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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Sexta feira, 10 de fevereiro de 2012
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O sul-americano-mais-europeu-de-sempre tinha tudo para ser um chato faraónico. Os seus labirintos e jogos de espelhos tinham tudo para redundar em textos abstractos, demasiado encostados ao ensaio e com pouca narrativa. Mas Jorge Luís Borges consegue dar um lastro narrativo a temas frios, rectilíneos e abstractos. Os contos de Borges fazem lembrar os contos tradicionais chineses (quem viu a série de desenhos animados nos anos 80 sabe do que estou a falar). As histórias borgesianas dão medo, uma espécie de medo misterioso, um medo de coisas que não se veem, que se intuem, como num quadro de Chirico. Neste O Livro de Areia (colectânea de contos), leiam a história "There are more things" para tentar perceber esta lengalenga sobre o medo borgesiano. Mas há mais.
No conto "A seita dos trinta", Borges consegue transformar a teologia num assunto divertido quando inventa uma tribo subcristã que coloca Judas no mesmo patamar de Cristo. E outro assunto árido e abstracto tem um tratamento similar: a utopia. No conto "O Congresso", entramos na temática da Humanidade reunida num único fórum: "Hospedei-me numa módica pensão atrás do Museu Britânico, a cuja biblioteca acorria de manhã e de tarde, em busca de um idioma que fosse digno do Congresso do Mundo". Milhares de ensaios foram escritos sobre a impossibilidade da Humanidade (só existem homens). Borges diz o mesmo, mas com uma pinta divinal. O escritor argentino prova essa impossibilidade através de personagens com navalhas (claro) e de coração apaixonado. Este tema da utopia/distopia volta a ser tratado em "Utopia de um homem que está cansado", o melhor conto da série. É o típico jogo de espelhos borgesiano entre um homem e um duplo que representa um tempo em que os homens voltaram a falar latim (um esperanto retroactivo), em que já não existem países ou cidades, um tempo em que os próprios homens já não têm nome, passado ou família, um tempo em que a vida longa implica o fim do amor e da amizade. A utopia, afinal, é a distopia.
Borges podia ser um chato faraónico ainda por outra razão: o homem leu tudo e, como o próprio afirma no posfácio, muitos dos seus textos pretendem imitar autor x ou y. Borges poderia ser apenas um autor de pastiches para literatos. Mas não é. Porquê? Além das razões acima referidas, encontro outra: há um lado autobiográfico. O leitor sente as emoções do Jorge Luís nos intervalos da erudição de Borges. Por exemplo, é evidente o fascínio infantil (no bom sentido) pela vida dos bandidos e das navalhas de Buenos Aires, esse mundo de coragem física que sempre impressionou este homem que não teve vida além dos livros. Neste sentido, não podia acabar sem uma menção ao conto "A noite das mercês". O alter-ego de Borges foge de uma rixa de bar (com navalhas, obviamente) para encontrar o amor de uma prostituta debaixo de uma cama. Parecendo que não, o Jorge Luís deu muita matéria a Borges.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quinta feira, 9 de fevereiro de 2012
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Um amigo não gostou do filme Os Falsificadores. Diz que não critica "como deve ser" o holocausto e que não respeita "como deve ser" as vítimas, até porque o herói da fita é "um cínico". No fundo, o meu amigo queria uma choradeira à la Lista de Schindler, uma banda sonora melosa e uma glorificação dos mortos em slow motion. Gostos são gostos, e o gosto do meu amigo é débil. Os Falsificadores é um bom filme, porque não é excessivo. A realidade do holocausto já é excessiva, logo, não carece de efeitos de estilo. É essa, aliás, a lição de Primo Levi: a monstruosidade não precisa do ralenti estiloso. Basta a coragem para relatar de forma seca.
