0s dois baixinhos chegaram ao mesmo tempo. "Três anos, como passa o tempo...", diz Iniesta. "Tu antes eras o Andresito, agora chamam-te Don Andrés. Tens uma finta impressionante. Muitos ficam admirados de como melhoraste mas há três anos já eras o melhor", diz Xavi. "Sim, mas sabes como é ter confiança... Se vês que o treinador confia em ti, arriscas mais!", confirma Don Andrès. "Isso concordo. Repara, acho que neste tempo mudou mais a equipa que nós próprios", acrescenta Xavi. "Vês que não és assim tão importante individualmente e a equipa exige que sejas melhor cada dia que passa", conclui Iniesta.
Xavi e Iniesta, juntos, num encontro promovido pelo "El País". Acompanhando o diálogo, descobre-se muito do que o relvado esconde. As equipas, os jogadores e dúvidas existenciais. Ideias que podem tocar o nosso campeonato.
A transformação do Benfica, de Quique para Jesus, passa muito por esse novo entendimento táctico do que os jogadores podem dar à equipa. Como os conciliar em campo, respeitando os seus genes. David Luiz a mandar na defesa, Di María, o extremo rebelde, agora protegido pelas coberturas do trinco, Aimar no centro ofensivo do meio-campo, em vez de mascarado de segundo avançado, Cardozo na área mas apoiado por um avançado móvel. Três jogadores transformados pela táctica e pelas suas posições e interligação com os colegas. Agora todos olham para os três de forma diferente. Mas eles nunca foram assim tão diferentes. Aimar como médio foi um regresso à sua "casa táctica" natural. E, assim, pôde entrar um verdadeiro segundo avançado na equipa, Saviola.
"Evoluímos, claro, mas é o que te digo: tudo passa por ganhar. Mais nada. Agora olham para nós de outra maneira, porque ganhamos", diz Xavi. " Não duvides. Dá-te confiança no que fazes", acrescenta Iniesta. "Mais, muda a forma como olham para ti", recorda Xavi, quatro anos mais velho.
O argumento dos resultados é o único indiscutível no futebol. Se calhar, por isso, o FC Porto foi pouco discutido estas últimas épocas. O 4x3x3 parecia uma 'pedra filosofal' táctica. A equipa começou a perder pontos e agora todos olham para ela de forma diferente. Criar (ou recriar) um estilo é uma construção demorada. É a dificuldade de encontrar as peças certas para encaixarem nesse puzzle de bom futebol. Os treinadores têm tendência a desconfiar dos jogadores mais criativos para iniciar essa construção. Mais facilmente conciliam três médios recuperadores do que juntam dois médios mais criativos. O FC Porto dos 'três trincos' (Fernando-Meireles-Guarin) que jogou na Luz pode marcar a história deste campeonato. Mas ainda resiste Belluschi. E, agora, chega Ruben Micael.
"Digo-te outra vez, no meu caso é mais a confiança. Tu jogavas sempre, eu entrava de vez em quando. Agora já ninguém diz que não podemos jogar juntos", lembra Iniesta. "Sim, mas nós sempre soubemos que não éramos cromos repetidos!", sentencia Xavi com a autoridade que o êxito actual lhe dá.
O dilema de Jesualdo é descobrir agora como o encaixar na equipa. Mudar o sistema (adoptar o 4x4x2) pode ser a resposta para evitar o debate futebolístico mais absurdo: a discussão sobre o excesso de talento. Em ternos de jogadores, uma equipa são '11+3' (os titulares e suplentes). É uma ilusão, porém, concluir-se que os jogos se disputam com '14'. Sem descobrir o timing certo das suas entradas, a forma de olhar para a equipa muda logo outra vez.
"Sinto-me bem porque há ordem e mais do que nunca defendemos uma ideia de jogo. E, no balneário, muito ouvi dizer sobre mudarem líderes... Que líderes? A mim ninguém me disse o que tenho de fazer. Nunca existiu um líder. Fazemos o que manda o treinador!", diz Iniesta. "Queriam que fizéssemos uma reunião? Havia de ser uma confusão...", ironiza Xavi. E riem-se os dois...
Micael e o FC Porto
Olhando os 'onze' de cada candidato, o primeiro reforço que parece ser para jogar de imediato desembarcou no Dragão. Ruben Micael. É um médio com a chamada 'intensidade de jogo', isto é, sabe ocupar os diferentes espaços de jogo, recuando ou avançando. Não é um 8 nem um 10. Em vez de organizar, dá soluções construtivas (no passe e no remate) na fase de definição atrás dos avançados. Um médio completo.
Apesar deste cocktail de boas impressões, vindas das suas exibições na Madeira, é natural ter dúvidas se poderá fazer o mesmo num 'grande'. Ou melhor, se pode repetir o mesmo futebol num grau competitivo superior. Penso que sim. Porque detecta-se carácter no seu jogo e, tentando sair do relvado, até na forma como fala. Depois, porque tem um traço que distingue os grandes jogadores, tecnicamente ou mentalmente: joga sempre de cabeça levantada! Neste contexto, onde se poderá encaixar Ruben Micael no esquema do FC Porto de Jesualdo? Pensando no seu habitual 4x3x3 e no sentimento de vazio que permanece na era pós-Lucho, a tentação imediata é colocá-lo como interior-direito do vértice do meio-campo. É a opção que faz mais sentido.
