O Instituto de Meteorologia e os resultados da sua tecnologia de ponta
Na página da Internet do Instituto de Meteorologia (IM) consta que, no orçamento de 2008, cerca de 7,5 milhões de euros provieram directamente dos nossos impostos. Que dispunha de um supercomputador IBM P5 e de um cluster DELL (aglomerado de computadores). Que tinha três centros de investigação na área da meteorologia mas nenhum artigo científico publicado em revistas de referência. Em 2009 tinha 381 funcionários, 50 dos quais admitidos em 2009.
Numa reportagem do Diário Económico (12 de Março), afirma-se em grandes títulos, na sequência de declarações dos seus principais responsáveis, que "Portugal utiliza tecnologia de ponta para prever o tempo". Victor Prior, outro alto responsável do IM, agora na Madeira, afirma também (Notícias da Madeira de 10 de Março) que "prever o que aconteceu estava fora das potencialidades dos modelos usados pelo Instituto de Meteorologia", e que o "IM recusa usar contributos de modelos académicos".
Estas declarações, a que se poderiam juntar as que foram feitas ao Expresso de 27 de Fevereiro e no comunicado institucional do IM motivado pela nossa entrevista à Antena 1, permitem concluir, sem qualquer ambiguidade, que apesar de toda a tecnologia de ponta que diz utilizar, o IM não foi capaz de prever, com mais de 12 horas de antecedência, a situação meteorológica que provocou a tragédia material e humana na Madeira, cifrada em dezenas de mortos/desaparecidos.
O Grupo de Previsão Numérica do Tempo no IST
O Grupo de Previsão Numérica do Tempo (GPNT), cujos investigadores fazem parte de um centro de excelência da Fundação para a Ciência e Tecnologia (o IN+) tem cerca de 10 anos, e nasceu da impossibilidade prática de realizar trabalhos autónomos de investigação que envolvessem informação/previsão meteorológica sobre Portugal sem o beneplácito do IM.
Este, interpretando abusivamente o seu estatuto legal, criou um monopólio de facto, que também impediu, e impede, qualquer controlo independente da qualidade dos dados que recolhe, da qualidade das previsões que faz, da justeza dos alertas que lança ou dos que estrondosamente falha. Esta estratégia permite-lhe furtar-se a uma responsabilização pública pelos serviços que presta, pelas certificações oficiais que faz e pelos prejuízos materiais e humanos que causa e poderiam ser evitáveis face aos recursos de que dispõe.
O GPNT conseguiu nascer, e crescer, na total independência do IM, mercê da generosa colaboração de universidades e organismos oficiais dos EUA. A demonstração pública do que conseguiu traduz-se, desde 2001, na disponibilização diária e gratuita da previsão meteorológica para o Continente, hora a hora, actualizada quatro vezes por dia (em http://meteo.ist.utl.pt/new) e, mais recentemente, da comparação das previsões com os valores observados (que não dependem do IM) nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro.
O caminho aberto foi depois seguido por outros grupos universitários portugueses, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (prof. Pedro Miranda) e na Universidade de Aveiro (prof. Alfredo Rocha).
O GPNT foi e é inteiramente financiado (incluindo o equipamento) por serviços prestados, nomeadamente à REN, após concurso público internacional seguido de benchmarking. Embora convidado, o IM nem sequer concorreu. A REN utiliza um conjunto mais alargado de valores do que os publicamente divulgados, nomeadamente em altitude, para a previsão da energia eólica. Esta é publicamente disponibilizada pela REN.
O convite que explicita e publicamente repetimos ao IM é que, em vez de críticas sem fundamento, disponibilize publicamente as suas previsões com o pormenor e a interactividade das que nós fazemos há muitos anos. Só depois disso poderá ter alguma autoridade científica, ética e profissional para fazer as declarações que faz sobre os nossos trabalho.
Os serviços prestados pelo GPNT à Protecção Civil
Iniciado há anos com o exemplar serviço de protecção civil da Câmara Municipal de Lisboa, o actual sistema de alertas do GPNT consiste numa previsão inicial de sete dias (poderá ir até 15 se houver justificação), seguido de actualizações todas as seis horas seguintes. Se a previsão de sete dias indiciar uma situação preocupante, há um aviso automático, por email ou SMS, para os responsáveis do serviço ficarem atentos ao evoluir da situação e para consultarem todas as observações disponíveis (satélites, radar, etc.).
Se as previsões e observações seguintes confirmarem a previsão inicial, os serviços operacionais são alertados e, habitualmente, três dias antes, o aviso público é recomendado depois de comunicação e consulta à Autoridade Nacional de Protecção Civil.
