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Borboletas quânticas

Nuno Crato (www.expresso.pt)
9:00 Domingo, 8 de novembro de 2009

Será que as tempestades na Florida foram causadas por uma insignificante borboleta que agitou indevidamente as asas em Madagáscar? Ninguém acreditará que isso seja possível, mas é um dito que se tornou moda. Foi inventado pelo escritor de ficção científica Ray Bradbury, em 1952. Usa-se hoje para descrever o conceito matemático de caos.

A ideia é antiga. Já em 1860 o físico escocês James Clerk Maxwell falava da possibilidade de pequenas colisões entre moléculas criarem turbulência em gases. Trinta anos mais tarde, o matemático Henri Poincaré descobriu que um sistema gravitacional de três corpos, como o do Sol, Terra e Lua, podia ser muito instável. Mas foi o matemático e meteorologista Edward Lorenz que posteriormente tornou a ideia popular.

O interesse de Lorenz pelo problema despertou em 1961. Estava na altura a trabalhar num programa de computador para previsão do tempo e truncou um parâmetro. Em vez de introduzir 0,506127, escreveu 0,506, pensando que o resultado não iria diferir muito. Enganou-se. A previsão ficou completamente diferente. Lorenz corrigiu os dados e voltou a correr o programa. Obteve as previsões anteriores. Mas, em vez de ficar satisfeito com isso, interrogou-se sobre o que se tinha passado. Trabalhou o problema de forma mais geral e verificou que há sistemas matemáticos robustos, em que uma pequena modificação nas condições de partida não altera significativamente o resultado final. Mas há outros que são caóticos, como depois se veio a dizer, pois uma pequena alteração nas condições iniciais provoca diferenças gigantescas nos resultados.

A descoberta teve um impacto profundo na matemática pura e na análise de fenómenos físicos. Tornou-se claro que, mesmo em sistemas em que nada é deixado ao acaso, a previsão torna-se extremamente falível ou mesmo impossível, a partir de certa altura, pois seria necessário conhecer os parâmetros iniciais com absoluta precisão, o que nunca acontece, para conseguir prever com rigor a evolução do sistema. Do ponto de vista filosófico, o impacto da teoria do caos foi também importante, pois percebeu-se que a imprevisibilidade pode ser inerente à nossa apreensão do mundo, mesmo que os fenómenos sejam puramente determinísticos.

Onde não há a ilusão de determinismo é no mundo quântico. As partículas subatómicas têm um comportamento que, tanto quanto se sabe, é intrinsecamente imprevisível. Num conjunto de átomos idênticos, um núcleo de um desintegra-se e o do lado fica imperturbável, sem ser possível determinar porque um se porta de uma maneira e outro de outra. Não é caos. É aleatoriedade pura.

Numa experiência recente, contudo, um grupo de físicos da Universidade do Arizona conseguiu verificar comportamentos caóticos no mundo atómico ("Nature" 461, 768-771). Submetendo átomos de césio a oscilações de um campo magnético e de um feixe laser, notaram que os átomos, portando-se como um pião, mostravam uma estabilidade dinâmica em algumas áreas, e um comportamento errático noutras, reproduzindo as distinções clássicas entre o caos e a estabilidade dinâmica. É a primeira vez que estas características caóticas são observadas num sistema quântico. Que nos vai isso trazer? A beleza da resposta é que não se sabe: a ciência também é imprevisível.

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009

 

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Borboletas quânticas
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:10 | Domingo, 8 de novembro de 2009
"Onde não há a ilusão de determinismo é no mundo quântico. As partículas subatómicas têm um comportamento que, tanto quanto se sabe, é intrinsecamente imprevisível"

Eu concordaria com a primeira frase se em vez de "no mundo quântico", tivéssemos qualquer coisa como "na mecânica à escala atómica"... está bem, é mais feio e percebe-se pior.

O problema é que o "mundo quântico" é a ontologia que pretende precisamente resolver as imprevisibilidades que se verificam nas fenomenologias à escala atómica. Substituindo os corpos dos sistemas mecânicos a que se atribui propriedades concretas como a posição, por funções de onda que descrevem a probabilidade dos mesmos terem essas propriedades, e focando-se na física de alteração dessas funções, o objectivo é recuperar o determinismo da mecânica onde esta se tinha perdido na escala microscópica. Em outras palavras, o "mundo quântico" serve precisamente para preservar a "ilusão de determinismo".

Esta preservação faz-se às vezes com vantagens... o problema dos 3 corpos por exemplo é intratável em termos exactos na mecânica clássica, mas não na mecânica quântica (se estiver a dizer uma asneira, alguém me salve). Só assim se pode compreender a relevância do título desta crónica, e da descoberta relatada na Nature: pela primeira vez, a "ilusão de determinismo"..." no mundo quântico" teria sido desafiada.

Suponho que isto significa que descobriram um sistema onde a evolução da função de onda depende finamente da onda inicial.
 
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O determinismo não existe; o acaso, sim.
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 11:06 | Domingo, 8 de novembro de 2009
Mas quando os ACASOS ocorrem em demasia, não são acasos, são uma Mensagem. Esta é a minha Filosofia de Vida adaptada de uma experiência pessoal que tive há alguns anos e da Teoria do Caos, que me fascinou desde o primeiro dia em que ouvi falar dela, há já muitos anos, num documentário sobre a evolução da Informática.

