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Brian Cowen, deputados e David Lean

8:00 Segunda feira, 22 de dezembro de 2008

INFERNO

Brian Cowen

EU sei que ninguém repara nestas minudências. Eu, lamentavelmente, reparo. E também recordo: há seis meses, os irlandeses foram às urnas e rejeitaram o Tratado de Lisboa. Foi uma rejeição expressiva (53,4%) e, segundo as regras do jogo, não seria necessário esperar pela resposta trémula de checos ou polacos para enfiar o tratado no caixote; a rejeição irlandesa chegava e sobrava para o efeito. Acontece que a União Europeia não funciona democraticamente, ou seja, não respeita a expressão livre dos povos que a compõem. Não respeitou franceses, não respeitou holandeses. Por que motivo haveria de respeitar a pitoresca Irlanda?

Não admira que o primeiro-ministro irlandês tenha agora prometido ao casal Barroso-Sarkozy que os irlandeses voltarão às urnas para responderem "apropriadamente" no próximo ano. Verdade que Barroso e Sarkozy decidiram dar umas migalhas aos eurocépticos (um comissário por país) e sossegar a Irlanda nos assuntos fiscais, militares e sociais (leia-se "aborto"), onde não tencionam mexer. Bruxelas faz e desfaz as suas próprias regras de acordo com a conveniência das quadrilhas. Mas a decisão de Brian Cowen não é apenas um insulto aos pobres irlandeses; é também a expressão mais acabada do político "europeu": uma criatura conspirativa e mendaz, indiferente à vontade soberana do seu povo e sempre disponível para ser um mero lacaio de Bruxelas.

No meio deste horror, resta-me apenas esperar que a Irlanda não se deixe intimidar pelos seus próceres e responda como lhe compete. Roma não pagava a traidores. Que Dublin também não o faça.

PURGATÓRIO

Deputados

O problema do PSD não está na qualidade política da sua liderança. Está na qualidade intelectual dos anões que a compõem: se Manuela Ferreira Leite e Paulo Rangel fossem leitores atentos de Maquiavel, os 30 deputados que não puseram os pés no Parlamento no passado dia 5 não estariam a ser grosseiramente ameaçados com vigilâncias e expulsões das listas. Pelo contrário: estariam a ser reconhecidos e até condecorados pela liderança laranja. A razão é simples e, de tão simples, devia dispensar qualquer explicação: no passado dia 5, uma proposta do CDS destinada a suspender a avaliação dos professores correu sérios riscos de passar no hemiciclo. A bancada do PS estava desfalcada e, pior, seis socialistas votaram ao lado da oposição.

Felizmente para a oposição, trinta gloriosos deputados do PSD não estiveram presentes no momento sacramental, enterrando assim a proposta do CDS. E, ao enterrarem o projecto dos populares, os trinta gloriosos permitiram que a maior fonte de desgaste para o governo continue a fazer estragos pelas ruas. Mais: com os médicos e os funcionários de Estado a prometerem unir-se aos professores, a ausência dos trinta garantiu, objectivamente, que o governo não terá sossego em 2009, ano de eleições.

Que o líder da bancada laranja venha agora prometer redenções morais pela apresentação de uma proposta similar à do CDS, eis um gesto que revela a completa ausência de sentido táctico ou estratégico da oposição. Fosse Paulo Rangel ligeiramente mais arguto e ele saberia que a ausência dos trinta e o consequente prolongamento da guerra entre o governo e os professores foi a maior vitória do seu triste consulado.

PARAÍSO

David Lean

Passo os dias com David Lean (1908-1991), um centenário de 2008 que 2008 fez o favor de ignorar. Perdoo-lhes, porque eles não sabem o que fazem. Mas eu sei o que faço. Para começar, sou um cliente dos épicos de Lean - sim, aqueles épicos presuntivamente vácuos, como Lawrence da Arábia ou Doutor Jivago. E só Deus sabe como eu gostaria de ter visto a adaptação que Lean prometia fazer do Nostromo, de Conrad, assim ele tivesse vivido um pouco mais para o filmar. Não viveu. Mas a herança chega e sobra. E mesmo que retirássemos os épicos da contabilidade final, bastaria evocar os filmes caseiros da década de 40 para reservar a David Lean um lugar eterno. Falo das adaptações de Dickens, em Oliver Twist ou Great Expectations: quem leu Dickens a sério sabe que é difícil fazer melhor. E falo também das colaborações com Nöel Coward. A propósito: haverá escritor mais perfeito do que Coward? Não digo mais profundo, ou mais relevante; digo mais perfeito porque capaz de cinzelar cada frase sem deixar uma aresta que seja. Duvido. Pensando bem, e pensando a sério, não existe escriba que eu tanto inveje como Coward. Mas divago. Ou não divago: porque vendo Blithe Spirit e revendo Brief Encounter, os diálogos de Coward levitam e levitam-me. Sobretudo em Brief Encounter, a história impossível de Alec e Laura, dois respeitáveis e casadíssimos anónimos que se encontram e apaixonam na mais cinéfila das estações ferroviárias. Com a excepção de As Pontes de Madison County, que obviamente não existiria sem Brief Encounter, desconfio que o cinema nunca mais filmou sacrifício igual: o sacrifício dos amantes pelo dever. Que o filme tenha sido rodado ainda durante a Segunda Guerra, eis um facto que talvez explique o tom digno e quase estóico de tamanha renúncia.

Palavras-chave  opinião, joão, pereira, coutinho
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