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As tribulações de Constâncio

J. L. Saldanha Sanches*
8:00 Quarta feira, 17 de junho de 2009

A comissão parlamentar foi um pódio para Oliveira Costa e um lugar de expiação para Constâncio. Os delinquentes assumidos sentem-se bem no banco dos réus; as pessoas honestas vítimas das suas fraquezas nem por isso.

Constâncio recorre a desculpas esfarrapadas porque não pode explicar as suas não decisões: não pode dizer que Oliveira Costa/Dias Loureiro construíram um poderoso aparelho de poder que intimidava as fracas instituições da sociedade portuguesa. Não pode dizer que Oliveira Costa obteve o seu poder no PSD recolhendo fundos para o partido (no tempo da lei antiga) e que na sua passagem pela secretaria dos Assuntos Fiscais (devemos-lhe a reforma fiscal de 89) mostrou a sua capacidade, boa e má, para o exercício do poder.

Não pode dizer que Oliveira Costa, ao mesmo tempo que detinha todos os poderes efectivos, tinha recheado os órgãos sociais do banco com figuras de proa da política: procurando na net lá estavam as imponentes fotografias dos muitos e variados conselhos com figuras como o antigo presidente do PSD Rui Machete em posições de grande destaque.

Ao mesmo tempo, tecendo pacientemente a sua teia, ia proporcionando ganhos modestos mas simpáticos e inteiramente legais a quem dispunha de influência: as mais-valias de Cavaco e família recentemente reveladas pelo Expresso são disso um exemplo eloquente.

Para completar a rede, alguns esfaimados do PS e no auge do seu poder até gente do Ministério Público e um ex-director da Polícia Judiciária.

Tudo isto, esta rede que funcionou anos e anos à vista de todos, explica os silêncios e as omissões.

Constâncio tem razão quando diz que em toda a parte houve falhas de regulação (os casos do BCP e do BPP correspondem a esse tipo de falhas e não deveriam ser misturados com o BPN) que em Portugal se fala pouco de revisores oficiais de contas e auditores. O BPN não tinha as suas contas certificadas pela Bdo Binder sem que ninguém fale disso?

Mas não pode explicar nem a certificação com reservas da Delloitte (certificação com reservas de um banco que recebe depósitos) nem os abandonos anteriores das outras multinacionais de auditoria.

Constâncio não podia ignorar as denúncias atempadas de Camilo Lourenço na "Exame" e foi muito pouco digno da sua parte não o ter apoiado quando ele teve que suportar as retaliações da quadrilha.

A falta de coragem não é um crime, mas pode ser uma fonte de catástrofes quando se exercem certos cargos.

Para culminar tudo isto, uma administração do Banco de Portugal onde já não reina o espírito de serviço público dos tempos de Silva Lopes e de onde ao fim de quatro anos os administradores partem devidamente ungidos com uma renda vitalícia tão choruda quanto o ordenado e a que chamam pudicamente reforma.

PS: Uma boa parte da conta do BPN deveria ser remetida para o país onde tinha sede o famigerado Banco Insular o que quer dizer Cabo Verde. Com a sua ambição de se tornar um paraíso fiscal e recusando a cooperação, Cabo Verde é hoje um país-irmão cuja amizade era perfeitamente dispensável.

*Fiscalista

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EXCELENTE!
cjours (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 16:11 | Quarta feira, 17 de junho de 2009
Excelente artigo! Excelente artigo! É isto que interessa! Artigos de gente descomprometida com a Partidocracia instalada! Já não há pachorra para as visões ideológicas, ou partidárias, de tudo e mais alguma coisa! Não quero a opinião de politicos a fazerem o frete de comentador, articulista ou jornalista! Quero ouvir quem está no mercado, na sociedade, nas empresas, os técnicos, os profissionais, quem lida com o mundo real e não quem arrasta o ranho pelos corredores politicos, qual lesma!!!!
 
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Incompreensível
Resignado (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 2:03 | Sexta feira, 19 de junho de 2009
Quero felicitar a coragem e a frontalidade demonstradas neste artigo. Efectivamente é incompreensível como se mantém o governador à frente de uma instituição de extrema importância, tendo dado provas inequívocas de incompetência. Não importa se tem a culpa directa sobre a supervisão mas aconteceu durante a sua chefia. Que credibilidade é que se apresenta o BdP para o futuro? Em relação às «reformas» é claramente um escândalo ainda maior. Este senhor e a sua equipa deviam ser despedidos com justa causa e sem «reforma». É indigno o que se está a passar e ainda por cima e sr.governador fala para os deputados de forma grossa e sobranceira. Não há qualificação possível a dar para esta situação. Só mesmo num país sem ordem.
 
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O.C.
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 11:44 | Sábado, 20 de junho de 2009
Muito bem explicado o desempenho de Oliveira Costa. Este homem soube comprometer e aliciar porque conhece como ninguém o poder do dinheiro. Possivelmente deu mais a ganhar do que ganhou, financeiramente. No entanto, teve mais poder do que os outros. Sabe como se compram os homens. Não é um ladrão, é um psicólogo.Percebeu-se bem isso naquelas horas do inquérito.
 
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Impressionado.
Sebastião da Treta (seguir utilizador), 1 ponto , 12:01 | Sábado, 20 de junho de 2009
Foi como fiquei por ler isto.

É completamente verdade.

Acho que é ridículo quando se tenta crucificar Constâncio, quando todos nós sabemos que nesta década, a palavra de ordem era "neo-liberalismo" e "laissez-faire".

Se houve "ingenuidade" dos reguladores, foi por causa do espírito político na altura. Vítor Constâncio é tão culpado, como qualquer outro regulador do Planeta.

O que acho ainda mais ridículo, é o Partido do Paulinho, com o seu deputado Nuno Melo a fazer aquilo que faz melhor... de palerma. Como é que se pode compreender que o partido que mais tudo fez pelo neo-liberalismo em Portugal, queria crucificar Constâncio pelas aldrabices e roubalheiras que tal ideologia trouxe? Simples... É assim a política...

Muita coisa se ignorou, e muitas vezes, não se foi longe... Uns avisos aqui e ali, umas cartinhas, mas ficava sempre por aí. Era o século do neo-liberalismo... Mas será que é Constâncio que tem de pagar por isto tudo?

Política... A fazer fantochadas desde que existem aldrabões.
 
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