13/02/2012 atualizado às 19:35

OPINIÃO

As responsabilidades do Instituto de Meteorologia na tragédia da Madeira

Delgado Domingos, coordenador do Grupo de Previsão Numérica do Tempo (GPNT) do Instituto Superior Técnico, rebate neste artigo de opinião as críticas que lhe foram feitas recentemente pelo Instituto de Meteorologia - em comunicado público - e pelo director do Observatório de Meteorologia do Funchal, a propósito da previsão da catástrofe da Madeira. Recorde-se que o GPNT fez uma simulação para o Expresso em que provava que era possível ter previsto o dilúvio que se abateu sobre a ilha com sete dias de antecedência. Clique para visitar o dossiê Catástrofe na Madeira

José Delgado Domingos* (www.expresso.pt)
19:58 Quarta feira, 17 de março de 2010
Delgado Domingos insiste que o monopólio do Instituto de Meteorologia 'impede qualquer controlo independente da qualidade das previsões que faz, da justeza dos alertas que lança ou dos que estrondosamente falha'
Delgado Domingos insiste que o monopólio do Instituto de Meteorologia 'impede qualquer controlo independente da qualidade das previsões que faz, da justeza dos alertas que lança ou dos que estrondosamente falha'

O Instituto de Meteorologia e os resultados da sua tecnologia de ponta


Na página da Internet do Instituto de Meteorologia (IM) consta que, no orçamento de 2008, cerca de 7,5 milhões de euros provieram directamente dos nossos impostos. Que dispunha de um supercomputador IBM P5 e de um cluster DELL (aglomerado de computadores). Que tinha três centros de investigação na área da meteorologia mas nenhum artigo científico publicado em revistas de referência. Em 2009 tinha 381 funcionários, 50 dos quais admitidos em 2009.

Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ CATÁSTROFE NA MADEIRA

Numa reportagem do Diário Económico (12 de Março), afirma-se em grandes títulos, na sequência de declarações dos seus principais responsáveis, que "Portugal utiliza tecnologia de ponta para prever o tempo". Victor Prior, outro alto responsável do IM, agora na Madeira, afirma também (Notícias da Madeira de 10 de Março) que "prever o que aconteceu estava fora das potencialidades dos modelos usados pelo Instituto de Meteorologia", e que o "IM recusa usar contributos de modelos académicos".

Estas declarações, a que se poderiam juntar as que foram feitas ao Expresso de 27 de Fevereiro e no comunicado institucional do IM motivado pela nossa entrevista à Antena 1, permitem concluir, sem qualquer ambiguidade, que apesar de toda a tecnologia de ponta que diz utilizar, o IM não foi capaz de prever, com mais de 12 horas de antecedência, a situação meteorológica que provocou a tragédia material e humana na Madeira, cifrada em dezenas de mortos/desaparecidos.

O Grupo de Previsão Numérica do Tempo no IST


O Grupo de Previsão Numérica do Tempo (GPNT), cujos investigadores fazem parte de um centro de excelência da Fundação para a Ciência e Tecnologia (o IN+) tem cerca de 10 anos, e nasceu da impossibilidade prática de realizar trabalhos autónomos de investigação que envolvessem informação/previsão meteorológica sobre Portugal sem o beneplácito do IM.

Este, interpretando abusivamente o seu estatuto legal, criou um monopólio de facto, que também impediu, e impede, qualquer controlo independente da qualidade dos dados que recolhe, da qualidade das previsões que faz, da justeza dos alertas que lança ou dos que estrondosamente falha. Esta estratégia permite-lhe furtar-se a uma responsabilização pública pelos serviços que presta, pelas certificações oficiais que faz e pelos prejuízos materiais e humanos que causa e poderiam ser evitáveis face aos recursos de que dispõe.

O GPNT conseguiu nascer, e crescer, na total independência do IM, mercê da generosa colaboração de universidades e organismos oficiais dos EUA. A demonstração pública do que conseguiu traduz-se, desde 2001, na disponibilização diária e gratuita da previsão meteorológica para o Continente, hora a hora, actualizada quatro vezes por dia (em http://meteo.ist.utl.pt/new) e, mais recentemente, da comparação das previsões com os valores observados (que não dependem do IM) nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro.

O caminho aberto foi depois seguido por outros grupos universitários portugueses, nomeadamente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (prof. Pedro Miranda) e na Universidade de Aveiro (prof. Alfredo Rocha).

O GPNT foi e é inteiramente financiado (incluindo o equipamento) por serviços prestados, nomeadamente à REN, após concurso público internacional seguido de benchmarking. Embora convidado, o IM nem sequer concorreu. A REN utiliza um conjunto mais alargado de valores do que os publicamente divulgados, nomeadamente em altitude, para a previsão da energia eólica. Esta é publicamente disponibilizada pela REN.