As nossas recomendações e as do IM nem sempre coincidem, cabendo à autoridade responsável decidir qual adopta, baseada na experiencia prática que entretanto adquiriu. As nossas são muitas vezes seguidas. Estou disponível, como sempre estive, para fazer com o IM comparações caso a caso, adoptando os melhores standards internacionais de avaliação.
Tendo tido conhecimento do nosso trabalho, a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) , tomou a iniciativa, há meses, de solicitar a sua inclusão no sistema de previsões e alertas do GPNT, o qual foi por isso alargado a todo o Continente. O serviço é gratuito, (tal como o anterior) e poderia ser melhorado se o IM, por exemplo, disponibilizasse em tempo quase real as observações da sua rede (que todos pagamos) como sucede, por exemplo, nos EUA.
A previsão para a Madeira
O Expresso de 27 de Fevereiro publicou a actuação que teria sido seguida se as informações de rotina que enviamos diariamente para a ANPC incluíssem operacionalmente a Madeira. Para tal, foi exclusivamente utilizada (como é óbvio) a informação global disponível no dia 14 com que foi elaborada a previsão de rotina para o Continente.
A conclusão foi que, pelas seis a sete horas da manhã do dia 14 de Fevereiro (sete dias antes da tragédia de dia 20), teria sido enviado um aviso aos serviços para que estivessem muito atentos ao evoluir da situação. Pelas 12-13 horas do dia 14, e com base na informação global nessa altura disponível, a previsão seria actualizada.
O procedimento teria sido repetido todas as seis horas seguintes e confirmada a gravidade do que se aproximava. Por isso e, pelo menos 72 horas antes da tragédia, teria sido enviada à ANPC uma recomendação para que emitisse um alerta vermelho e accionasse os respectivos planos de emergência.
Os modelos ditos "académicos"
O modelo a que o responsável do IM na Madeira, Victor Prior, chama "académico" é o utilizado, nomeadamente, pelos serviços meteorológicos dos EUA e a sua Força Aérea. Recuperar o atraso, relativamente a ele, é uma das justificações do consórcio liderado pela Meteorologia Francesa em que o IM participa, e que consome 40 milhões de euros por ano.
Coerente consigo próprio, o IM preferiu gastar o dinheiro que se queixa de não ter, em vez de utilizar um modelo melhor e, sobretudo, mais largamente testado, com a particularidade acrescida de ser gratuito e de haver em Portugal quem domine, há anos, as suas enormes potencialidades operacionais.
Todavia, face ao ocorrido, fazer agora uma peroração sobre que modelo, ou que modelos, seriam melhores ou mais adequados para prever a situação verificada, como pretendem os responsáveis do IM, não passa de uma tentativa canhestra de iludir as realidades e de fugir às suas responsabilidades.
Questões à espera de resposta
O respeito pela memória das dezenas de mortos/desaparecidos, muitos dos quais evitáveis, exige por isso que responda, sem subterfúgios ou ambigüidades às seguintes questões muito concretas:
- Porque motivo contesta o IM as conclusões do GPNT (confirmadas independentemente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidade de Aveiro), cuja capacidade operacional e fiabilidade se encontram amplamente demonstradas por anos de prestação de serviços, e que teriam previsto a gravidade do ocorrido?
- Quem são os responsáveis pela escolha e utilização de um modelo supostamente melhor ( por não ser "académico"?) e muitíssimo mais dispendioso, para o qual o IM já em 2008 organizava formação, mas que em 2010 nem sequer consegue ter adequadamente operacional ?
- Como justifica o IM a sua incapacidade objectiva de competir em qualidade e fiabilidade com as previsões e avisos meteorológicos de um grupo universitário mais de 100 vezes menor, que não recebe um cêntimo do erário público, ao qual o IM impede o acesso aos dados que recolhe no país e à informação internacional privilegiada que lhe é facultada pelo monopólio de representar Portugal ?
É também importante que se esclareça porque motivo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que tutela não só o IM como as instituições em que se integram o GPNT, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Universidade de Aveiro, se absteve de toda e qualquer intervenção correctiva, apesar de repetidamente informado da inevitabilidade de uma situação como a que se a verificou na Madeira, bem como de outras que vão ao cerne da credibilidade científica de dados e de declarações em que o IM é pródigo, nomeadamente sobre alterações climáticas.
* Coordenador do Grupo de Previsão Numérica do Tempo do Instituto Superior Técnico