Sucessão no BCP
Coesão Accionistas rendem-se ao único candidato a presidente do maior banco privado
Santos Ferreira promove união
Jardim Gonçalves diz que solução o tranquiliza
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Ilustração Amdf01/Who
Depois de meses de guerras intestinas, a paz está finalmente a chegar ao BCP. A lista apresentada por Carlos Santos Ferreira, que até quinta-feira ocupou o cargo de presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), conseguiu unir em torno de si diferentes sensibilidades e abre uma via de esperança para que, a 15 de Janeiro, sejam definitivamente enterrados os muitos machados de guerra.
Será neste dia que os accionistas se irão finalmente pronunciar sobre o futuro do banco, em Assembleia Geral (AG) através da votação da única lista apresentada para o conselho de administração. E há boas perspectivas para uma aprovação esmagadora por parte dos accionistas. Além de Santos Ferreira, como presidente, aparecem na lista Armando Vara, como vice-presidente, e Vítor Fernandes, que vêm também da CGD. Santos Ferreira foi ainda buscar quatro elementos do BCP: Paulo Macedo, José João Guilherme (ambos faziam parte da lista apresentada pelo ainda presidente do BCP, Filipe Pinhal, que entretanto foi retirada), assim como Luís Pereira Coutinho e Nelson Machado.
O consenso em torno desta lista resultou de inúmeras e extenuantes reuniões que decorreram no passado fim-de-semana e se prolongaram por toda a semana, não poupando inclusivamente o período do Natal. Após a intervenção do Banco de Portugal, que recomendou aos accionistas que não apoiassem a candidatura de nenhum dos membros da administração, era preciso encontrar uma solução até ontem, dia em que terminou o prazo para a apresentação de candidaturas.
O processo não foi fácil, como se esperava. Há resistências em relação a Santos Ferreira e Armando Vara, por serem do Partido Socialista. A política meteu-se no assunto - e ao longo da semana foram várias as vozes que acusaram o Governo de invadir o BCP com “representantes socialistas”. Houve também tentativas de última hora para limpar a imagem de alguns administradores do banco, de forma a tentar forçar a sua entrada na lista - em vão, pois todos os membros da actual administração e os que dela fizeram parte desde 1999 são considerados suspeitos neste processo, ainda que muitos garantam que nada têm a ver com o assunto.
E foram também postos a circular rumores sobre alguns dos accionistas do banco, nomeadamente Joe Berardo, num aparente ajuste de contas que poderá ainda continuar. Aliás, apesar de o clima agora ser de consenso, é de admitir que as feridas abertas nestes meses demorem muito tempo a sarar - motivo pelo qual poderão manter-se as acções de guerrilha promovidas por algumas “franjas de descontentamento”.
A nova lista recebeu inclusivamente a ‘bênção’ do Conselho Superior do BCP, que se reuniu pela última vez sob a liderança de Jardim Gonçalves. O fundador do banco disse ontem ao Expresso que está satisfeito com a solução encontrada. “Estou perfeitamente confortável e tranquilo com a lista apresentada. As condições que eu queria para o banco - um conselho de administração coeso e com garantias de governabilidade - ficam asseguradas. Além disso, eu também gostaria que o Conselho Geral e de Supervisão (CGS) fosse presidido por Gijsbert Swalef, (da Eureko), e que o Conselho Superior fosse presidido por António Gonçalves, (da Têxtil Manuel Gonçalves). Ambos manifestaram disponibilidade para continuar nesses cargos, o que também me tranquiliza”, afirmou Jardim Gonçalves. Na AG será ainda votada a entrada de quatro novos membros para o CGS: Filipe Button, da Logoplaste, Bernardo Moniz da Maia, José Luís Gomes e Leonardo Mathias.
Ainda se especulou sobre o aparecimento de uma lista alternativa, apoiada pelo BPI e pela Teixeira Duarte, entre outros. Mas depressa se percebeu que era uma ideia sem pernas para andar. O BPI tratou de convocar uma conferência de imprensa para anunciar o seu apoio, ainda que condicional, a Santos Ferreira, apesar de este, enquanto presidente da CGD (accionista do BCP), ter lutado contra a fusão BCP-BPI. Já a TD, que preferia que houvesse actuais administradores do BCP a transitar para a futura administração, de forma a garantir alguma continuidade, acabou por perceber que esta era a melhor solução para acabar de vez com os problemas do banco. Aliás, foi a percepção dos diversos accionistas de que a situação era insustentável que levou a uma congregação de esforços.