Lembrei-me desta conversa com o meu amigo-amante-de-gordura-estilística depois de ler um ensaio de Luís Naves num suplemento Q do DN de sábado (uma das coisas boas que apareceu na imprensa portuguesa). Falando do livro Vida e Destino, Luís Naves diz que Vassili Grossman pretendia denunciar o gulag comunista num "estilo minimalista e sem adornos, pois a realidade dispensa embelezamento, de tal forma é medonha". Ora, o mesmo pode ser dito em relação ao realizador de Os Falsificadores, Stefan Muzowitzky. Em paralelo, Luís Naves destaca ainda outro ponto, que fica sempre esquecido e que é fundamental para encararmos o filme e estas temáticas macabras. É óbvio que Auschwitz e o gulag representam a desumanização, porém, outra coisa também é verdade: os campos de concentração mostram que existe uma humanidade que nem aquilo consegue apagar. Vassili Grossman explica:
"foi no inferno que temperei a minha fé. A minha fé saiu do fogo dos fornos de crematórios, passou através do betão das câmaras de gás. Vi: não é o homem que é impotente na luta contra o mal, vi que o poderoso mal é impotente na luta contra o homem".
Os Falsificadores navega nestas ambíguas águas. O filme mostra como um judeu conseguiu passar por um campo de concentração sem perder a sua humanidade. Não se transformou num autómato desligado do mundo. E não seguiu a via fácil do martírio. A amizade e o desejo permaneceram no seu lugar. No final, vemos ali um homem e não uma vítima, um homem e não um santo sentimentalão. Salomon não é um mártir a cravar lágrimas ao espectador. É apenas um homem. Isto é um homem.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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7:48 Quarta feira, 8 de fevereiro de 2012
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Foi um espectáculo bonito e edificante: em abril de 2011, já depois da declaração de bancarrota, já com a troika a trabalhar no Terreiro do Paço, Sócrates deu uma tolerância de ponto.
Quando ouvi aquilo pela primeira vez, julguei que era piada. Mas não era: a troika estava mesmo a estudar os nossos números numa Lisboa deserta. A malta, ora essa, resolveu deixar os bifes sozinhos e tirou umas mini-férias de 5 dias. Genial. Perfeito. Não podia haver melhor cartão de visita de um país em bancarrota. Aliás, havia ali uma causa/efeito entre o país-das-pontes-e-tolerâncias-de-ponto e a presença de uma entidade externa no centro da soberania. Passou quase um ano, mas aquela naçãozinha dos feriados e das pontes não aprendeu nada. Ai, que é fascismo retirar feriados ao povo, pá.
O auge deste atitude chegou nesta semana passada. Quase um ano depois daquelas mini-férias que intrigaram a troika, o país-do-bem-bom está a fazer um banzé bíblico, porque o atual primeiro-ministro teve a coragem de dizer o óbvio: já chega de tolerâncias de ponto, é preciso mudar de vida. A Europa está como está, o país está debaixo de uma intervenção externa, há milhares de desempregados, há milhares de pessoas a querer encontrar um trabalho, há milhares de pessoas com medo de perder o trabalho, e esta boa gente faz uma birra homérica por causa de uma tolerância de ponto? Volto a dizer: até parece piadinha. Mas sabem que mais? Levem lá a bicicleta, fiquem lá com o carnaval, fiquem lá com a sacrossanta tolerância de ponto. Não, não estou a gozar. Acho mesmo que Passos devia voltar atrás na decisão. Porquê? Porque já não há saco para tanta lamúria, para tanta queixa vinda de gente que tem como máxima preocupação de vida o "gozo legítimo de uma tolerância de ponto, que é uma tradição, ora essa". Sim, ide gozar o Carnaval. E não se esqueçam da tanguinha. Dá muito jeito com este frio.