O convite que explicita e publicamente repetimos ao IM é que, em vez de críticas sem fundamento, disponibilize publicamente as suas previsões com o pormenor e a interactividade das que nós fazemos há muitos anos. Só depois disso poderá ter alguma autoridade científica, ética e profissional para fazer as declarações que faz sobre os nossos trabalho.

Os serviços prestados pelo GPNT à Protecção Civil


Iniciado há anos com o exemplar serviço de protecção civil da Câmara Municipal de Lisboa, o actual sistema de alertas do GPNT consiste numa previsão inicial de sete dias (poderá ir até 15 se houver justificação), seguido de actualizações todas as seis horas seguintes. Se a previsão de sete dias indiciar uma situação preocupante, há um aviso automático, por email ou SMS, para os responsáveis do serviço ficarem atentos ao evoluir da situação e para consultarem todas as observações disponíveis (satélites, radar, etc.).

Se as previsões e observações seguintes confirmarem a previsão inicial, os serviços operacionais são alertados e, habitualmente, três dias antes, o aviso público é recomendado depois de comunicação e consulta à Autoridade Nacional de Protecção Civil.

As nossas recomendações e as do IM nem sempre coincidem, cabendo à autoridade responsável decidir qual adopta, baseada na experiencia prática que entretanto adquiriu. As nossas são muitas vezes seguidas. Estou disponível, como sempre estive, para fazer com o IM comparações caso a caso, adoptando os melhores standards internacionais de avaliação.

Tendo tido conhecimento do nosso trabalho, a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) , tomou a iniciativa, há meses, de solicitar a sua inclusão no sistema de previsões e alertas do GPNT, o qual foi por isso alargado a todo o Continente. O serviço é gratuito, (tal como o anterior) e poderia ser melhorado se o IM, por exemplo, disponibilizasse em tempo quase real as observações da sua rede (que todos pagamos) como sucede, por exemplo, nos EUA.

A previsão para a Madeira


O Expresso de 27 de Fevereiro publicou a actuação que teria sido seguida se as informações de rotina que enviamos diariamente para a ANPC incluíssem operacionalmente a Madeira. Para tal, foi exclusivamente utilizada (como é óbvio) a informação global disponível no dia 14 com que foi elaborada a previsão de rotina para o Continente.

A conclusão foi que, pelas seis a sete horas da manhã do dia 14 de Fevereiro (sete dias antes da tragédia de dia 20), teria sido enviado um aviso aos serviços para que estivessem muito atentos ao evoluir da situação. Pelas 12-13 horas do dia 14, e com base na informação global nessa altura disponível, a previsão seria actualizada.

O procedimento teria sido repetido todas as seis horas seguintes e confirmada a gravidade do que se aproximava. Por isso e, pelo menos 72 horas antes da tragédia, teria sido enviada à ANPC uma recomendação para que emitisse um alerta vermelho e accionasse os respectivos planos de emergência.

Os modelos ditos "académicos"


O modelo a que o responsável do IM na Madeira, Victor Prior, chama "académico" é o utilizado, nomeadamente, pelos serviços meteorológicos dos EUA e a sua Força Aérea. Recuperar o atraso, relativamente a ele, é uma das justificações do consórcio liderado pela Meteorologia Francesa em que o IM participa, e que consome 40 milhões de euros por ano.

Coerente consigo próprio, o IM preferiu gastar o dinheiro que se queixa de não ter, em vez de utilizar um modelo melhor e, sobretudo, mais largamente testado, com a particularidade acrescida de ser gratuito e de haver em Portugal quem domine, há anos, as suas enormes potencialidades operacionais.

Todavia, face ao ocorrido, fazer agora uma peroração sobre que modelo, ou que modelos, seriam melhores ou mais adequados para prever a situação verificada, como pretendem os responsáveis do IM, não passa de uma tentativa canhestra de iludir as realidades e de fugir às suas responsabilidades.

Questões à espera de resposta


O respeito pela memória das dezenas de mortos/desaparecidos, muitos dos quais evitáveis, exige por isso que responda, sem subterfúgios ou ambigüidades às seguintes questões muito concretas:

- Porque motivo contesta o IM as conclusões do GPNT (confirmadas independentemente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidade de Aveiro), cuja capacidade operacional e fiabilidade se encontram amplamente demonstradas por anos de prestação de serviços, e que teriam previsto a gravidade do ocorrido?

- Quem são os responsáveis pela escolha e utilização de um modelo supostamente melhor ( por não ser "académico"?) e muitíssimo mais dispendioso, para o qual o IM já em 2008 organizava formação, mas que em 2010 nem sequer consegue ter adequadamente operacional ?

