Os deputados da nação, sejam de que cor política forem, assumem a função de representar o povo que, por razões óbvias e impossibilidade material, não pode estar presente, no seu todo, em todo o processo de governação e legislação. Significa isto que aquelas 230 pessoas, ao estarem ali, fazem as vezes dos dez milhões de portugueses governados que pretendem a governação fiscalizada.
Ora, um ministro, seja o primeiro ou o que for, sendo um mero servo da nação, eleito e pago para fazer um trabalho que alguém tem de fazer, não pode, sob circunstância alguma, faltar ao respeito a nenhum deputado. Não pode. Porque faltar ao respeito a um deputado é o mesmo que faltar ao respeito a quem elegeu esse deputado. E um governante não pode faltar ao respeito aos governados. Não numa Democracia.
O caso é que foi precisamente isto que José Sócrates fez, logo no primeiro de todos os debates parlamentares. Ao dirigir-se da forma como se dirigiu a Pacheco Pereira, José Sócrates deu uma vez mais um terrível golpe na credibilidade do Parlamento e em vez da careta de quem ri com desprezo mal fingido, Pacheco Pereira deveria ter exigido que aquelas palavras tivessem consequências. Acusar o deputado de "meter os pés pelas mãos", o comentário sobre a Quadratura do Círculo e, finalmente, a falta de respeito pelas regras institucionais demonstrada com a frase "Boa sorte para a próxima, senhor deputado" mostram o Sócrates que já conhecemos há mais de uma década. Mostra o Sócrates que exige humildade sem lhe saber o significado. Mostram o Sócrates que não respeita as instituições. José Sócrates, hoje, tal como no passado, mereceu uma repreensão para não dizer mais.
Infelizmente, e como de costume, nada aconteceu. Eu apenas tenho uma coisa a dizer à democracia portuguesa: boa sorte para a próxima.