PS: não por acaso, a troika deve passar por Lisboa na semana do Carnaval. O nosso primeiro-ministro não trata mesmo nada dos nossos interesses. São Bento, ora essa, devia ter proibido essa visita inoportuna.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Terça feira, 7 de fevereiro de 2012
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É um hábito em desuso, eu sei, mas gosto de andar a pé na rua, e não numa passadeira de ginásio. Gosto de andar no meio da malta, e não no meio de senhoras de maiô. Sou, portanto, um sujeito terrivelmente fora de moda. E há um eixo que percorro com especial, vá, denodo: Saldanha-Avenida-Baixa-Cais das Colunas. Gosto de andar por ali. Gosto de ver as brasileiras grã-finas (e de maiô) a torrar dinheiro nos hotéis. Gosto de ver as angolanas do regime (e de maiô) a torrar dinheiro nas lojas da avenida. Gosto de trabalhar nos cafés/quiosques que estão a dar vida nova à avenida. Gosto de mergulhar na multidão de turistas da Baixa. Gosto de chegar ao Cais das Colunas e ficar ali um bocado. É dos poucos sítios onde as pessoas estão caladas. O Tejo tem um efeito narcótico na malta. E não é do cheiro.
Contudo, há diversos obstáculos nesta utopia lisboeta. Para começar, a calçada lisboeta é um tormento. Torcer o pé é o pão nosso de cada dia. Não entendo, aliás, como é que as mulheres ainda não fizeram uma campanha contra esta aberração arquitetónica. Mas, de facto, a coisa mais irritante é uma personagem (na verdade, são várias) que anda sempre na Rua Augusta. Passo por lá há anos, e este cavalheiro de uma certa-de-determinada-etnia-que-eu-não-posso-identificar-porque-seria-logo-rotulado-de-racista tenta sempre vender-me tijolos de haxixe. Não são tirinhas de meio conto. São sabonetes. É assim, repito, há anos. O cavalheiro, ainda por cima, não compreende a palavra não e, por vezes, faz lembrar um turco do Grande Bazar na forma como aplica as técnicas do, digamos, marketing agressivo. Eu sei que tenho cara de agarrado, mas não é preciso insistir tanto.
Eu não sei se o dr. António Costa anda (ou não) a pé pela cidade. Eu não sei se a equipa do dr. Costa anda (ou não) a pé pela cidade. Tenho, porém, a certeza de que não andam a pé pela Rua Augusta. Também sei que o dr. Costa não é polícia, mas, depois de ouvir pela trigésima sexta vez o "queres comprar? É bom, ah!", acho que ganhei o direito de pedir uma coisa ao edil da minha cidade: livrai-nos do cavalheiro do haxixe, dr. Costa. E, já agora, livrai-nos dos arrumadores, que estão a fazer várias OPA sobre novas áreas da cidade. Solte o Rui Rio que há em si, dr. António Costa.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda feira, 6 de fevereiro de 2012
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Na sexta-feira, perante o desprezo olímpico dos média portugueses, Portugal e a Alemanha passaram a estar ligados por um comboio de mercadorias semanal, gerido pela empresa DB Schenker
. Como dizia o Negócios de 18 de Janeiro, este é um "serviço regular pioneiro na passagem pelos Pirinéus". No tempo de Sócrates e do Luís, este seria um dia histórico na economia portuguesa. No tempo da AD, ninguém deu por isso. O Luís faz muita falta.
Repare-se que este não é apenas o pouca-terra-pouca-terra da Auto-Europa. O serviço prestado ajuda outras empresas exportadoras. A DB Schenker garante que a ida Portugal-Alemanha é um sucesso garantido, pois os pedidos já ultrapassam a capacidade do comboio. Ou seja, a ida das exportações está cheia a 100%. E a volta Alemanha-Portugal? A taxa de ocupação é de apenas 60%. Porquê? "É que Portugal já não importa como dantes", diz o responsável português pela DB Schenker. Isto devia ser música para os nossos ouvidos. Este comboiozinho é o símbolo de algo muito positivo que está a acontecer neste momento (as we speak, como dizia meu avô): as nossas exportações continuam a subir e as nossas importações estão a diminuir. É por isso que 2012 pode marcar o primeiro excedente comercial em (muitos, muitos, muitos) anos. Talvez em décadas: em outubro, Van Zeller dizia que, desde que há registo histórico fidedigno, as exportações cobriram as importações pela primeira vez em setembro
. O Luís, na altura, também não deu importância ao facto, mas não deixa de ser extraordinário que a sociedade portuguesa consiga fazer este ajustamento em tão curto espaço de tempo.
