Parecem rubis a brilhar ao sol radioso da Cova da Beira. As últimas cerejas do ano são colhidas sob o controlo atento do agricultor Carlos Mendes. Nos seus quase 120 hectares de cerejal no Fundão, a produção é 100% biológica. "Esta é a maior área de produção de cereja biológica da Europa", faz notar Carlos Mendes, que está habituado a exportar cerejas para países como França, Inglaterra, Alemanha e até Brasil. "Para vender no Norte da Europa, é fundamental estar certificado. E em 2009, quero estar a exportar 90% da produção".
Aquele vasto cerejal do Fundão já deixou de ser gerido "a olhómetro". As árvores têm um "chip" incorporado e todas as operações de rega, colheita ou colocação de adubos são controladas ao milímetro, sendo a informação continuamente encaminhada para um sistema central. "Agora, as árvores podem falar comigo", refere o agricultor.
Dar uma voz à Natureza
O sistema no pomar biológico de Carlos Mendes está em fase de construção, prevendo-se a sua conclusão até ao final do ano. Vai incorporar um conjunto variado de tecnologias, envolvendo também investigação da Universidade de Coimbra. Para desenvolver esta nova plataforma de "software", o agricultor português juntou-se ao informático e consultor belga Paul Raoul Gailly na criação de uma empresa comum, a SSIAgri, que está a funcionar no Parque de Ciência e Tecnologia da Covilhã.
"Sempre tive o problema de conseguir gerir uma área que excede a minha capacidade humana", reconhece o produtor de cereja do Fundão. E acrescenta: "E sou obrigado a fazer o controlo dos produtos que envio para os supermercados europeus".
Segundo Paul Raoul Gailly, "o carácter inovador do sistema está em dotar a Natureza de uma voz. Numa produção biológica há mais regras que são impostas, e o grau de rastreabilidade do sistema ultrapassa de longe as regras mais exigentes".
Quando estiver finalizado, o sistema permite gerir as colheitas em função da previsão de chuvas ou outras condições de clima adverso que podem danificar as cerejas. "Como numa fábrica, posso informar o meu cliente na Bélgica ou na Alemanha que dentro de xis dias tenho xis quilos de cerejas colhidas. É o que sempre quis fazer e nunca consegui", salienta Carlos Mendes. Ao vender para cadeias como Jumbo e El Corte Inglés, o produtor também reforça o "casamento com a grande distribuição", ajudando ao controlo da fruta que entra nos armazéns.
O consumidor também terá acesso, pela Internet (e com o código de barras da embalagem), a toda a informação sobre tratamentos feitos na cerejeira que deu os frutos que vai comer. A 'cereja em cima do bolo' é poder ver imagens da própria árvore, através de câmaras móveis a instalar no pomar. "O que está em causa é a segurança alimentar e a credibilização de origem. Não ficam dúvidas para o consumidor que as cerejas são da Cova da Beira, contrariamente à questão que se fala de pôr fruta espanhola nas casas portuguesas", sublinha o agricultor.
"Este sistema foi algo que pensei para mim. Mas aplica-se a qualquer produção, tanto biológica como convencional", frisa Carlos Mendes, referindo que além da cereja, o sistema pode ser aplicado à produção de azeite, vinho, hortofrutícolas e até à floresta, com vista a obter ganhos de eficiência em várias frentes. "Vamos criar um conceito de agricultura para conseguir produtos mais baratos".
A meta da SSIAgri é "criar um produto português com uma patente" e exportá-lo para vários países. Numa primeira fase, já em 2009, o alvo é a Península Ibérica, além de Itália, França ou Grécia. "O nosso caminho vai ser evoluir para um prestador de serviços global e um parceiro na gestão florestal", adianta Carlos Mendes. "E aqui já estamos no domínio da inovação pura".
Compensa uma produção 100% biológica? "A cereja desenvolve-se em dois meses e requer muito menos intervenções fito-sanitárias que as batatas ou as cenouras, por exemplo", explica o agricultor. "A Mãe-Natureza é a minha grande sócia. É ela que faz 90% das coisas", sublinha.
Gestão inteligente do cerejal
Árvores com "chip"
O sistema-piloto neste cerejal do Fundão agrega um conjunto de tecnologias que permitem a rastreabilidade total dos frutos desde o campo ao armazém. Cada linha de árvores tem um "chip" incorporado, com informação actualizada sobre todas as operações mecânicas e manuais, ligado a um sistema central
Agricultor 'fala' com as cerejeiras
No campo, o agricultor, munido com um PDA (terminal móvel multifunções), interage com cada cerejeira que lhe 'diz', em tempo real, todas as operações já feitas ou a fazer ao nível de adubagem e outros tratamentos, rega, colheita, etc
Erros de campo reduzidos a zero
Os erros mais comuns da agricultura 'a olhómetro', como a dupla adubação, são rejeitados à partida pelo sistema - que regista os nomes dos trabalhadores que asseguraram cada operação
Rega controlada por fitomonitorização
O sistema mede a humidade da árvore, que varia ao longo do dia em função do ciclo de seiva, para controlar a rega e as necessidades nutricionais da planta
Biosensores avaliam a fruta
O grau de maturação da fruta é avaliado por biosensores, permitindo determinar a altura ideal da colheita em cada árvore
Colheita sob previsão meteorológica
Uma ferramenta previsional com informação meteorológica permite gerir as colheitas e informar os clientes sobre a calendarização das encomendas
Supermercados fiscalizam "online"
Os clientes retalhistas podem controlar online as especificações da produção
Consumidores vêem o pomar
Através de câmaras instaladas no pomar, o consumidor pode ver na Internet, pela indicação do código de barras da caixa, imagens em tempo real da árvore de onde vieram os frutos que está a comer
Produção mais barata
Ao eliminar as ineficiências do processo agrícola, economizando energia, água e tratamentos, além de afinar toda a cadeia logística, o objectivo do sistema é obter uma produção mais barata
Bases para uma nova certificação
Além de dotar as entidades certificadoras de informação mais apurada, o sistema visa ele próprio abrir o caminho para uma nova certificação, contando com o apoio de parceiros e de fornecedores
Um sistema para exportar
A meta é patentear o sistema, aplicável a toda a produção agrícola e florestal, e comercializá-lo em vários países
Comprar com segurança: Selos de certificação
A partir de agora, o consumidor pode deparar com dois tipos de certificação (que aqui reproduzimos) sempre que procurar bens alimentares resultantes do modo de produção biológico. Ambos lhe darão a garantia de que, perante eles, estará a comprar um produto genuinamente biológico. Ou produzido em qualquer outro país da União Europeia ou em Portugal.
A marca Portugal Bio é gerida pela Interbio em acordo com os organismos de certificação. Mas, como fazem questão de sublinhar os responsáveis daquele organismo, está aberta a todos os operadores, sejam ou não associados da Interbio.
Reunidos há pouco mais de um mês no seu segundo congresso, os agricultores de modo biológico deixaram claro que é necessário uniformizar os critérios e procedimentos das entidades certificadoras. Por outro lado, sempre que forem aplicadas sanções, elas deverão ser divulgadas e tornadas públicas. É que, segundo Alfredo Cunhal, vice-presidente da Interbio, o pior que poderia acontecer ao sector era uma crise de falta de credibilidade.