Na Madeira, jogava noutro sistema (vértice 10 do 4x4x2, ou mais caído na ala, ou no centro de um 5x3x2). A sua cultura táctica permite pensar nele a jogar bem em diferentes sistemas, mas vendo o actual momento da equipa, a opção do 4x3x3 ameaça colocar-lhe, talvez, um peso táctico excessivo sobre as costas. Isto porque, em geral, no início, os jogadores sentem sobretudo o problema das equipas. Só depois é que começam a tentar resolvê-lo. Quase como um destino, um FC Porto desenhado em 4x4x2 ou 4x1x3x2 durante a maior parte do jogo faz cada vez mais sentido.
O novo Sporting
Após um período de ruptura, verdadeira revolução táctica, provocando um abalo nos hábitos, balneário e relvado, de um grupo talvez demasiado acomodado, o Sporting estabilizou o seu jogo. A tempestade, do banco para o balneário, entre o director desportivo e o ponta-de-lança, Sá Pinto e Liedson, foge à lógica do relvado. Falta saber porém, até onde pode alterar o estado emocional de um onze que em campo mostrava claros sinais de crescimento.
O losango é passado, o 4x2x3x1 não tem aplicação prática (faltam alas para dar profundidade), 4x3x3 é utopia sem extremos. Por fim, fica, preferencialmente numa espécie de 4x1x3x2 que é como uma solução de compromisso que mantém dois avançados na equipa (Liedson e o novo Saleiro) e, ao mesmo tempo, segura os grandes princípios do meio-campo. Solta mais Moutinho para a segunda linha, reinventa Veloso como falso ala-esquerdo que equilibra a equipa e firma Adrian a pivot. Com isto melhorou onde a equipa era mais vulnerável: a defender.
Muito do problema estava (e ainda está) no quarteto defensivo, mas nascia antes na pouca agressividade da transição defensiva. Está melhor nos dois aspectos. E nas bolas paradas. Marcando à zona em vez da marcação ao homem de Bento, passou a defender melhor.
A atacar tem mais dificuldade em criar novas soluções, mas a entrada de João Pereira, o lateral-direito atómico que faz todo o lanço direito e depois ataca muito bem, disfarça em muitos momentos do jogo essa lacuna de transição/construção ofensiva. Os resultados estão a acompanhar o melhor futebol. Conseguiu descobrir a sombra do FC Porto no terceiro lugar (está a seis pontos) e, com isso, a motivação da equipa ressurgiu apesar de se sentir que durante a maior parte do tempo dos 90 minutos joga como se caminhasse sobre arames. Sem rede.
O caminho das estrelas
É difícil imaginar hoje uma equipa a jogar melhor do que o Barcelona. Uma estética de jogo que começa pelo enorme respeito para com a bola. Um respeito que se expressa em campo pela técnica e pela qualidade de passe. Um futebol "circular" que apresenta a bola a todos os pedaços de relva dentro das quatro linhas. Inspirado pelos ensinamentos do maestro Cruyff, poeta holandês, Guardiola criou um estilo "rendilhado" de futebol, mas, ao mesmo tempo, objectivo, ganhador e com golos. Tem grandes craques, sublimados no pé esquerdo de Messi, mas o mérito supremo é elevar à categoria de estrelas jogadores que noutro projecto seriam "normais". São os casos de Xavi e Iniesta, os baixinhos que mandam a meio-campo.
É uma ideologia que contrasta com o projecto galáctico do Real Madrid. Cinco pontos de avanço à 18ª jornada não são definitivos, mas são já um sinal. Em Madrid, o Real busca construir outra forma de jogar. Kaká, Ronaldo ou Benzema não gostam tanto de circular a bola. Preferem antes "correr" directamente com ela para a baliza. Este Barcelona-Madrid é mais do que o duelo Messi-Ronaldo. É um verdadeiro choque de estilos.
Em Itália, o Inter, de Mourinho, é uma equipa que parece feita "à navalha", com demasiado músculo táctico a meio-campo, optando mais por bolas longas para a dupla Milito-Eto'o e procurando elevar a dimensão física do jogo. Só um jogador é capaz de, quando entra, transformar este estilo de jogo: o holandês Sjneider. Mete técnica e imaginação no jogo, transformando a fase de construção da equipa perto da área. Por isso, esta época, existe um Inter com Sjneider, e existe outro Inter, sem Sjneider. O primeiro é, claramente, mais sedutor. Será esse, em princípio, que irá desafiar, esta jornada, o Milan, de Ronaldinho, um jogador renascido, que revitalizou uma equipa onde é ainda Seedorf que manda no meio-campo. Seis pontos (o Milan tem um jogo a menos) separam-nos entre primeiro e segundo lugar, mas o Calcio continua demasiado agarrado às batalhas tácticas que aprisionam o talento.
Para encontrar emoções que à passagem de cada jogador deixam todos os cadernos de tácticas de pernas para o ar, o destino é Inglaterra. A melhor forma de entender esta frase é seguir o futebol de Rooney, em Manchester. O 11 de Ferguson continua a tentar reinventar-se sem Ronaldo. Não mudou de sistema, mas perdeu capacidade de desequilíbrio individual. Aberta a muitas influências vindas além-fronteiras, a Liga inglesa é, no entanto, um atraente confronto de estilos todas as semanas. O Arsenal, de Wenger, tem um ADN estilístico semelhante ao do Barcelona. Passe, toque, e a bola a andar alegre por todo o campo. Por isso, não admira que no leme deste belo futebol esteja um cérebro criativo vindo da Catalunha: Fabregas. O Chelsea, de Ancelotti, é a equipa mais táctica no sentido latino do termo. Com Drogba e Anelka sente-se que pode resolver o jogo a qualquer momento. Com Ballack e Lampard sente-se que o pode controlar sem pestanejar.
Viajar até Espanha, Itália e Inglaterra é como entrar numa diferente galáxia do futebol.
Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010