Texto Pedro Lima
CARLOS SANTOS FERREIRA
Alguma coisa mudou em Carlos Santos Ferreira: discreto por convicção, desde que assumiu a liderança da CGD, o gestor não foge da ribalta. E a situação vai agravar-se na presidência do BCP. Este banco será também palco para alguns reencontros. Santos Ferreira e Luís Champalimaud trabalharam durante sete anos na Mundial Confiança e ambos ficaram melindrados com a decisão do pai António de vender o grupo aos espanhóis do Santander sem os avisar. Afastaram-se pela mudança de Santos Ferreira para o BCP, predador do grupo familiar. Luís, agora, é accionista do BCP. Quando se fartou do grupo liderado por Jardim Gonçalves, Santos Ferreira abraçou o projecto de um amigo de longa data: a Estoril-Sol de Stanley Ho. Tinham-se aproximado quando o gestor foi presidente do gabinete do aeroporto de Macau. Dali partiu para a CGD. Este será mais um reencontro, tanto que Ferro Ribeiro, um dos representantes do magnata chinês em Portugal, não faltou à reunião promovida pela EDP para entronizar Santos Ferreira como a solução para o BCP. Outro reencontro é com Paulo Macedo, por ele sugerido para a Direcção-Geral dos Impostos. Isto sem falar nos escudeiros que leva: o polémico Armando Vara e o delfim Vítor Fernandes.
C.M.
ARMANDO VARA
O futuro vice-presidente do BCP gosta de contar a história do rapaz que trabalhava no balcão da CGD de Mogadouro e chegou a administrador da maior instituição financeira nacional. António Vara é um sobrevivente. Também foi assim no Partido Socialista. Liderou a lista em Bragança, ainda não era licenciado, mas não escapou ao olho de Mário Soares, que identificou as qualidades de dirigente local. Na carreira política, passou pelo Secretariado Nacional do PS e, com António Guterres, ingressou no poder. Foi secretário de Estado da Administração Interna e ministro-adjunto. Sai do Governo para voltar à CGD, então como director-adjunto de Obras e Património. Entre os socialistas próximos estão nomes como os de Jorge Coelho, Edite Estrela ou Maldonado Gonelha. Em 2001, Vara foi confrontado com o escândalo da Fundação para a Prevenção e Segurança, instituição privada acusada de utilizar verbas públicas.
Os tribunais acabaram por ilibá-lo. No banco do Estado, foi responsável pelo crédito e pelas participações financeiras, com destaque para a EDP, PT, PT Multimédia, o próprio BCP e a Cimpor. Empresas em que a palavra da CGD tem sido determinante, como no veto da Caixa à OPA lançada pela Sonaecom sobre a PT.
C.M.
O inacreditável do ano
ECONOMIA
Santos Ferreira promove união
Investigações vão arrastar-se no tempo
Unanimidade incómoda
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1 a 1 | 1 comentário
NunesdaSilva 30 de Dezembro de 2007 às 22:27
A dança bancária
Lucros, lucros, lucros. Banca alagada em dinheiro (o BCP também deu “bons” lucros).
Enquanto a classe média e as pequenas e médias empresas se afundam, o desemprego grassa, tanta gente está ficando sem tecto e sem o que economizou por falta de capacidade para pagar prestações. Mas o assédio dos bancos para incautos pedirem empréstimo é diário.
Pensionistas e deficientes com IRS agravado e pior assistência na saúde, por faltar sensibilidade a quem é recrutado na banca para governar o país.
Depósitos remunerados abaixo da inflação. E quem tem pouco é ainda penalizado com despesas de manutenção da conta. Manutenção que, na era da informática, dá trabalho insignificante.
Porque os administradores da CGD gerem a CGA, esta toma como seus os descontos do funcionalismo, depositados na CGD, e dificulta ferozmente a obtenção de reforma, apropriando-se de descontos se alguém, por falta de forças, tem a “veleidade” de pedir um ano que seja a antecipação da reforma. E, se alguém deficiente e prestes a morrer pede Junta para se reformar, a reforma é-lhe negada, sendo obrigado a deslocar-se até ao posto de trabalho, onde nada faz por nada poder fazer mas onde tem de permanecer em sofrimento e humilhação, seu e de familiares. Só por não ter 100% de incapacidade mas apenas 99,9%! É que ainda fala, respira e mexe os olhos...
Mas a ex-gerência da CGD é elevada aos píncaros pela sua gestão!
Com a tripla vinda da CGD o BCP ganha por passar a conhecer ao pormenor tudo acerca do seu maior rival. Até Jardim Gonçalves aplaude.
PS ganhará se vier a ter seus elementos dominando o maior banco privado. E já tinham há anos o BP. Mas a gerência do BP está perdendo credibilidade e, se vencer Cadilhe, acabará perdendo tudo.
Se vencer Ferreira, o Estado perde, não por a CGD perder aquele presidente e outros administradores porque não há ninguém insubstituível, mas sim pela cedência dos seus segredos comerciais ao maior rival. E parece ser ele quem terá maior probabilidade de ganhar.
E a escolha da candidatura de Santos Ferreira foi de accionistas do BCP. Onde a CGD tem importante quota. Na altura em que Santos Ferreira estava em funções. E tão forte lhes pareceu conseguirem o lugar que já se demitiram da CGD.
Menezes errou ao pedir que fosse da área PSD o novo presidente da CGD. Teria ganho se limitasse a pedir que não fosse da área PS. O Governo insultou-o, não lhe quis dar razão, mas acabou escolhendo alguém do PSD.
António José de Matos Nunes da Silva