Sempre que vem à baila o sucesso "O Bacalhau Quer Alho", há uma imagem que se associa de imediato: a de um menino franzino, de bigode postiço, chapéu preto na cabeça e uma concertina nos braços, que com ar malandro imitava os trejeitos de Quim Barreiros. E, afinal, o que é feito do Pequeno Saúl, o menino sorridente, a quem ninguém ficava indiferente?
Pois bem. O Pequeno Saúl cresceu, sim senhor, embora não muito - tem 1,63 metros -, passou a chamar-se "Artista Saúl Ricardo", acabou de renovar o seu site
e prepara-se para lançar este mês o seu 10.º álbum. Ou seja, afinal, "o menino", agora com 22 anos, esteve "sempre no activo", como o próprio confessa. E continua "a viver da música, ou melhor, a sobreviver". Com "50 a 70 espectáculos por ano, em Portugal e no estrangeiro", é agora dono do seu destino, diz ele, orgulhosamente. Mas a sua curta vida está longe de ter sido um mar de rosas. O menino sorridente viu-se obrigado a crescer à força, abandonado pelos pais, que o deixaram sem dinheiro e à beira do suicídio quando tinha 18 anos.
Tudo começou...
A história começa com a sua primeira aparição no "Big Show SIC", em 1993, tinha então 6 anos. Depois de em casa mostrar jeito para imitar Quim Barreiros, cantarolando por cima da voz do seu ídolo, Saúl é levado pelos pais ao "Big Show SIC". Não demora muito até conhecer Quim Barreiros e conquistar os portugueses com o seu ar maroto e franzino. De tal maneira que em 1996 surge o convite da Vidisco para gravar o álbum - "O Bacalhau Quer Alho" - que viria a ser tripla platina.
Com a gravação do álbum, seguiram-se "três anos sem parar". "Em 1996, 97 e 98 fazíamos mais ou menos 280 dias de espectáculos por ano. Eram quatro e cinco espectáculos por dia." Foram os anos de ouro do pequeno artista, que passou a ser o ganha-pão da família. "Nessa altura já os meus pais tinham largado o circo. O meu pai era ilusionista e palhaço, a minha mãe fazia parceria com ele e recortes de papel. Não íamos continuar a viver em caravanas se tínhamos hipóteses de ter uma casa", recorda Saúl. "Aqueles foram tempos engraçados. Lembro-me de tomar banho em bacias, de ter uma macaquita... Sinto saudades daquela vida, mas não quer dizer que queira voltar a viver em caravanas", diz.
Depois de dois anos a viver num apartamento na Tocha, os pais de Saúl compraram uma vivenda em Santana, com terreno à volta. "Aos poucos, fomos melhorando. Aquilo era um palácio. Tinha tudo: campo de futebol, cavalariças com cavalos e póneis, além de galinhas, porcos, por aí fora..." Entretanto, a família aumentava. "Sou o segundo mais velho de cinco irmãos."
O Pequeno Saúl lá se ia dividindo entre as aulas (umas vezes na escola, outras com professores particulares) e os espectáculos, que se prolongavam noite fora. "O que mais me custava eram as discotecas. Estava a dormir no sofá, e às 4 ou 5 horas da manhã iam acordar-me para cantar." Como qualquer criança daquela idade, de vez em quando também fazia as suas birras. "Uma vez, numa feira em Penafiel, a minha mãe não queria comprar-me um camiãozinho, e eu disse-lhe: 'Ai não me compras o camião, então não me visto.' A meia hora de subir para o palco lá foi ela comprar o camião, senão eu não me vestia e não cantava."
Passados
os três anos de ouro, os espectáculos continuaram pelo país e no estrangeiro, mas os convites para programas televisivos tornaram-se mais raros. "Não sei porque deixaram de me chamar. Sinceramente, não consigo perceber." O Pequeno Saúl crescia à medida que os sucessos diminuíam. A passagem pela adolescência levou-o primeiro a tentar mudar de estilo, em 2000, lançando "um disco pop" intitulado "Gosto de Ti à Brava", e mais tarde a pintar o cabelo de loiro. "Foi uma maluqueira que me deu, mas felizmente passou."
Enganado pelos pais?
Entretanto, aos 18 anos, deu-se o episódio que viria a deixar uma profunda marca na vida do cantor. Os pais já tinham vendido a casa de Santana, e a mãe de Saúl viajou para Londres sem dar explicações. Ele nunca entendeu porquê. A primeira vez que foi ao banco actualizar a caderneta, não queria acreditar: "Só tinha 14 euros."
Como só a mãe tinha acesso à conta, ligou-lhe a pedir explicações. Mas não as obteve. Atribuiu as culpas à mãe, uma vez que tinha partido, e meteu-se ao ombro do pai. "Mas passado algum tempo ele foi-se embora também. Foi ter com ela. Eu e os meus irmãos fomos para casa da minha avó. Só lá fiquei duas semanas. Arranjei maneira de alugar um apartamento na Figueira da Foz. Queria estar sozinho", recorda.
Saúl só se apercebeu da realidade no dia em que foi ao banco, mas os gastos dos pais já estavam à vista. "Houve uma altura em que havia carros novos todos os meses. Sei que andavam no jogo... Só que uma coisa é ir ao casino gastar 100 euros de vez em quando, outra é ir lá quase todos os dias e gastar três ou quatro mil. O dinheiro vai-se."
Diz que é capaz de perdoar os gastos no primeiro e segundo anos de sucesso, porque "para qualquer pessoa é a mesma coisa que ter ganho o Euromilhões". "Não teres dinheiro, não ter algumas vezes o que comer, ou ter de dividir, como fiz muitas vezes com os meus irmãos, e depois ganhar cinco ou seis milhões de euros... pensas: 'Eh, pá, isto está bom!' Deslumbras-te um bocado", justifica. E acrescenta: "Mas a partir daí deviam ter pensado no futuro dos filhos. Fomos cinco a ser prejudicados."
Desiludido e revoltado, Saúl confessa que "queria deixar de cantar" e que chegou mesmo a pensar em matar-se. "Na altura, bati mal. Se não fosse a minha namorada... Tentei o suicídio... Mas a vida é para ir para a frente e esquecer o passado", conclui sem querer voltar ao assunto.
Saúl aposta agora no novo trabalho, cujo tema de lançamento é "o rabo do bacalhau", quer continuar a dar espectáculos pelo país e no estrangeiro e sonha em encher o Coliseu ou o Tivoli daqui a quatro anos, para comemorar os 20 anos de carreira. E espera não morrer sem conhecer Rui Veloso...