Se houver juízo, não há eleições antecipadas em 2010. Seriam um desastre para o país, para os partidos e para o Presidente.
É melhor que se fale das presidenciais. Essas, sim, estão à porta e prometem ser muito interessantes.
Um país normal não pode nem deve estar sempre a falar de eleições. Mas Portugal é cada vez menos um país normal e, talvez por isso, todos achemos natural que, acabados de sair de um ciclo infernal de três eleições, já nos tenhamos enfiado numa verdadeira campanha eleitoral sem fim nem objectivo à vista.
Esta questão é particularmente bizarra porque não se consegue vislumbrar (eu, pelo menos, não consigo) quem é que podia ganhar com eleições antecipadas: o PS podia vencer essas eleições mas ficava na mesma, como um doente que muda de cama no hospital para respirar outros ares e arranjar novas companhias, mas sofrendo dos mesmos males; o PSD seria confrontado, e de forma ainda mais brutal, com a sua actual irrelevância, falta de projectos, ideias ou liderança; o CDS, o Bloco de Esquerda e a CDU talvez tivessem pouco a perder mas também não ganhavam grande coisa. Conclusão: se houver eleições em 2010, o país político fica na mesma e o país real mais pobre, endividado, ingovernado e sem réstia de esperança.
Se estas razões não bastassem, é bom que nos lembremos que caminhamos rapidamente para eleições presidenciais, marcadas para Janeiro de 2011. Estas eleições são muito importantes e serão mais interessantes que a reeleição de Mário Soares em 1991 (com 70% dos votos) ou de Jorge Sampaio em 2001 (com 55%). Por várias razões, que vão desde a sua base natural de apoio (que nunca passou os 50,6%, em legislativas ou presidenciais) até ao desastre político que foi o último Verão, Cavaco Silva não sonha com uma vitória muito folgada. Mas pode sonhar com uma vitória suada.
E vai ser uma eleição muito interessante porque existem fortes possibilidades de os dois campos (centro-direita e centro-esquerda) se unirem à volta de dois candidatos muito fortes, o que não costuma acontecer quando um presidente se recandidata (a excepção foi a disputa de Eanes e Soares Carneiro, que concentraram 96% dos votos, apesar de Otelo, Pires Veloso, Galvão de Melo e Aires Rodrigues). Na recandidatura de Soares, o PSD nem foi a jogo. Na de Sampaio, o PC e o Bloco apenas marcaram presença.
Ora, desta vez as coisas são diferentes. Há duas pessoas que têm a faca e o queijo na mão. Melhor, há uma (Cavaco) que tem a faca e o queijo na mão até ao início do Outono. Ninguém no centro-direita arriscará um centímetro sem perceber o que ele vai fazer. As direcções do PSD e do CDS vão querer saltar para a caravana de Cavaco, mas serão postos na rua em andamento e, aposto, que o candidato não vai querer uma única bandeira partidária à vista.
No caso de Alegre, as coisas são ao contrário. A faca e o queijo estão na mão dele, mas não por muito tempo. A ala soarista não o quer como candidato oficial do PS e vai fazer tudo para evitar esse pesadelo. Mas se Alegre avançar a tempo e com convicção, Sócrates não tem força nem vontade (nem candidato alternativo) para o travar. Terá que o apoiar e neste caso pode mandar para os comícios ministros e bandeiras aos potes. Quanto mais bandeiras e rostos do PS melhor (haverá muitos do Bloco). A CDU vai demorar a entrar neste comboio mas será ultra-realista, como sempre foi em presidenciais. São estas as eleições que interessam.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009