A recessão que estamos a viver advém do fim de um modo de vida suicidário que mantivemos durante demasiado tempo. Pedíamos dinheiro emprestado ao exterior (importação de guito) para comprarmos produtos importados (importação de cenas). Se continuássemos neste caminho das importações, entraríamos em bancarrota. Aliás, entramos em bancarrota de jure. Só a troika impede a bancarrota de facto. Por outras palavras, esta recessão era necessária. É como os prejuízos da banca: dói, mas é necessária. Agora, com a ajuda de algum Luís, seria porreiro que as TVs deste santo país mostrassem o comboio que é o símbolo da coisa mais importante que está a acontecer ao país: o fim do desequilíbrio na balança exportações/importações. Mas não dá para fazer um directo circense e neorealista a partir de um comboio, não é verdade?
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Sexta feira, 3 de fevereiro de 2012
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Ainda nos anos 90, Huntington escreveu um livro que continua a assombrar muitas cabeças: O Choque de Civilizações. Para chatear Fukuyama, Huntington afirmou que a democracia liberal era património exclusivo da civilização judaico-cristã. Pior: o mundo, escreveu Huntington, iria entrar num choque de religiões. Desde então (já lá vão quase 20 anos), uma série de pensadores progressistas têm tentado negar a tese de Huntington. A tese, de facto, está errada, mas estes críticos também não acertam no alvo. A grande Madeleine Albright é disso exemplo.
Em Os Poderosos e o Todo-Poderoso, Albright tenta responder a uma questão: como gerir um mundo com tantas religiões? O problema começa logo aqui. Tal como Huntington, Albright dá demasiada importância à religião. A jusante, Albright é diferente de Huntington, porque vê muçulmanos a ler a Bíblia enquanto Huntington vê muçulmanos a queimar a Bíblia. Mas, a montante, na nascente, Albright é idêntica a Huntington, porque coloca a religião no centro da política. Enquanto Huntington prevê o choque, Albright advoga uma espécie de diálogo entre religiões, que, por artes mágicas, resolverá as disputas históricas e éticas entre as diferentes fés. Problema? Isso não existe. Não é possível um diálogo entre religiões. A fé não é tertúlia de café à disposição da diálogo habermasiano. Nem sequer é possível o diálogo entre os ramos de uma dada religião (experimentem ser o árbitro de uma disputa entre um protestante e um católico). Não é possível o tal diálogo-no-sentido-de-se-chegar-a-um-consenso, porque a fé é um absoluto. Isto quer dizer que Huntington estava certo? Isto quer dizer que estamos condenados a um século XXI à imagem do século XVII? Não. Huntington estava certo no potencial explosivo das diferenças religiosas, mas falhou na questão da expansão da democracia.
Se o diálogo não é possível, a tolerância entre religião é possível. E não se confunda tolerância com diálogo-para-se-chegar-a-um-consenso. Tolerância é aceitarmos a existência, logo ali ao virar da esquina, de um templo com malta que está errada na sua fé. Tolerância não é dialética, é boa educação. Tolerância não é dar beijinhos a x. Tolerância é aceitar a presença de x num chão comum. Ora, até prova em contrário, só existe um espaço que permite este chão comum: a democracia liberal. E a boa notícia é que Huntington estava errado a este respeito, isto é, a democracia liberal não é um exclusivo da civilização judaico-cristã. Aquilo que, por exemplo, permite o diálogo político e as alianças políticas entre os EUA e várias potências asiáticas é a existência de um chão comum democrático, é a partilha da mesma cultura de procedimentos políticos, é o sentimento de pertença a uma cultura de tolerância religiosa.
Em suma, a paz e a tolerância religiosa estão contidas na política do velho constitucionalismo liberal, e não num vago diálogo de civilizações. As religiões não se fundem, as religiões não criarão uma enorme Pangeia espiritual. Mas a política das democracias pode criar um chão comum para homens de diferentes fés. As pontes são políticas, e não religiosas.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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7:31 Quinta feira, 2 de fevereiro de 2012
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Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" resolveu abrir uma nova secção: "os convidados". O convidado desta semana é Bruno Faria Lopes, jornalista do i e uma das vozes mais sensatas do espaço público português.
