Dez anos no governo e vinte anos no PSD levaram-me a perceber que o estado-maior do PSD assumia como assuntos importantes apenas as finanças públicas, o sistema financeiro e as funções de soberania.
Pontualmente, por reacção à esquerda intelectual, os temas da cultura e da ciência (que não da tecnologia) eram aflorados. As questões da economia real, da energia, do desenvolvimento tecnológico não eram temas nobres para o estado-maior. Serviam apenas para manter entretida a infantaria...
Havia e há, como se viu agora, uma excepção: as PME. Aqui, porque elas são muitas e por mais que um governo apoie, ficam sempre muitas de fora, a abordagem do tema tem um grande upside eleitoral. Por isso, o actual PSD desceu à economia real num voo rasante sobre as PME. Mas na energia e no famoso choque tecnológico o PSD é totalmente omisso. O eng. José Sócrates percebeu muito inteligentemente que nestes temas se poderia passear à vontade. O PSD critica o actual Governo pelo défice público que vai deixar, esquecendo o que deixou ao actual Governo, mas deixa passar em claro que o actual Governo nos deixa um défice tarifário na energia preocupante de cerca de 2 mil milhões de euros.
Não posso também deixar de sorrir quando vejo o actual PSD propor que a CGD se preocupe com as PME. Ao chegar à CGD em 2002 num governo PSD/PP, constatei com espanto que a CGD não integrava o Sistema de Garantia Mútua (SGM) que montei no PEDIP II em 1991 e vocacionado para apoiar as PME, sistema que o actual Governo veio e bem aproveitar para as linhas de crédito às PME.
Os bancos privados estavam no sistema e a CGD não! O homem de confiança do PSD na CGD (que já tinha sido aliás de confiança do governo PS Guterres) não se preocupava com tal. Bem tentei então recentrar a CGD nas PME e metê-la no SGM mas a então ministra das Finanças do PSD deixou-me a falar sozinho...
Vem agora o PSD preocupar-se com o papel da CGD no apoio às PME.
Como diz o povo, mais vale tarde que nunca...
*Professor de Economia e Gestão - IST