Uma das discussões aritméticas, logísticas e ontológicas que tem sido interessante acompanhar, e que ultrapassa a mera conversa de 'buraco de fechadura', é se Warren Beatty teve, ou não, sexo com 12 774 mulheres entre o período de 1956 e 1991, altura em que subitamente se dedicou de alma monogâmica ao seu único casamento feliz. Beatty é hoje um actor esquecido, mesmo com as suas 14 nomeações para Óscares, mas um símbolo acarinhado para quem acredita na redenção do matrimónio. É ternurento este The End, não é?
A biografia de Beatty, planeada para glorificar a sua carreira no cinema, encalhou neste espantoso número e acabou desautorizada. O autor, Peter Biskind, não desarma: "São 12 774 sem contar com rapidinhas durante o dia, sexo oral no carro e apalpanços às escondidas".
Enquadramento. No libretto de "D. Giovanni" de Mozart, este fica-se por 2065 amantes. Gene Simmons dos Kiss fez um registo diarístico e revelou, na 'reforma', ter ido para a cama com 4 mil groupies. Já Tiger Woods condenou-se a uma purga de 18 semanas numa clínica para viciados em sexo em Hattiesburg, Mississipi - tendo mesmo assinado um documento a jurar que nem se masturba - por ter relações extraconjugais com apenas 11 mulheres. Assume perante o mundo, os antigos patrocinadores e as activistas que o perseguiam que teve uma vertigem canalha e é mesmo aquele Tiger bonzinho de sempre. Há saco para esta moda das clínicas de viciados em sexo?
O Warren Beatty deslizou sorridentemente por 12 774 sem que a ira das feministas tenha caído sobre o seu mojo. Actualmente os cépticos tentam demonstrar a falácia do número: basta pensar nos apertados horários de filmagens ou no factor Joan Collins para estragar a média de uma mulher diferente por dia pois ela revela que passavam dias inteiros fechados no quarto em maratonas de sexo e que ele era como "uma ostra numa slot machine". Há também quem lembre que com a taxa de insucesso de 1% nos métodos anticoncepcionais, Beatty teria que ter hoje 130 filhos. Mas no livro encontra-se uma abertura ecuménica: actrizes desconhecidas, estrelas, debutantes, anotadoras, gordas, senhoras das limpezas, altas, magras, novas, velhas, engripadas, saudáveis, e finalmente Annette Bening que o endireitou.
Hoje não se safava com bio complacente e aquele ar sonso. Já Tiger Woods que gosta de silicone e cinturinhas de vespa (2 estrelas porno, uma escort e uma playmate que vendeu a história por um milhão de USD e disse que "ele não é normal! Faz sexo durante horas") está a meio da sua 'pena' de 18 semanas de abstinência sexual e aguarda-se que fique 'purificado' desta 'penitência' e possa regressar ao golfe, ao casamento, aos contratos e que as feministas deixem de o insultar nos greens. Fórmula batida. Tiger peca, Tiger empobrece, Tiger arrepende-se, Tiger compra uma bula, Tiger vai para o mosteiro em abstinência onde espera que as irmãs detentoras da moral decidam. Elas impõem um pathos redentor que passa pelas mãozinhas no ar e Tiger ajoelha. Nós observamos. Se ele voltar a ter 'jogo' é porque 'elas' lhe perdoaram e lhe devolveram o seu dom.
Que diria o Warren Beatty colheita de 1972 sobre isto, ali entre a 6321 e a 7443? É um facto que ninguém se opõe ou escandaliza com a exibição da hipersexualidade das mulheres que é hoje celebrada nas capas das revistas femininas que as instigam a petiscar homens como se fossem aqueles pequenos croissants dos pequenos-almoços dos hotéis. Mas vão acabar por mascar seres encarquilhados em clínicas do Mississipi, a babar num ninho de cucos feito na lobotomia da libido. É o trend.
Entre 1956 e 1991 houve 12 774 mulheres, de vários tamanhos e idades que petiscaram o Warren Beatty. Pela bitola do Tiger Woods, o actor teria agora que ser internado numa clínica de viciados de sexo para cumprir 401 anos de abstinência. Pela bitola de Beatty, o Tiger não seria mais que um gatito escaldado.
Biografia - "Star: How Warren Beatty Seduced América" - é também um relato da carreira de Beatty, e das suas 14 nomeações enquanto actor, director, produtor e argumentista. Beatty participou em pelo menos sete filmes com algum peso: "Esplendor na Relva", "Bonnie and Clyde", "O Céu pode Esperar", "Shampoo", "Reds", "Bugsy" e "Bulworth - Candidato em Perigo".
Relato de alguns dos 'casos' de Beatty, de Jane Fonda (1960) a Madonna (1990)
http://www.nypost.com/p/news/national/sexy_tell_all_jumps_into_beatty_MrbzhzXV8qA78Fyi26QVzL/1
As feministas e Tiger Woods - Sex addiction is a feminist victory - Hanna Rosin
http://www.slate.com/id/2243481/
Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010