Parece uma provocação no ano em que Charles Darwin é uma das estrelas celebradas pelo mundo da Ciência, mas a capa da edição de 24 de Janeiro da revista "New Scientist" tem o título "Darwin estava errado", a propósito da famosa Árvore da Vida desenhada pela primeira vez pelo naturalista britânico. E cita investigadores de todo o mundo.
Os avanços científicos dos últimos anos, nomeadamente a genética e a biologia molecular, estão a pôr em causa a Árvore da Vida como um dos pilares fundamentais da Teoria da Evolução, a par da selecção natural.
Tudo porque Darwin construiu a sua teoria baseado apenas nos animais e plantas que ele via à sua volta - nos organismos multicelulares - e omitiu o mundo dos micróbios, que na época ainda não era conhecido nem podia ser observado.
"Quanto mais sabemos sobre os micróbios, mais claro fica que a história da vida não pode ser representada adequadamente por uma árvore", afirma a "New Scientist".
No mundo microscópico, a evolução - isto é, a forma como uma espécie pode evoluir para muitas espécies - não avança apenas na vertical como os ramos de uma árvore, porque há espécies que trocam permanentemente material genético entre si, transformando-se em espécies híbridas.
Há, assim, desenvolvimentos horizontais e não apenas verticais, o que significa que já não estamos a falar numa árvore mas antes numa rede muito mais complexa. E há provas cada vez mais consistentes que a "hibridização" desempenha um importante papel na evolução das espécies.
Tal Dagan e William Martin, investigadores da Universidade de Heinrich Heine em Dusseldorf (Alemanha), analisaram mais de meio milhão de genes de 181 procariotas (organismos unicelulares como as bactérias e as archaea) e chegaram à conclusão que 80% mostravam sinais de transferência (troca) horizontal.
Saindo do mundo microscópico para o mundo visível, até na evolução do Homem é possível encontrar esta realidade. A descoberta em Portugal (Leiria), em 1998, do primeiro esqueleto que prova que existiu um cruzamento entre o Homem moderno (Homo sapiens) e os Neandertais - o esqueleto da chamada criança do Lapedo, com quase 30 mil anos - vem reforçar a tese das trocas horizontais entre espécies.
Como afirma Eric Bapteste, biólogo da evolução da Universidade de Paris, "a Árvore da Vida foi útil para compreendermos que a evolução era real, mas agora já sabemos mais e é tempo de avançarmos para outro modelo".