cada vez mais prováveis. Mesmo os grupos de comunicação social ou são financeiramente débeis ou dedicam-se a outros negócios, que quase sempre dependem do Governo que está ou do que há-de vir. E é por aí que muitas das pressões se fazem.

Apesar de vulnerável, a nossa comunicação social tem de conviver com todos os problemas que podemos encontrar no resto do mundo desenvolvido: judicialização da política, mediatização da justiça, mercantilização do espectáculo noticioso, substituição do confronto ideológico por uma sucessão contínua de escândalos que cria nos cidadãos uma descrença geral na democracia.

Na verdade, a nossa comunicação social é tão relevante para a vida pública como a de qualquer outra sociedade livre. Mas é incrivelmente mais frágil na autonomia das empresas e dos seus profissionais. Os media, junto com a justiça, são o calcanhar de Aquiles do nosso sistema democrático.

Esta relevância - que não existia no tempo de Soares ou de Cavaco - e esta fraqueza fazem com que o comportamento de Sócrates toque no nervo da nossa liberdade. O que Sócrates terá feito com a PT e a TVI não pode ser perdoado. Se for, o próximo não hesitará em seguir-lhe os passos. E nossa democracia passará a ser uma farsa.

Fim de festa


Depois de Pedro Passos Coelho, aspirante a líder desde o pré-escolar, chega Paulo Rangel, o homem que nunca abandonaria um mandato a meio, e Aguiar Branco, um senhor que deixa um rasto de banalidade à sua passagem. As escolhas são, já se vê, animadoras. Mas a verdade é que depois da fome veio a fartura. Porque quando cheira a poder não falta quem sinta o súbito apelo do dever patriótico. Uma destas personagens será, muito provavelmente, o próximo primeiro-ministro.

No estado em que as coisas estão, são várias as possibilidades: Sócrates cai com mais uma ou duas revelações ou aguenta-se até depois das próximas presidenciais. Não acredito que passe daí. Na primeira hipótese, ou Cavaco espera por Abril para dissolver o Parlamento e marcar novas eleições ou arranja um governo com o Parlamento que temos. Esse, ou não corresponde ao cenário partidário - coisa difícil - ou o PS terá de desencantar outro homem do leme, transitório ou definitivo. Mas mesmo que o Governo chegue a 2011, o PS tem de começar a tratar de arranjar quem queira concorrer contra um destes três candidatos.

A não ser que o PS esteja resignado com o fim à vista, o que é sempre uma possibilidade, a eleição de um novo líder do PSD abre inevitavelmente e no pior momento para os socialistas a preparação da sucessão. Com uma certeza: terá de ser em quase tudo o oposto de Sócrates. E, ainda assim, o fim da festa é o mais provável. Fim de festa

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

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Não via, não ouvia, não falava...
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 1:46 | Quinta feira, 18 de fevereiro de 2010
Talvez seja em períodos difíceis que os "grandes" jornalistas aparecem. Antes do 25 de 74 eles existiam, lutavam e pagavam caro as "ilegalidades". Punham a Moral e a Ética acima da lei.

Houve e sempre haverá leis feitas de "encomenda", e correr o risco de as "ignorar", não é para todos. É para os melhores.

Penso que já lhe tenha passado a "indisposição", causada pelos artigos do "Sol", e digo isto porque as suas análises sobre a actual situação política, alteraram radicalmente desde essa altura.

Não que você não tivesse conhecimento dos factos reportados, mas porque agora é "risco zero".

Agora, até eu, já estou enjoado do tema. Sinto-me mesmo solidário com o Primeiro-Ministro. Estavam todos sentados, como os macacos que não vêm, não ouvem, nem falam e agora anda todo o mundo espevitado, como virgens escandalizadas, a gritar aos quatro ventos, com audição de coelho e visão de águia.

Vamos ver se, caso o "homem" se "levante", não voltam todos a pôr as mãos nos olhos, na boca e nas orelhas.
 
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Boa...
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 1:53 | Quinta feira, 18 de fevereiro de 2010
gostei do..."passará a ser uma farsa".... e desde quando não é ?
 
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Exagero
MárioJTAlmeida (seguir utilizador), 1 ponto , 23:51 | Domingo, 21 de fevereiro de 2010
As notícias da morte política de José Sócrates são muito exageradas.
É cada vez mais evidente que José Sócrates forçará permanentemente durante todo este ano uma ruptura com Belém que leve o Presidente a demiti-lo e a convocar eleições. Essa é a sua única esperança.
Este por sua vez não está para lhe fazer a vontade e aguarda que alguém no PS perca a paciência com o permanente desgaste a que o partido vai ser sujeito.
No entanto no PS, por sua vez, toda a gente sabe que o leme está nas mãos do líder. Os outros só têm deserto para oferecer.
E o PSD depois de deixar passar programas a orçamentos levará sempre com eles na cara se for a votos com Sócrates.
E Sócrates a votos é a melhor garantia de vitória para Cavaco Silva em 2011.
Este nó gordio tem sempre a mesma origem. Os portugueses são incapazes de votar contra o poder (mostrem-me um PM que tenha perdido eleições, desde 1820, tirando o Pedro Santana Lopes, que não conta para este argumento). Essa incapacidade terá cada vez mais custos. José Sócrates parece-me ser o primeiro Primeiro-Ministro da III República suficientemente egoista para se marimbar para esses custos. O que interessa é o poder e ele sabe que enquanto for ele a ir a votos, com 6 milhões de dependentes a eleição está garantida (mesmo em caso de nova vitória minoritária o seu poder sairá reforçado).
Bem canta Leonard Cohen "Everybody Knows".
 
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