A comissão parlamentar foi um pódio para Oliveira Costa e um lugar de expiação para Constâncio. Os delinquentes assumidos sentem-se bem no banco dos réus; as pessoas honestas vítimas das suas fraquezas nem por isso.
Constâncio recorre a desculpas esfarrapadas porque não pode explicar as suas não decisões: não pode dizer que Oliveira Costa/Dias Loureiro construíram um poderoso aparelho de poder que intimidava as fracas instituições da sociedade portuguesa. Não pode dizer que Oliveira Costa obteve o seu poder no PSD recolhendo fundos para o partido (no tempo da lei antiga) e que na sua passagem pela secretaria dos Assuntos Fiscais (devemos-lhe a reforma fiscal de 89) mostrou a sua capacidade, boa e má, para o exercício do poder.
Não pode dizer que Oliveira Costa, ao mesmo tempo que detinha todos os poderes efectivos, tinha recheado os órgãos sociais do banco com figuras de proa da política: procurando na net lá estavam as imponentes fotografias dos muitos e variados conselhos com figuras como o antigo presidente do PSD Rui Machete em posições de grande destaque.
Ao mesmo tempo, tecendo pacientemente a sua teia, ia proporcionando ganhos modestos mas simpáticos e inteiramente legais a quem dispunha de influência: as mais-valias de Cavaco e família recentemente reveladas pelo Expresso são disso um exemplo eloquente.
Para completar a rede, alguns esfaimados do PS e no auge do seu poder até gente do Ministério Público e um ex-director da Polícia Judiciária.
Tudo isto, esta rede que funcionou anos e anos à vista de todos, explica os silêncios e as omissões.
Constâncio tem razão quando diz que em toda a parte houve falhas de regulação (os casos do BCP e do BPP correspondem a esse tipo de falhas e não deveriam ser misturados com o BPN) que em Portugal se fala pouco de revisores oficiais de contas e auditores. O BPN não tinha as suas contas certificadas pela Bdo Binder sem que ninguém fale disso?
Mas não pode explicar nem a certificação com reservas da Delloitte (certificação com reservas de um banco que recebe depósitos) nem os abandonos anteriores das outras multinacionais de auditoria.
Constâncio não podia ignorar as denúncias atempadas de Camilo Lourenço na "Exame" e foi muito pouco digno da sua parte não o ter apoiado quando ele teve que suportar as retaliações da quadrilha.
A falta de coragem não é um crime, mas pode ser uma fonte de catástrofes quando se exercem certos cargos.
Para culminar tudo isto, uma administração do Banco de Portugal onde já não reina o espírito de serviço público dos tempos de Silva Lopes e de onde ao fim de quatro anos os administradores partem devidamente ungidos com uma renda vitalícia tão choruda quanto o ordenado e a que chamam pudicamente reforma.
PS: Uma boa parte da conta do BPN deveria ser remetida para o país onde tinha sede o famigerado Banco Insular o que quer dizer Cabo Verde. Com a sua ambição de se tornar um paraíso fiscal e recusando a cooperação, Cabo Verde é hoje um país-irmão cuja amizade era perfeitamente dispensável.
*Fiscalista