Se a ministra da Educação deixasse hoje o Governo, alguns dos seus maiores críticos talvez viessem dizer amanhã o mesmo que certos adversários de Correia de Campos disseram dele um dia depois de ter saído: que, afinal, era um bom ministro. No caso de Maria de Lurdes Rodrigues não haveria sequer um 'mas' a acrescentar quanto à sua capacidade de explicar as políticas e de as comunicar ao país. Explica-as com desarmante serenidade no meio da gritaria à sua volta, como se viu no 'Prós e Contras' desta semana, perante uma senhora do PSD que confunde frontalidade com má-educação, perante um jovem revoltado, decerto consigo mesmo, perante supostos dirigentes que parecem usar o microfone só para tratarem dos seus casos pessoais, perante sindicalistas apostados numa guerra política que já tem pouco a ver com os temas em debate. Perante todos, a ministra respondeu com a segurança de quem age segundo a sua consciência e convicta da correcção das decisões que toma.
Se Maria de Lurdes Rodrigues saísse do cargo também se diria, como se disse de Correia de Campos, que acabavam as reformas, agora no Ensino. E que, despedindo-a - algo que, além de improvável, seria indesejável porque o país não pode dar-se ao luxo de eliminar todos os que têm a coragem de tentar mudar o que está mal - Sócrates estaria apenas a comprar a paz com os professores e com aquela parte do seu partido que gosta de estar sempre do lado de quem protesta. Dir-se-ia também que deixava de governar, pondo a conveniência eleitoral à frente das políticas com que se comprometeu.
A actual ministra nunca prometeu uma grande reforma do Ensino, ao contrário do que fizeram alguns dos seus antecessores. Contudo, passados estes três anos, pode-se dizer que o conjunto de iniciativas que tomou, certamente discutíveis como todas, são mais do que uma reforma. São uma revolução no modo de encarar o trabalho na escola, rotineiro quanto aos métodos, injusto por não distinguir o mérito, funesto se avaliado pelos resultados. Maria de Lurdes Rodrigues é muito mais do que 'a ministra da avaliação', segundo a "gaffe" de Sócrates nas jornadas parlamentares do PS: ela rompeu com uma paz podre de 30 anos comprada com abandono e insucesso escolares por governos de todas as cores. Não admira que provoque tantas resistências nem que certas figuras do próprio PS que contribuíram bastante para acelerar o colapso da escola, como a célebre Ana Benavente, ainda se permitam a desfaçatez de vir a público criticar a ministra.
Algumas dessas resistências eram previsíveis. Ao afrontar o enorme poder dos sindicatos no sector do ensino, Maria de Lurdes Rodrigues só podia contar com fogo de barragem. Mas a multiplicidade de decisões que foi tomando, muitas vezes de forma atabalhoada ou à pressa e à força, como se escreveu aqui a propósito da avaliação dos docentes, fizeram o descontentamento alastrar, inclusive aos professores que aplaudiram, ou pelo menos compreenderam e aceitaram as primeiras medidas.
Do ponto de vista político, a situação não é fácil para a ministra. Mas o país não pode ser sujeito a mais um recuo global num sector precisado das reformas em curso, pelo que só há uma saída. E essa é a de a própria responsável pela Educação reconhecer que o lançamento do processo de avaliação correu mal e retirar daí todas as consequências, começando pela de que não deve ser aplicado a qualquer custo e a meio do ano lectivo. Mais vale perder uns meses do que deitar tudo a perder. E é isto que acontecerá se a avaliação for imposta em termos tais que dê motivo a qualquer futuro ministro para a anular logo que chegue.
Promessas à medida
Luís Filipe Menezes teve a sua primeira semana de glória mediática desde que chegou à liderança do PSD. Conseguiu ser notícia quase todos os dias, ora porque apresentou propostas, ora porque teve de esclarecer melhor as propostas que apresentou, ora porque essas propostas foram contestadas por membros do seu próprio partido. Na terça-feira, foi dizer à SIC-Notícias que acabará com os anúncios na RTP para que os concessionários privados possam disputar entre si todo o bolo publicitário, que é pequeno para três canais generalistas e talvez não chegue para quatro. Na quarta-feira apareceu ao lado dos dirigentes da Fenprof a contestar o sistema de avaliação de desempenho que o Governo quer aplicar aos professores. Na quinta voltou à SIC para explicar a promessa de terça e foi a um hospital privado proclamar que todos os médicos deviam poder optar entre o público e o privado.
Não há como dizer em cada lugar e a cada audiência as coisas simpáticas que ela quer ouvir. Assim, nada como ir a uma televisão privada prometer que esta pode vir a ganhar mais dinheiro com as políticas que o entrevistado defende. Nada como apanhar a onda de contestação a uma ministra quando ela está no auge e todo o trabalho já foi feito por outros, mesmo que estes estejam nos antípodas do PSD. Nada como dizer num hospital particular que todos os médicos deviam poder optar livremente pelo serviço público ou pelo privado, mesmo que isso significasse o fim do serviço nacional de saúde, como observou o bastonário dos médicos.
Há duas semanas, comentou-se aqui que o presidente do PSD andara desaparecido e que talvez pensasse que lhe bastava ficar sentado na cadeira de líder para chegar a primeiro-ministro em 2009. A avaliar pelo ritmo de promessas desta semana, é de crer que Luís Filipe Menezes tenha mudado de táctica. E que talvez pense agora que a melhor maneira de ganhar as eleições é dizer 'sim, com certeza', a todas as exigências de cada uma das corporações ou dos poderes da sociedade. Alguém deve informá-lo de que, por um lado, uma soma de promessas avulsas e à medida não faz um programa político digno desse nome. Além disso, na ânsia, tão patente e pronunciada, de agradar a toda a gente, corre o sério risco de não agradar a ninguém.
Fernando Madrinha