O seu último parágrafo PARECE estar em contradição com o parágrafo anterior, pois se a Física Quântica é essencialmente aleatoriedade, como é que, agora, descobriram algum "determinismo" no mundo quântico?

E que repercussões terão essas descobertas nos outros campos do saber?
 
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    Re: O determinismo não existe; o acaso, sim.    Ver comentário
mgalrinho (seguir utilizador), 1 ponto , 11:30 | Domingo, 8 de novembro de 2009
    Re: O determinismo não existe; o acaso, sim.    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:55 | Domingo, 15 de novembro de 2009
Rigor et error…, erratum… (1/3)
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Domingo, 8 de novembro de 2009
“Será que as tempestades na Florida foram causadas por uma insignificante borboleta que agitou indevidamente as asas em Madagáscar? Ninguém acreditará que isso seja possível, mas é um dito que se tornou moda. Foi inventado pelo escritor de ficção científica Ray Bradbury, em 1952. Usa-se hoje para descrever o conceito matemático de caos.”
 
Não, não é o caso, essa imagem é utilizada para sinalizar intuitivamente a noção de dependência sensível das condições iniciais, o caos é um pouco mais do que isso.
 
Quanto a uma definição de caos, existem excepções “caóticas” ao efeito borboleta.
 
“O interesse de Lorenz pelo problema despertou em 1961. Estava na altura a trabalhar num programa de computador para previsão do tempo e truncou um parâmetro. Em vez de introduzir 0,506127, escreveu 0,506, pensando que o resultado não iria diferir muito.”
 
Não se trata de uma truncagem de um parâmetro, trata-se de aproximações utilizadas na definição das condições iniciais, ou seja, dos valores iniciais para as variáveis dinâmicas, e, note-se, que no caso de Lorenz são 3.
   
 
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Rigor et error…, erratum… (2/3)
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 13:01 | Domingo, 8 de novembro de 2009
“Trabalhou o problema de forma mais geral e verificou que há sistemas matemáticos robustos, em que uma pequena modificação nas condições de partida não altera significativamente o resultado final. Mas há outros que são caóticos, como depois se veio a dizer, pois uma pequena alteração nas condições iniciais provoca diferenças gigantescas nos resultados.”
 
Nuno Crato deveria rever as noções de bifurcação e de sistema matemático. O que é um sistema matemático? Estará a referir-se a um sistema formal?
 
Na “dinâmica não-linear”, estamos perante modelos matemáticos de sistemas dinâmicos. Opor uma noção de robustez a uma noção de caos é incorrecto. Um mesmo sistema, para diferentes parâmetros, poderá apresentar uma dinâmica regular, ou uma dinâmica caótica (ver diagramas de bifurcações e a primeira vez em que o termo caos, neste contexto, foi apresentado).

“A descoberta teve um impacto profundo na matemática pura e na análise de fenómenos físicos.”

Na “matemática pura”? Neste caso, falamos de uma “unidade matemática”, o termo “pura/aplicada” não faz sentido neste contexto.

 
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    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:33 | Domingo, 15 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 10:08 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 14:08 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 2 pontos , 15:36 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:05 | Sábado, 21 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 16:40 | Sábado, 21 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:19 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Exactamente ...    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 18:37 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Re: Exactamente ...    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:03 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Re: Exactamente ...    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 14:35 | Segunda feira, 23 de novembro de 2009
    Re: Exactamente ...    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 19:50 | Segunda feira, 23 de novembro de 2009
    Re: Exactamente ...    Ver comentário
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 20:02 | Sábado, 28 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 20:14 | Sábado, 21 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:51 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:54 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 17:33 | Domingo, 22 de novembro de 2009
    Re: Rigor et error…, erratum… (2/3)    Ver comentário
jpafonso (seguir utilizador), 1 ponto , 20:32 | Domingo, 22 de novembro de 2009
Rigor et error…, erratum… (3/3)
maria odete madeira (seguir utilizador), 1 ponto , 13:05 | Domingo, 8 de novembro de 2009
“Tornou-se claro que, mesmo em sistemas em que nada é deixado ao acaso”
 
As frases evidenciam problemas com a noção de “acaso”. O “acaso” está situado ao nível das causas e dentro dos parâmetros formativos dos sistemas, ligados aos mecanismos de agregação e desagregação, dependentes das condições iniciais.

“os parâmetros iniciais com absoluta precisão, o que nunca acontece, para conseguir prever com rigor a evolução do sistema.”

Confunde, uma vez mais, a noção de parâmetro com a noção de variável dinâmica.

Os sistemas dispõem de mecanismos autopoiéticos que lhes permitem computar permanentemente as condições iniciais, de forma a manterem a sua identidade e integridade sistémica, enquanto topos rotativos individuados, ligados a dinâmicas de sobrevivência.
 
“Do ponto de vista filosófico, o impacto da teoria do caos foi também importante, pois percebeu-se que a imprevisibilidade pode ser inerente à nossa apreensão do mundo, mesmo que os fenómenos sejam puramente determinísticos.”

Puramente determinístico oposto a acaso?

E porque “chama a filosofia” à construção argumentativa, é pertinente dizer-lhe que a Filosofia trabalha a noção de “acaso” a partir da raiz primitiva com o significado de “razão desconhecida”. Acaso, em Filosofia, não é apreendido, nem significa “ sem razão” ou “causa”.

“Não é caos. É aleatoriedade pura.”
 
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