*** Fabíola Ortiz, da Agência Lusa ***
Rio de Janeiro, Brasil, 11 Mai (Lusa) - A organização não-governamental Rio de Paz voltou a realizar um protesto pacífico contra a violência no Rio de Janeiro, deixando milhares de pedras brancas e areia vermelha na escadaria da Assembleia Legislativa, num alerta para 17 mil assassínios em 24 meses.
A denúncia é clara segundo o luso-descendente e líder do Movimento Rio de Paz, António Carlos Costa: "Essas pedras representam a morte de 17 mil pessoas no decurso de dois anos e quatro meses, incluindo polícias mortos, pessoas mortas em confronto com a polícia, homícidio doloso, etc..."
Uma faixa em inglês "Citizen stoned", estendida na entrada do Palácio Tiradentes, a sede do poder legislativo do Rio de Janeiro, indicava a "cidadania apedrejada".
"Estamos em frente à Assembleia a fim de poder contar com o apoio dos nossos deputados. A nossa sociedade está a sangrar, é uma sociedade sofrida e insegura. As propostas são muito óbvias, muito claras, exequíveis, supra-partidárias e dizem respeito aos interesses de 16 milhões de cidadãos que vivem no Estado do Rio", afirmou António Carlos Costa.
Segundo o activista luso-descendente, uma carta foi enviada ao governador do Estado, Sérgio Cabral, em Dezembro último, com propostas e reivindicações para uma política de segurança pública e metas de redução de homicídios e pesquisas sobre o paradeiro de desaparecidos.
"Como não obtivemos resposta", explicou, "estamos a tentar unir o legislativo em parceria com a sociedade civil para sensibilizar os nossos governantes".
António Costa disse que ao longo dos últimos anos que o Rio de Paz tem realizado protestos no Rio de Janeiro e noutras capitais brasileiras, a mobilização social tem ficado "muito aquém da dimensão do problema".
"Ainda não vimos mudanças significativas na segurança pública do Brasil. Obtivemos vitórias tímidas", adiantou, prometendo que o movimento não vai abrir mão "da luta constante, pacífica, criativa, baseada na lei e no direito".
A estimativa para 2009 no Rio de Janeiro, segundo dados obtidos pelo movimento, é preocupante. Calcula-se que este ano ocorram mais 10 mil homicídios no Estado, incluindo desaparecimentos, polícias mortos, latrocínios (roubo seguido de morte) e homicídios com dolo.
Números colhidos do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, entre 2007 e 2008, indicam que quase 12 mil pessoas foram mortas em homicídios com dolo, além de terem havido cerca de 2.200 autos de resistência (mortes em confronto com a polícia).
António Costa alertou ainda para o desaparecimento de 11 mil pessoas, suspeitando-se que 70 por cento dos casos terminaram em assassínios.
O estudante de teologia Davi Romer, 25 anos, é um dos 30 voluntários do Rio de Paz e trabalhou de madrugada para ajudar na colocação das 17 mil pedras brancas nas escadas da Assembleia, considerando "urgente" esta causa no Rio de Janeiro: "Não temos uma cultura de protesto, de luta pelos nossos direitos. O que mais impressiona é que os cidadãos estão de braços cruzados, eles não se comovem mais, passam tranquilamente enquanto tem gente morrendo", declarou.
Este não é o primeiro protesto em que Davi Romer participa, deixando críticas à falta de mobilização social: "Quatro mil pessoas se unem para lutar pela maconha, na parada gay é a mesma coisa. Pela vida que é uma causa muito mais básica e fundamental há dificuldade da sociedade se mobilizar."
Desde a criação em 2007, o Movimento Rio de Paz já realizou mais de trinta acções de protesto em cidades como Recife, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília e usou muitos símbolos para retratar os homicídios como cruzes, rosas, balões e côcos.
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