"Dois mitos sobre a emigração portuguesa", por Bruno Faria Lopes
Há dois mitos lusitanos na hora de falar com indignação sobre emigração. O primeiro: Portugal é um país que só exporta "jovens cérebros". O segundo: os "jovens cérebros" estão a ser escorraçados só pela crise económica. Como bons mitos que são impedem-nos de perceber as razões mais profundas do atraso do país - e é por isso que precisam de ser desmontados.
Portugal não exporta só "cérebros" (o conceito habitualmente vago para designar uma pessoa licenciada). A emigração portuguesa é, ainda, dominada por pessoas com qualificações baixas. Os dados mais recentes do INE mostram que Portugal tem cerca de 1,2 milhões de licenciados. Por outro lado, estimativas de Álvaro Santos Pereira (sim, o "Álvaro") sugerem que entre 1998 e 2008 terão saído mais de 700 mil pessoas de Portugal. Como a tendência de saída nos últimos anos terá sido ainda maior, seria preciso que mais de 80% do total de diplomados neste país tivessem abandonado o país para que se pudesse alimentar a ficção de Portugal como um exportador exclusivo da mais fina porcelana intelectual. A clareza dos números é confirmada pela observação empírica de especialistas em emigração, como João Peixoto, investigador do ISEG. É importante destruir este mito porque nos permite recuperar uma imagem mais verdadeira do atraso educacional do país. Portugal é um país onde só entre 2006 e 2009 (!) o número de licenciados superou o de pessoas apenas com o ensino básico. O esforço de educação - uma educação exigente e adaptada ao mundo em que vivemos - continua a ser o maior desafio da jovem democracia portuguesa. O "Portugal dos cérebros" existe na cabeça das elites urbanas (pais e família da maioria dos "jovens cérebros") e dos políticos.
Mas quererá a destruição deste mito dizer que não há "fuga de cérebros" em Portugal? Não. Estudos da OCDE e de especialistas internacionais mostram que Portugal tem das taxas mais altas do chamado "brain drain" - cerca de 20% dos diplomados saem do país. Na OCDE só a Irlanda é pior. E a tendência tem vindo a aumentar: em 1990 a taxa rondava 14%. É verdade que uma década de estagnação seguida de uma recessão sem quartel funciona como um incentivo forte à emigração - e que parte do agravamento virá daí. Mas a crise serve para mascarar razões mais profundas da fuga de jovens qualificados em áreas de alto valor.
E assim chegamos ao segundo mito: sem a crise económica não perderíamos a nossa "geração mais qualificada de sempre". Não é verdade. Sem crise Portugal teria menos emigração jovem qualificada, mas mesmo assim sofreria uma taxa significativa de "brain drain". Joana Azevedo, investigadora do CIES/ISCTE, explica que em inquéritos feitos a jovens portugueses na Irlanda (alguns a trabalhar, por exemplo, na Google) percebeu que o desemprego não foi a causa principal de saída. O motivo foi a procura de uma cultura de trabalho mais centrada no talento, menos hierárquica e com mais gente boa, onde se pode aprender mais e ganhar um salário mais alto. As pessoas com mais impacto potencial na economia (o que restringe a definição do termo "cérebro") saem não tanto por falta de oportunidades em Portugal, mas por falta de oportunidades boas, criadas não só pela economia mas também pela cultura laboral e de gestão. Não há suficientes chefias boas a ensinar. A gestão é hierárquica e motiva pouca participação. Os salários são baixos e mal distribuídos face ao topo. As gerações que educaram os jovens com um foco excessivo na auto-estima dominam um ambiente de trabalho que hostiliza as expectativas emocionais e profissionais desses mesmos jovens.
