Com esta edição, meus caros amigos, perfazem 20 anos de cartas que ando para aqui a escrever. Quando comecei, o país estava repleto de comendadores, mas agora só restam três: o Comendador Roque, o Comendador Berardo e eu próprio. O primeiro tem um banco, o segundo tem uma dívida ao banco e eu não tenho nem dívida nem banco, ou seja, sou um tipo inteiramente honesto. Não tarda nada tiram-me a comenda...
Outra diferença substancial é que, ao fim de 20 anos já passaram 20 anos. E este espaço de tempo torna as pessoas mais velhas e um tipo como eu mais palerma. 20 anos depois, já nem "O Conde de Monte Cristo", do Alexandre Dumas, se aguenta, quanto mais as Cartas do Comendador. Ora, sabendo eu disto muito bem, pretendo continuar mais 20 anos - ou, vá lá, os que forem necessários para não me prejudicar na reforma, podem ser 40 ou 60.
Para os mais atentos à minha biografia, os que sabem que em 1889 andava já eu ao colo de uma ama podem perguntar como é que um tipo com mais de 120 anos pode continuar a escrever. A minha resposta é simples: nos primeiros 80 anos da minha vida não havia segurança social e, depois, vieram os governos do PS e do PSD.
Tendo pois que continuar a trabalhar muito para lá do que seria meu desejo, vou, para este número especial, ensaiar (esta saiu-me bem e com mais três assim consideram-me intelectual) um despretensioso balanço - não sobre a década, como toda a gente fez, mas sobre duas décadas, a ver se me pagam o dobro. Sublinharei apenas 10 diferenças, de modo a que vejam os contrastes gritantes.
1) Há 20 anos, a política girava à volta de Cavaco Silva e de Mário Soares. Hoje, meus amigos, quem sem lembra destas personagens?
2) Há 20 anos, o Presidente da República e o primeiro-ministro passavam a vida em guerras mais ou menos estéreis e em intrigas palacianas um contra o outro. Vejam só como a vida política era ridícula e como hoje ela é diferente...
3) Há 20 anos, o partido da oposição estava numa grande crise e aventava-se o seu fim. Hoje, felizmente, todos entendem o papel da oposição.
4) Há 20 anos, a Justiça era acusada de favorecer os ricos e os poderosos, além de ser muito lenta a resolver os casos em litígio. Hoje há respeito pela magistratura.
5) Há 20 anos, jornais como o "Diário de Notícias" pertenciam ao Governo. Hoje essa ideia seria impensável.
6) Há 20 anos, a Galp, a EDP, a PT e outras grandes empresas eram do Estado e uma pessoa só podia ser administrador de qualquer delas se o Governo deixasse. Hoje, tudo mudou e todas essas empresas são privadas.
7) Há 20 anos, uma pessoa para ter uma consulta ou uma operação ficava numa coisa chamada 'lista de espera'. Hoje chega a parecer ridículo só o nome.
8) Há 20 anos, os professores não eram avaliados. Hoje isso seria um cenário impensável.
9) Há 20 anos, era impossível ver uma ópera de jeito em São Carlos porque o país não tinha dinheiro para pagar produções decentes. Hoje, felizmente, temos o que queremos e da melhor qualidade.
10) Há 20 anos, José Sócrates ainda não tinha acabado o curso de Engenharia Civil nem se tinha revelado um grande estadista.
Vedes, pois, como o país progrediu. É por isso que escrever isto se torna tão difícil. Ele já há pouco para criticar e para ridicularizar, mas continuo, em nome da reforma que há-de ser minha, a tentar tudo por tudo, para encontrar neste país algo que funcione menos bem.
Comendador Marques de Correia
Texto publicado na edição da Única de 31 de Dezembro de 2009