Não sei se assistiram ao jogo entre Portiugal e a Bósnia com o som ligado, foi o que me aconteceu. Infelizmente lá vai o tempo em que podíamos baixar o som da televisão e ligar o rádio, hoje o som do rádio chega uns 5 segundos antes pelo que temos que aturar o narrador televisivo que nos calhe em sorte. Prefiro mil vezes as transmissões na RTP, mas isso será uma questão de gosto. O que não é uma questão de gosto é o tom nacionalista trauliteiro com que fomos brindados por um narrador mais preocupado em explicar a geopolítica dos balcãs do que os cortes do Bruno Alves.
Se é verdade que os incidentes no aeroporto foram lamentáveis? É. Se é verdade que a Federação Bósnia escolheu um estádio sem as mínimas condições de segurança ? É. Se é verdade que o hino português foi assobiado e que se forjou um clima de intimidação? É. Se é verdade que elegemos o narrador da TVI para defesa da honra nacional? Não, não é verdade.
Da minha parte dispensaria o triste contra-ataque nacionalista. É que além de reduzir os bósnios aos adeptos no Estádio, além de vincular a Bósnia como um todo às decisões da Federação de Futebol, o tal narrador arvorou-se de arrogância civilizacional própria de um arrivista à Europa das Luzes ou, pior, de um colonialista nostálgico.
Começando com uma pungente crítica à hora do almoço, o nosso narrador acabaria num momento particularmente sinistro. Estava ela a explicar-nos como ia o laxismo da FIFA, quando nos esclarece que tudo isto se deve ao facto de cada país valer um voto (o escândalo!), levando a que uma Federação como Portugal valha tanto como, imagine-se, uma Bósnia, uma .... (seguiu-se uma longa enumeração de páises, num tom francamente depreciatico, no qual se expôs o escândalo de eles poderem valer na FiFA o mesmo que as nações já estabelecidas, aquelas com pregaminhos nisto da bola).
Embora eu prefira uma narração o mais isenta possível, percebo que nestes jogos os comentadores vistam a camisola da selecção (não sei o que diz a deontologia jornalística sobre o assunto). Mas, sejamos claros, um jornalista não está impedido de ter perspectivas políticas, seja sobre a FIFA seja sobre a miséria dos balcãs, tampouco está limitado no seu direito à indignação. Mas outra coisa, bem diferente, é usar um jogo em que milhões de pessoas se sentam para ver futebol para se arvorar em embaixador com comissão de serviço na defesa da honra da nação. Foi um abuso de confiança, o nobre narrador jamais parou para pensar que os demais portugueses poderiam não se identificar nos suas infelizes tiradas patrióticas, jamais parou para pensar que a TVI também é vista por pessoas de outras nacionalidades: porventura bósnios residente em Portugal que, tristes com os seus compatriotas dados ao hooliganismo, ainda tiveram que aturar um português dado à sobranceria.
P.S. Pela serenidade, andou bem o Toni.