Miguel Cadilhe, ex-administrador do BCP, considera que a actuação do Banco de Portugal (BdP) nas investigações ao BCP é "deplorável".
Cadilhe, que foi também ministro das Finanças, pediu esta tarde o prolongamento do prazo para a apresentação das listas aos órgãos sociais do BCP. O prazo terminava hoje, mas Cadilhe alega que ele deve terminar apenas no Domingo. Uma pretensão que foi aceite pelo presidente da mesa da Assembleia Geral do BCP, Germano Marques da Silva.
Em declarações ao Expresso, Miguel Cadilhe disse que o fez por uma "questão de princípio", por considerar que se atingiu o "bom nome de instituições e pessoas de uma forma indecente", além de ter sido posta em causa a estabilidade e credibilidade do sistema financeiro português.
Em causa está o facto de o BdP ter convocado na sexta-feira da semana passada os maiores accionistas do BCP para lhes recomendar que não apoiassem ninguém que pudesse estar ligado às operações de compra de acções do BCP através de "offshores", que estão sob investigação quer pelo próprio BdP quer pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.
A ideia que ficou desse encontro é que todos os membros da administração do BCP desde 1999 estavam impedidos de fazer parte das listas para os órgãos sociais, o que provocou enorme indignação, sobretudo porque só hoje o BdP veio esclarecer o assunto. Cadilhe está incluído nesse "lote".
No entanto, em comunicado divulgado hoje à tarde, o BdP esclareceu que "até à conclusão dos processos legalmente exigíveis nenhum membro dos órgãos sociais do BCP está actualmente inibido de concorrer ou exercer funções no sistema bancário, apesar dos riscos que decorrem do eventual envolvimento nos factos sob investigação que se vier a apurar". Ou seja, não há neste momento nada que impeça os actuais e anteriores administradores do BCP de fazer parte dos órgãos sociais.
Miguel Cadilhe considera que o BdP já devia ter tomado uma posição há muito mais tempo. "Deixou passar a ideia de que havia várias pessoas inibidas quando isso não é verdade", disse ao Expresso.
É uma situação "imprópria de um país que se preze, de uma democracia". Depois de o BdP ter recomendado aos accionistas que não apoiassem Filipe Pinhal e Christopher de Beck, que faziam parte da primeira lista apresentada, estes retiraram a proposta a submeter à Assembleia Geral de 15 de Janeiro.
Apareceu então uma única lista para a presidência do BCP, encabeçada por Carlos Santos Ferreira, que mereceu a concordância da generalidade dos accionistas. Mas Miguel Cadilhe considera que o tempo para apresentação de listas foi "escassíssimo", impedindo que aparecessem alternativas a Santos Ferreira, que na quinta-feira pediu a demissão da presidência da Caixa Geral de Depósitos. Além de o tempo ser curto, o prazo não foi contado como deveria ter sido, em sua opinião, desrespeitando o Código das Sociedades Comerciais, motivo pelo qual Miguel Cadilhe decidiu avançar com o pedido de prolongamento.
Significa isto que até Domingo ainda pode aparecer uma lista. Questionado sobre se está envolvido na preparação de uma lista alternativa à de Santos Ferreira, Miguel Cadilhe apenas disse que "uma lista alternativa seria bem vinda", até porque é importante que haja alternativas. O ex-ministro admite que alguns accionistas poderão não ter avançado com outras listas por considerarem que todos os administradores e ex-administradores estavam inibidos, mas não confirmou que fosse esse o seu caso.
Além da contestação de actuais administradores, que dizem não ter tido conhecimento das operações feitas com as "offshore", estando por isso a ser injustamente relacionados com elas, alguns ex-administradores têm cargos noutras empresas e bancos e a "mancha" que sobre eles caiu pode prejudicar as suas imagens profissionais. Além de Cadilhe, Pedro Líbano Monteiro, que é presidente do Banco Primus, e João Talone, que participa num fundo de capital privado ("private equity), são alguns deles. Ambos saíram do BCP entre o final de 2001 e início de 2002.
Alguns ex-administradores admitiram mesmo avançar com processos contra o BdP e o seu governador, Vitor Constâncio. Houve pedidos de audiências para esclarecimento da situação, o que terá levado inclusivamente a que o BdP tivesse a necessidade de vir a terreiro esclarecer que não há ninguém legalmente impedido de fazer parte das listas.
Cadilhe diz que está de consciência tranquila em relação às operações feitas com as "offshore". Critica o facto de o BdP ter deixado que se pensasse que a situação do banco é muito grave. "O grau de gravidade não é o que tem estado a ser pintado pela comunicação social com o silêncio do Banco de Portugal", afirma. E remata ao afirmar que "o Banco de Portugal não tem legitimidade nem competência legal" para deixar atingir o bom nome do banco e dos seus administradores e ex-administradores.