"Eu não sou um homem livre, mas pouca gente esteve tão próximo disso como eu." É com esta tirada confiante - "roubada" ao escritor brasileiro Millôr Fernandes - que Raul Solnado define o seu estádio actual de liberdade.
Sorri, serenamente, a saborear o impacto que estas palavras provocam. Discorre a propósito do tema sugerido esta semana pela agenda Expresso/Banif, que evoca o Dia Mundial da Liberdade, celebrado a 23 de Janeiro. "Atingi uma idade em que posso fazer só o que quero. Estou mais exigente. Apurei a gestão da minha vida. Já não faço fretes."
De manhã não está para ninguém, jantares e almoços só na companhia de amigos e pessoas interessantes, e quanto a sorrisos para a fotografia... só se o fotógrafo apanhar a espontaneidade à primeira.
"Atiro para fora da minha agenda os compromissos banais", resume. Tempo bem passado "é estar umas horas a olhar o Tejo". Por isso mesmo, um dos seus maiores prazeres é lanchar num dos bares situados à beira rio, entre Santos e Alcântara: "Este rio provoca uma impressão de liberdade muitíssimo grande e propicia outros voos ao pensamento", resume.
Recebe o sol de fim de tarde que lhe aquece o rosto, enquanto recorda os tempos de criança quando saía da sua casa, na Madragoa, para se juntar "à rapaziada amiga" com quem dava uns "valentes" mergulhos nas águas do Tejo, de cima dos bateleiros estacionados no cais."Todos nus, claro", recorda divertido. "O Tejo era outro..." Ao longo da vida, o humor foi outra espécie de mergulho para a liberdade. "Muito subversivo", às vezes, mas sempre "libertador..."
Artigo publicado na Única da edição do Expresso de 20 de Janeiro de 2007.