Os proverbiais balanços de fim de ano, destacando o que nos doze meses transactos se encaixou no lugar cimeiro do nosso quadro de valores, ou o que simplesmente nos deu no goto, convocam em geral um desfile de monumentalidades. Selecciona-se o maior, o mais importante, ou o mais precioso, e esquecem-se as pequenas lucilações, não raro responsáveis por um relâmpago de felicidade. Nasce esta em geral do livro de que ninguém falou, da frase que se ouviu ao acaso das ruas, do filme que passou despercebido, do compasso do quarteto que desconhecíamos, ou da tonalidade de uma nuvem de Outono, avistada da varanda da nossa casa.
O meu tributo seguirá assim desta vez para um punhado de aparentes irrelevâncias que me iluminaram 2009, e que de certeza absoluta ninguém mais elegerá como merecedoras de consideração. Refiro-me ao obscuro autor de uma monografia sobre talha barroca, só encontrável nas prateleiras de algum alfarrabista, ao jovem ficcionista inédito, e que porventura jamais chegará ao escaparate das livrarias, o qual redigiu uma cadeia de parágrafos, todos eles incomensuravelmente superiores a um qualquer da pacotilha escriturária que por aí anda, e à vendedeira de melões da beira da estrada que, repondo numa locução banal o Português de lei, atirou para a lixeira toda essa ganga de loja de trezentos, impantemente vestida pelos literatos feitos à pressa. Para tal gentinha, cujo anonimato se me impõe respeitar, vai a minha derramada gratidão, e a minha vontade teimosa de prosseguir na pesquisa de cintilantes minudências.
Tudo isto pertence a um ofício de escrita que, em consequência do continuado decurso do tempo, tropeça com espanto boquiaberto naquilo que lhe apontam como admirável, quando não como genial. E enchem-se-me as estantes de volumes tidos por insuperáveis, e que nem com o bocejo caridoso se descerram, despachados após a leitura do primeiro período para o cemitério das obras-"primas" em função da histeria da moda, ou da compulsão do consumo. Deixando no entanto de parte, e além de letras e tretas, instalações e performances, sempre festejadas com cinco estrelas, e gritarias fumarentas, impingidas como prova da infinita resistência do ouvido humano, será sobretudo aos bichos, às plantas, às rochas, e às variações da luz, ou da temperatura, que nos reportaremos para a comovida homenagem, preceituada pela queda da folha derradeira do calendário.
Mas à entrada do novo decénio prometemos ficar atentíssimos ao trânsito dos viajantes tresmalhados, esses que, não subindo sequer aos jornais, não constarem dos tops dos ignorantes, ou dos distraídos, e que apenas imprimirem na neve a pegada que na neve se for apagando.