É importante destruir o mito da culpa exclusiva da crise - ou dos apelos desastrados do governo - para perceber que o modelo de gestão português, típico de um sul da Europa pouco qualificado, nunca serviria para reter as pessoas melhores e para atrair jovens estrangeiros. É mais um sinal do nosso atraso estrutural. A mudança aqui é fulcral e levará tempo a ser acelerada - agora é esperar que aqueles que saíram (para aprender como se faz) regressem ao país.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta feira, 1 de fevereiro de 2012
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Aquilo que mais impressiona na CGTP/PCP é o ódio. É um ódio que pinga nos discursos dos mais velhos. É a raiva que se vê no olhar dos mais novinhos. É o desprezo pelo "outro lado" que acompanha sempre aqueles que se julgam os mais puros, os melhores, os santos. "Sim, porque nós sentimos de maneira diferente", disse-me um comunista certa vez. Sim, de facto, são diferentes. Não há ninguém em Portugal com aquele discurso de ódio, com aquela atitude que desumaniza - à partida - os "traidores" (UGT), a "direita" e os "patrões" (sintam os perdigotos do ódio). A forma como a CGTP/PCP fala do "patrão" é mesmo a sétima sinfonia do ódio. Não há empresários, há apenas "patrões", aquelas figuras sinistras, anafadas, de cartola e fumando charuto. Não por acaso, o PCP anda a reabilitar os Protocolos dos Sábios do Sião. Faz sentido, sim senhora
.
Para alegrar ainda mais o cenário, esta boa gente julga que o ódio é a essência da democracia. Não, não estou a falar da democracia parlamentar, aquela coisa menor que se rege pela urna e pelas instituições. Estou a falar, ora essa, da verdadeira democracia, a democracia da rua. Como consegue reunir muita gente na Av. da Liberdade, a brigada do ódio tem sempre aquela pose de superioridade, aquele arzinho que as claques de futebol lançam sobre os adeptos normais: "nós é que mandamos nisto, pá". É daí que vem a ideia de que as greves dos transportes, por exemplo, são um exercício democrático na defesa do Estado Social. Nos anos quentes do PREC, Álvaro Cunhal, numa célebre entrevista a Oriana Fallaci, disse que as eleições não eram importantes. A malta continua fiel ao mestre. Nem de propósito, um deputado do PCP rotula a vida parlamentar de "jornadas parlamentares da burguesia".
E, para terminar, convém registar que a brigada do ódio também é a brigada do reumático. A CGTP/PCP, que se julga progressista, é a maior coleção de reacionários de Portugal. Estão parados algures nos anos 80 e recusam qualquer mudança nesse status quo. Esta boa gente, que se julga dona do futuro, está agarrada ao passado, só tem o passado para oferecer. A CGTP/PCP, que se julga de esquerda, apresenta, cada vez mais, uma linguagem nacionalista, anti-estrangeiro, anti-Europa. Não falta muito para afirmarem que Salazar não era assim tão mau. Já dão, pelo menos, beijinhos no bigode de Hitler.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Terça feira, 31 de janeiro de 2012
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O ódio queirosiano e salazarista em relação ao parlamento e à vidinha representativa é uma marca da nossa cultura (sim, Eça e Salazar eram farinha do mesmo saco neste ponto). Nos últimos meses, este populismo tem batido vários recordes e tem sido o ganha-pão do jornalismo-que-dá-ao-povo-aquilo-que-ele-quer-ouvir. Na semana passada, por exemplo, Ana Draga foi queimada nesta pira queirosiana, porque, imaginem, usou um motorista para ir a Guimarães. Quem diria, ah? Quem diria que um representante da nação tem acesso a coisas que um cidadão normal não tem? Só mesmo neste país, não é verdade?
Pelo que percebi, Ana Drago é o segundo lisboeta que não conduz (o primeiro sou eu), logo, usou um motorista do BE ou do parlamento para ir a Guimarães em trabalho. Levantou-se logo uma onda de choque contra Drago. Esta deputada não vai ganhar 40 mil euros na EDP e não anda por Paris depois de ter arruinado o país, mas teve de ouvir o calão anti-partidos: "mas porque é que não vai no seu carro?"; "porque é que não vai de comboio?". De facto, como é que uma representante do país tem a lata de andar de motorista? Como é uma representante do país tem o descaramento de fazer o seu trabalho fora da assembleia? Os deputados têm de ficar quietinhos, lá no gabinete da assembleia. Ou não. Se calhar, também devíamos acabar com isso, porque é escandaloso que os deputados tenham secretárias (a senhora e a mesa) pagas por todos nós, não é verdade?
