A tendência já sublinhada ontem de subida nas yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos do Tesouro de um grupo de países da zona euro e do risco de incumprimento das suas dívidas soberanas continua hoje.
Em destaque continuam a Itália (com as yields dos títulos do Tesouro a 10 anos a chegarem, na abertura, aos 6,21% no mercado secundário e o custo dos credit default swaps já próximo dos 500 pontos base), a Bélgica (com o custo dos credit default swaps a aproximar-se dos 300 pontos base) e Espanha (com as yields das obrigações espanholas a 10 anos a abrir em 5,60% e o risco de bancarrota a subir para 27,6%).
O movimento é acompanhado pela Grécia, Portugal, Irlanda, França e Áustria em termos de subida da probabilidade de incumprimento. No mercado secundário, as yields dos títulos do Tesouro gregos, portugueses e irlandeses continuam em alta. Com particular destaque para os títulos gregos, cujas yields voltaram a disparar depois do anúncio ontem à noite da possibilidade de um referendo na Grécia sobre o segundo pacote de resgate.
O prémio de risco aumenta ainda mais nos "periféricos" e no caso da Bélgica, em virtude de uma quebra colossal das yields dos títulos alemães, os Bunds, que servem de referência na zona euro e que são encarados cada vez mais como refúgio face ao descalabro à volta. Já ontem as yields dos Bunds nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos tinham descido durante o dia mais de 10% e hoje seguem na mesma tendência de queda.
Comparando as yields dos títulos soberanos a 10 anos, a situação hoje de manhã era a seguinte no mercado secundário, segundo dados da Bloomberg: 24,01% para os títulos gregos; 11,87% para as obrigações do Tesouro; 6,21% para os títulos italianos; 5,60% para as obrigações espanholas; 4,38% para os títulos belgas; e 1,88% para os Bunds. A Bloomberg deixou de dar indicação para as yields dos títulos irlandeses a 10 anos, desde 11 de outubro.
Semana agitada em Atenas
O anúncio ontem à noite de que o governo grego tenciona avançar com um referendo sobre o segundo plano de resgate ao país desenhado pela cimeira europeia da semana passada (26 de outubro) teve o efeito de um soco no estômago da chanceler alemã Merkel e do presidente francês Sarkozy e reanimou os mercados da dívida bem como afundou as bolsas.
As agências de notícias falam de uma provável teleconferência do G2 europeu - Merkozy, como é jocosamente designado - ainda hoje, em vésperas de uma reunião do Banco Central Europeu e a poucos dias da cimeira do G20 em Cannes.
George Papandreou, primeiro-ministro grego, avançou com mais uma moção de confiança ao seu governo que será votada esta sexta-feira no parlamento em Atenas e anunciou a intenção de organizar um referendo no final deste ano ou em janeiro de 2012 devolvendo a palavra ao povo grego para decidir sobre o 2º plano de resgate.
Este novo plano traz dois ingredientes principais: um "corte de cabelo" (hair cut, na designação técnica) de 50% na parte da dívida soberana grega detida por credores privados (sobretudo bancos gregos, cipriotas e europeus) que está ainda em negociação, e um novo pacote de resgate com nova injeção de euros exigindo como contrapartida o cumprimento das metas de austeridade e de privatizações.
Muitos analistas encaram este plano como o default mais suave possível nas atuais circunstâncias. Um hard default poderá implicar um "corte de cabelo" da dívida na ordem dos 75%, segundo declarou hoje Andrew Lim, da Espírito Santo em Londres, ao jornal The Telegraph, e a declaração de um evento de crédito (um default puro e simples) por parte das agências de crédito e dos organismos que regulam o mercado dos credit default swaps.
O governo grego, com esta "surpresa" do referendo, tenta evitar a convocação de eleições antecipadas. Segundo algumas agências, a oposição no parlamento em Atenas poderá resignar em massa e provocar tais eleições. O efeito de eleições antecipadas é, também, ainda imprevisível.