A casa de Elvas podia perfeitamente ser uma delegação da Casa dos Bicos com Badajoz à vista. Não pelas pedras cortadas em pirâmide e colocadas de forma desencontrada que deram o nome à primeira, mas pelas praticas sexuais hediondas ali desenroladas que levaram à condenação de alguns arguidos do Processo Casa Pia. Tudo inocente obviamente. Foi um passarinho pedófilo que por ali passou e fez ninho. Os convivas apenas semeavam o amor a troco de sapatilhas Reebok Pump. Os miúdos gostavam de encher as sapatilhas dando à bomba nas palas e eles davam à bomba nos miúdos enchendo-os de sevícias.
No meio de tudo isto está Gertrudes Nunes. Uma pessoa que nos habituámos a ver na televisão enrolada num cobertor e de óculos de sol "Amália Rodrigues" style. O que é compreensível. O cobertor justifica-se pelas muitas noites ao relento que terá passado enquanto a sua casa era utilizada por Bibi e o gang dos sodomitas implacáveis. Quanto aos óculos são normalmente usados por pessoas invisuais. Parece ser o caso. A senhora nada via.
Também nada terá ouvido. Por isso ou um dos pedófilos é melómano e gostava de violar crianças ao som de Gretchen am Spinnrade ("Margarida na roca") de Schubert e da Flauta Mágica de Mozart ou a senhora padece na realidade de surdez. Gertrudes era no fundo um fantasma dentro da sua própria casa, a Mansão Pedófila de Elvas. Ninguém a via, e ela nada via. Ou se via, fingia não ter visto. Não queria saber, eram coisas do mordomo, um tal de Marçal, o primeiro advogado do Bibi (lembram-se?) agora condenado por práticas semelhantes à do ex-cliente, também condenado. No fundo Gertrudes era tão cúmplice como os outros.
Acredito que Gertrudes Nunes não tenha sido sempre invisual e surda. Provavelmente a cegueira só lhe deu quando percebeu que aliada a uma certa dose de mudez selectiva seria a única forma de ser absolvida neste processo. E não é que foi? Porquê?
Não estou a ver como é que uma pessoa, proprietária de uma casa seja onde for, "patrocine" este tipo de actividades debaixo do seu telhado e saia incólume. A menos que efectivamente tenha um out of jail card, como no jogo Monopólio. Este cartão, provavelmente com alguns nomes sonantes inscritos, terá sido garante da senhora Gertrudes, caladinha, surda, muda, mas não burra continuar igualmente livre. Mas como é possível?
Fácil. Foi absolvida por uma questão técnica, por força de uma alteração legislativa. Dos 35 crimes de que era acusada, e apesar de 26 terem sido dados como provados pelo Ministério Publico, nada lhe aconteceu. Devido a uma alteração no Código Penal que visou os pressupostos do crime de lenocínio, Gertrudes acabou livre como um passarinho. Um passarinho feio por dentro e por fora, mas livre. Este facto, curiosamente, não indignou muito boa gente que por aí anda a protestar, cheios de dúvidas existenciais. Contestaram as condenações mas não contestam a única absolvição, nos termos em que aconteceu? Porque será?