Este populismo anti-partidos está a passar alguns limites, e está a confundir as coisas. Uma coisa é debater uma redução do salário dos deputados
ou mesmo a redução do número de deputados. Outra coisa, bem diferente, é cair em cima de qualquer gasto remotamente principesco de um deputado. É bom não esquecer uma coisa: a democracia é um regime caro; não há democracias grátis. A conversa do "deputado é um bandido com motorista" esquece esta evidência e faz demasiadas tangentes à conversa que elevou Salazar ao poder. Convém evitar isto, porque o Estado Novo era mesmo um regime baratucho, e o tuga adora uma bela loja dos trezentos.
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Henrique Raposo (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda feira, 30 de janeiro de 2012
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W. G. Sebald morreu há 10 anos e quase ninguém deu por isso. Não é justo. Sebald não é o génio da moda sebaldista de há uns anos, mas também não é um escritor que mereça um esquecimento prematuro. Até porque nos diz muito sobre esse assunto menor chamado "no início são 11 contra 11, e no fim ganha a Alemanha".
Nunca entrei na moda sebaldista da primeira metade dos anos 2000. Nessa altura, qualquer candidato a literato tinha de dizer que "sim senhor, li o Sebald todo, e em alemão". Como ficcionista (como narrador, se quiserem), Sebald é um chato faraónico. Está demasiado preso ao cliché da morte da narrativa e do romance, e, por isso, as suas histórias são seres híbridos e chatinhos, algures entre o diário, o ensaio e o romance. No final do dia, aquilo é uma pasta disforme e obscura. Mas, como sempre, muitos críticos e literatos confundiram aquela ilegibilidade com sofisticação (não há nada mais previsível do que o literato pós-moderno). Porém, no meio da ilegibilidade, um romance de Sebald merece muita atenção: Austerlitz.
Austerliz começa com o encontro entre o narrador e Austerlitz (Antuérpia, anos 60). Os encontros repetem-se em Londres e em vários locais da Bélgica. Após longa separação, voltam a encontrar-se (anos 90). Ao início, Austerlitz é relutante em falar do seu passado; vive apenas no presente, numa espécie de concepção circular de tempo. Mas, numa segunda fase destes reencontros, Austerlitz já se confessa preocupado com a memória. Acabamos por descobrir que Austerlitz é de origem judia: nasceu em Praga, e, ainda em criança, foi deportado para Inglaterra nos Kindertransporte, enquanto os seus pais ficaram na máquina de extermínio nazi. Ora, no final do livro, Sebald garante a Austerlitz uma saída minimamente redentora: a personagem parte em busca da memória do pai (em Paris), depois de ter desenterrado o passado da mãe. E o narrador? Não tem a mesma sorte. O narrador, sendo alemão, não encontra a redenção, não tem um momento de expiação, não encontra uma saída para o seu labirinto. Este contraste entre a linearidade redentora de Austerlitz e a espiral labiríntica do narrador é essencial para compreendermos o simbolismo do livro: este narrador é a personificação da Alemanha pós-guerra, a Alemanha enterrada numa culpa que a impede de sair para uma redenção colectiva.
Até ao advento desta crise europeia, eu dizia que este livro representava o ethos da Alemanha contemporânea, da Alemanha pós-guerra. Contudo, tendo em conta os últimos anos, parece-me que Sebald já não é o profeta da psique alemã. Porque esta Alemanha de 2012 já não é a Alemanha do pós-guerra, já é uma Alemanha que pensa a sua relação com os outros sem o fantasma de Hitler. E sabem uma coisa? Ainda bem.
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Ver 10, 20, 50 resultados por pág.
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