Foram reveladas, por fim, algumas das cláusulas contratuais no acordo assinado entre a Columbia Pictures e a promotora de concertos AEG, detentora de imagens inéditas do cantor Michael Jackson. O espólio visual foi acumulado durante os ensaios no Staples Center de Los Angeles, nos dias que antecederam a morte do rei da pop. Michael Jackson preparava-se para subir ao palco da arena O2, em Londres.
A Columbia Pictures ainda não nomeou o colégio de editores que irá dar formato de cinema à disparidade de registos visuais disponibilizados. Sabe-se que as 100 horas captadas em vídeo contêm ensaios, entrevistas, confissões ditas directamente para a câmara e sequências em 3D que o cantor planeara inserir nos concertos ao vivo.
Os concertos programados para Londres iriam ter por título "This Is It", mas é concebível que na invasão publicitária que se avizinha o filme ponha ênfase nas palavras Michael e Jackson, dada a popularidade reconquistada pelo cantor após o seu falecimento a 25 de Junho passado.
A AEG, por contrato, vai colocar à disposição dos estúdios da Sony - detentora da Columbia - cerca de 100 horas de material, não podendo a Sony, igualmente por contrato, maltratar a imagem de Michael Jackson. Estão proibidos quaisquer segmentos em que o cantor possa aparecer menos condigno. O acordo impede ainda que a multinacional Sony use a imagem de Jackson para vender jogos de sorte, produtos de higiene íntima, bebidas alcoólicas, armas de fogo, tabaco e qualquer tipo de medicação farmacêutica.
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| Imagem de um dos ensaios de Michael Jackson para o espectáculo "This Is It", que iria levar à cena em Londres |
| Kevin Mazur/AP |
Estreia para breve
O acordo, que custou à Sony 60 milhões de dólares na esperança de que o lançamento comercial acabe por render muito mais em todo o mundo, estipula que o filme não poderá nunca ter mais de 150 minutos de duração. Em Hollywood, a média costumava ser 120 minutos mas é agora mais baixa, dada a cerrada concorrência televisiva e a dificuldade em monopolizar a atenção do espectador enclausurado por mais de hora e meia. Os 150 minutos levam a crer que o formato de concerto vai ser mantido, tanto quanto possível.
Estipula ainda o acordo que o filme seja classificado como sendo PG - ao qual podem assistir menores desde que haja supervisão paternal - e que a Columbia convide, obrigatoriamente, a família Jackson para um visionamento privado, a ter lugar nunca depois de 2 de Outubro de 2009.
Confirma-se assim que os Jackson, a AEG e a Sony-Columbia querem aproveitar o estado febril do mercado em tudo que esteja relacionado com Michael Jackson. Também se confirma que os Jackson não têm direito de veto nem podem exigir aprovação de conteúdo, cimentando suspeitas, por um lado, de que os cuidados comerciais vão de mão dada com a divulgação do património cultural e, por outro lado, que Michael Jackson continua a falar por si. É um pouco como se os Jackson estivessem a dizer que não é possível desvirtuar o que já se sabe do talento demonstrado pelo filho mais fantástico.
Espera-se que o filme apareça nos cinemas logo depois de ser mostrado à família, uma jogada de marketing capaz de beneficiar com as festas do calendário. Dada a cor macabra de qualquer vaga emocional pública reagindo à morte de um talento histórico, é normal que a estreia seja em Outubro, em plena quadra de Halloween.
Hora H
A festa pagã celebrada tradicionalmente nos Estados Unidos a 31 de Outubro calha, este ano, auspiciosamente, a um sábado, o dia preferido das bilheteiras. O grande êxito de Michael Jackson continua a ser o tema 'Thriller', do qual John Landis fez um vídeo povoado de monstros que, com partes do corpo caindo aos pedaços na via pública, insistiam em dançar mais uma vez. Os filmes musicais também estão muito em voga.
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| O mercado passa por um estado febril, no que diz respeito a artigos relacionados com Michael Jackson |
| Reed Saxon/AP |
Não vai ser um documentário mas um filme promocional dirigido aos fãs e a todos aqueles que gostariam de ver Michael Jackson a preparar-se para uma aparição, que se queria quase messiânica mas que nunca chegou a acontecer. Em Hollywood não se duvida que as imagens, uma vez organizadas devidamente para o ecrã dos cinemas, sejam um sucesso comercial a nível global. A Sony, que geriu a ascensão discográfica de Michael Jackson durante muitos anos, conhece aquela plataforma de admiradores como ninguém.
Daqui para a eternidade
Bónus adicional, o estúdio é tido como ideal no relançamento de um ídolo da música que, apesar do talento para a dança e ambições de Peter Pan, muita gente considerava obsoleto num universo mediático fascinado com a realidade mesquinha.
A Sony tem enfrentado com imensa habilidade sinergética a postura cínica das plateias contemporâneas, por exemplo catapultando o formato constrangido do Homem Aranha, versão banda desenhada, para recordes de bilheteira nos cinemas. Multiplica depois a ideia pelos diversos espaços visuais existentes. O musical "Homem Aranha" apresta-se a estrear nos palcos da Broadway com canções dos U2.
Além disto, a Sony exibe com frequência uma enorme versatilidade de formatos que se mantêm atentos ao público adolescente e às novas sensibilidades, caso da série "Código Da Vinci", em que o lado meticuloso da tradição religiosa, considerado demasiado entediante para os jovens que compram cinema, foi utilizado para a produção de entretenimento de massas até em países onde o arranjo milenar entre o Vaticano e a guarda suíça não é um dado adquirido.
Michael Jackson parece idealmente talhado para esta ressurreição cinemática, levando em consideração a sua personalidade sem limites, o movimento frenético dos pés e, no fim, um rasto de estrela reclusa que, de olhos postos no passado, confia mais na perfeição do mito do que na trivialidade actual.
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