Paulo Santos junto à estátua de Pessoa, em Lisboa, onde veio a convite de José Rodrigues dos Santos
António Pedro Ferreira
O que pensa da situação no Afeganistão? A presença da NATO é um factor de segurança ou de tensão? Há alguma alternativa?
Para nós, muçulmanos, a situação é óptima. De facto, não podia ser melhor, com um governo sem legitimidade e uma corrupção galopante. Os governos ocidentais já começaram a compreender que a situação, depois de oitos anos, não está mais próxima de um final positivo (para eles) do que quando começaram. Não era necessário ser clarividente para prever que não podia ser de outro modo historicamente. A Rússia e a Inglaterra tentaram várias vezes controlar o Afeganistão e foram sempre derrotados, sempre. O que poderia fazer pensar aos imbecis dos americanos e ao mentecapto do Bush que os EUA poderiam fazer melhor?! No Afeganistão, a União Soviética deu os últimos suspiros e faleceu, esgotada moral e economicamente. O Ocidente irá pelo mesmo caminho. Temo que vocês caíram na ratoeira preparada pela Al Qaeda nas montanhas do Hindu Kush. E o plano é simples: abrir tantos focos de guerra quanto possível. Vocês correm a apagar esses focos e lentamente as vossas economias vão por água abaixo. Neste momento é a Somália, onde vocês, europeus, se estão a preparar para se meter... Não sei se os vossos políticos são estúpidos ou simplesmente ignorantes.
A alternativa é deixar-nos em paz. Se vocês deixarem que nos governemos a nós próprios (sem que tentem sempre estabelecer um governo mais maleável para os vossos interesses), não teremos motivos para estar em guerra.
E o que pensa da presença militar de Portugal no Afeganistão?
A presença militar de Portugal é tão importante como o papel que Portugal tem no mundo. Isto é: nulo.
Como viveu a eleição do presidente Obama? Com alguma esperança?
Sim, a eleição de Obama foi um facto surpreendente, que me fez esperar num possível entendimento e paz entre o ocidente e o Islão. Mais do que ser um homem de raça negra, o que me pareceu surpreendente foi que os americanos tenham eleito um homem obviamente inteligente, culto e com um certo verniz de sofisticação à europeia.
Qual é o balanço que fez de quase um ano de mandato? Decepção?
Eu sou, por natureza, um optimista. Passou-se quase um ano desde que Obama foi eleito e, apesar do discurso do Cairo, nada de substancial se modificou em termos de relacionamento como o Islão. Obama continua a apoiar os tiranos que governam no Médio Oriente; em Israel continua a apoiar incondicionalmente um governo de direita expansionista, que continua no dia-a-dia a roubar terra aos palestinianos. Compreendo que deve ser difícil mudar de um dia para o outro a estratégia politica de um pais como os EUA e estou disposto a dar a Obama mais algum tempo antes de fazer um juízo definitivo.
O Iraque vai continuar a ser um pântano do Ocidente? Foi um erro a queda de Sadam?
A queda de Sadam foi, para nós, muçulmanos, um motivo de grande alegria - um tirano (ou, parafraseando o próprio tirano, "a mãe/pai de todos os tiranos") abatido, humilhado e, finalmente, executado. Morte a todos os tiranos, no ocidente como no oriente!. Mas o paradoxo é que a queda de Sadam foi um formidável propulsor para o Irão se estabelecer como a potência local. Isso era inevitável, mais tarde ou mais cedo aconteceria a mesma coisa - mas a queda de Sadam e a implantação de um governo xiita no Iraque adiantou, e muito, esse desenvolvimento. Portanto, a politica de Bush causou, de facto, exactamente os efeitos contrários àquilo que ele pretendia. Recordo-me que um muçulmano me escreveu, por altura das eleições americanas, a lamentar-se por Bush não poder ser reeleito de novo. Ora, Bush fez mais pelo Islão que Bin Laden....
Quanto ao Irão? Estamos a caminho de um novo Iraque?
O que quer dizer com isso? Que será invadido pelo Ocidente? Que será atacado por Israel? Que se tornará num pais falhado? Qualquer que seja o sentido da sua pergunta, a resposta será sempre não. O Irão não é o Iraque. Primeiro porque a população ultrapassa os 70 milhões. Segundo, não existe na população aquele estado de revolta contra o governo que existia (e existe) no Iraque. E militarmente está muito mais preparado. Portanto, um ataque ocidental seria impensável. Um ataque aéreo israelita? Pouco provável. O Irão é um país com três mil anos de historia, são extremamente hábeis em diplomacia; no momento em que tudo estiver preparado para atacar, eles cederão, ou parecerá que cedem. Isso é apenas um jogo em que as cartas estão todas nas mãos dos persas.
Uma última pergunta e obrigatória: continua a identificar-se com a Al Qaeda e Bin Laden?
Não, mas identifico-me com todos os muçulmanos que se esforçam por criar um mundo mais justo.
Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009, 1.º Caderno, página 34.