- Como justifica o IM a sua incapacidade objectiva de competir em qualidade e fiabilidade com as previsões e avisos meteorológicos de um grupo universitário mais de 100 vezes menor, que não recebe um cêntimo do erário público, ao qual o IM impede o acesso aos dados que recolhe no país e à informação internacional privilegiada que lhe é facultada pelo monopólio de representar Portugal ?

É também importante que se esclareça porque motivo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que tutela não só o IM como as instituições em que se integram o GPNT, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Universidade de Aveiro, se absteve de toda e qualquer intervenção correctiva, apesar de repetidamente informado da inevitabilidade de uma situação como a que se a verificou na Madeira, bem como de outras que vão ao cerne da credibilidade científica de dados e de declarações em que o IM é pródigo, nomeadamente sobre alterações climáticas.

* Coordenador do Grupo de Previsão Numérica do Tempo do Instituto Superior Técnico

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Só Agora?
Copa2 (seguir utilizador), 1 ponto , 21:24 | Quarta feira, 17 de março de 2010
Senhores Professores Doutores:

Zangaram-se as comadres e sabe-se as verdades.

Não entendo o porque de só agora virem dizer que poderiam ter previsto a catástrofe!

Será? depois de acontecer é fácil.

Então porque não falaram à comunicação social?

Porque pelo menos já que parece que não são ouvidos, colocassem no sitio do IST, assim teriam provas que eram melhores.
 
 Regras da comunidade
    Re: Só Agora?    Ver comentário
smsg (seguir utilizador), 1 ponto , 2:32 | Domingo, 21 de março de 2010
Volte a ler
AAlb (seguir utilizador), 1 ponto , 17:48 | Quinta feira, 18 de março de 2010
Se tivesse lido (e entendido) o texto em cima, teria se apercebido que o GPNT apenas trabalha o Continente.

Esclarecido isto, é realmente lamentável que mais um absorvedor de dinheiros públicos, não faculte os dados que obtém, ainda por cima, com outras instituições públicas!

Curioso como nos EUA, esse país tão criticado pela Esquerdentalha, quando o Estado intervém, financia ou apoia de alguma forma, é exactamente para garantir que os resultados são mantidos públicos! E neste "cantinho" de inspiração Marxista, bastião do Socialismo, são exactamente os organismos públicos quem vedam o acesso à informação!

E como sempre, ninguém se responsabiliza!

Que a Climatologia é uma ciência ainda muito mal dominada pelo Homem, não tenho qualquer dúvida. Mas também não tenho a menor dúvida que algo mais poderia ter sido feito no caso da Madeira.
 
 Regras da comunidade
    Re: Volte a ler    Ver comentário
smsg (seguir utilizador), 1 ponto , 2:33 | Domingo, 21 de março de 2010
sim concordo....
smsg (seguir utilizador), 1 ponto , 2:31 | Domingo, 21 de março de 2010
.... existem sites na internet (criados e mantidos por cientistas em que um desses sites é dum prémio nobel...)... que vão dando alguns registos... outro exemplo é o Haiti.... vou apenas dar um site para verem a "tensão" no Haiti antes do dia do terramoto de quase 9 na escala... e depois digam-me que não se pode prever.... reparem também na tensão na Turquia... e etc.... depois observem as placas em outros sites... a questão da evaporação do metano.... eu ajudo... não vamos ser alarmistas mas realistas... ok?
http://www.emsc-csem.org
http://www.eoearth.org
e muitos mais... é só pesquisar em inglês mas no YAHOO....
 
 Regras da comunidade
Que chova á vontade mas...
selnon (seguir utilizador), 1 ponto , 3:33 | Segunda feira, 22 de março de 2010
Que chova à vontade mas...ponham lá umas árvores para a ilha fazer justiça ao seu nome e para que nao sofra outra tragédia desta natureza. EVITEM SE!!!!
VIVA A MADEIRA
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Mortes da catástrofe da Madeira sem culpados
12:26 Sexta feira, 22 de abril de 2011, 7
Madeira: Um ano depois da catástrofe
12:38 Domingo, 20 de fevereiro de 2011,
Prejuízos na Madeira avaliados em €1080 milhões
17:16 Segunda feira, 19 de abril de 2010, 5
Madeira: SIC Esperança entrega donativo de €890 mil
16:56 Quinta feira, 8 de abril de 2010, 1
Madeira: Desalojados com medo de regressar
9:59 Quarta feira, 10 de março de 2010, 4
Mau Tempo: Madeira em alerta laranja
9:31 Sexta feira, 5 de março de 2010, 1
Vento e chuva forte colocam Madeira sob aviso laranja
9:40 Quinta feira, 4 de março de 2010,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP