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Boa Sr [1925 (?)-2010]

A indígena das ilhas Andaman era a última sobrevivente da sua tribo e com ela extinguiu-se a sua língua. Mais de metade das línguas do mundo vão desaparecer no século XXI.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 20 de fevereiro de 2010

Boa Sr, que morreu no passado dia 4 de morte natural numa das ilhas do arquipélago de Andaman e Nicobar, situado no Golfo de Bengala, a mil e cem quilómetros da União Indiana, à qual pertence desde 1947 e a que se atribui importância estratégica (estrangeiros precisam de licença especial para o visitar), onde nascera há cerca de oitenta e cinco anos e onde passara toda a vida, sobrevivendo a doenças trazidas e a brutalidades impostas pelos colonizadores britânicos que ocuparam as ilhas em 1858 (eram os andamaneses indígenas 5000 nessa altura, repartidos por dez tribos, contando-se só 52 há dez dias, sendo hoje o resto dos 300.000 habitantes das ilhas na sua maioria emigrantes indianos), resistindo às crueldades da ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial e ao tsunami de 2004 a que escapara com alguns vizinhos, segundo contava, por terem obedecido ao mais velho dentre eles que os aconselhara a ficarem quietos onde estavam até a terra e o mar se calmarem outra vez, levara a existência própria de uma mulher do seu lugar e da sua condição, aprendendo em pequena a tirar batatas da terra e fruta das árvores, a caçar porcos bravos e tartarugas e a pescar, até que há quarenta anos o Governo indiano mandou concentrar todos os sobreviventes das tribos andamanesas numa única ilha, onde tédio e amargura eram imensos e muitos morreram de alcoolismo, tendo Boa passado a habitar um casinhoto de cimento igual aos dos outros, roída de saudades da selva natal, e cada vez mais sozinha porque desde 2005 era a última sobrevivente da sua tribo cuja língua, o bô, era muito diferente das outras línguas tribais das ilhas e que ninguém sabia já falar senão ela. Para comunicar com outros usava a variante local de hindi usada pelos imigrantes vindos do continente ou o grande andamanês, amálgama das várias línguas tribais que se fora formando em tempos modernos. Levou para a cova um vestido velho e remendado e deixou-nos a todos mais pobres do que éramos antes da sua morte pois levou também uma tradição de ver o mundo, de o sentir e o pensar que, depois de ter vigorado durante sessenta e cinco mil anos numa ilha do Golfo de Bengala, com ela desapareceu para sempre.

As línguas de outras tribos do arquipélago, que estudos etnográficos e arqueológicos mostram terem vindo de África, todas pela mesma altura, irão também a pouco e pouco perder quem as saiba falar. Resistirão mais tempo as de tribos isoladas, sobretudo daquelas que melhor resistiram a tentativas de domínio, primeiro dos britânicos e depois dos indianos. A dos habitantes da ilha Sentinela do Norte, por exemplo, que ainda hoje atacam quem lá queira desembarcar e ganharam alguma nomeada internacional com o tsunami de 2004 quando foram filmados a disparar flechas contra um helicóptero de socorro. Com mais ou menos episódios pitorescos, porém, as línguas indígenas do arquipélago de Andaman e Nicobar estão condenadas à extinção. (E as populações das ilhas serão privadas da importância intelectual que ganharam na primeira metade do século XX, sem disso se darem conta, ao serem estudadas por antropólogos ingleses de renome, porque isoladas há tanto tempo da África original serviram de terreno a teorias de parentesco e sociedade que continuam a merecer crédito).

O seu caso não é único: um dos custos da modernidade é acelerar o desaparecimento de pequenas culturas. Estima-se que das 7000 línguas diferentes que se falam no mundo, mais de metade extinguir-se-ão durante o século XXI. Além de usadas por poucas pessoas que quase sempre empregam outras línguas também, não têm escrita nem gramática sistematizada. Boa Sr, que nunca soube ler nem escrever, teve de se esmerar em hindi e grande andamanês já crescida, quando os últimos da sua tribo morreram, para poder conviver com gente.

Inteligente e com sentido de humor, entendia e apreciava a atenção que lhe prestavam e legou-nos a gravação da sua voz numa canção tradicional, de melodia pobre e triste.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

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