Qual a semelhança entre as batalhas de Agincourt (entre franceses e ingleses), Atoleiros e Aljubarrota (estas, entre castelhanos e portugueses)? Em primeiro lugar são afins do ponto de vista cronológico: entre finais do séc. XIV e começos do séc. XV. Todas ocorrem no contexto da Guerra dos Cem Anos. Finalmente, consagram a derrota da cavalaria pesada pela infantaria, equipada com arcos (ou bestas) e posicionada habilmente no terreno.
A 4ª sessão do Curso de História Militar "Marchando com os Exércitos", promovido pelo Centro de História da Universidade de Lisboa foi dedicada à mítica batalha de Agincourt. Mítica e mitificada, como explicou o conferencista, prof. Pedro Barbosa, da Faculdade de Letras de Lisboa. Para os franceses, a derrota dos seus exércitos é subalternizada no relato histórico. Já os britânicos fazem desta batalha um sucesso retumbante ao nível de Trafalgar ou de Waterloo.
A primeira desmistificação diz respeito ao número de combatentes. Como explicou Pedro Barbosa, é um princípio básico da propaganda exagerar as forças do inimigo e diminuir as próprias "para valorizar as vitórias". Ainda que tradicionalmente as fontes britânicas sublinhem uma grande desproporção de efectivos (tal como as crónicas portuguesas de Atoleiros e Aljubarrota), a análise de documentos de arquivo e não de peças de propaganda como a "Gesta de Henrique" ou a peça de Shakespeare "Henrique V" sugere qualquer coisa como 12.000 franceses contra 9.000 britânicos.
Semelhanças com Aljubarrota
O que aconteceu foi que a batalha se travou, devido à hábil escolha do terreno pelos britânicos (tal como os portugueses em Atoleiros e Aljubarrota), num terreno favorável à defesa por parte da infantaria, limitando o poder de choque e de manobra da cavalaria pesada: um lamaçal impossível de flanquear, por estar apoiado, à esquerda e à direita, em bosques impenetráveis para homens a cavalo.
A cavalaria pesada francesa do rei francês Carlos VI teve que atacar numa frente estreita, pisando um terreno pesado onde os cavalos se moviam a custo. Protegidos por uma estacaria de madeira os arqueiros britânicos que manejavam grandes arcos de teixo (longbows) fizeram cair uma chuva de setas que provocou o caos na cavalaria francesa, quer pelos efeitos directos, quer pela confusão que provocou. Os arqueiros largaram as armas e investiram de cutelo na mão sobre os feridos e os cavaleiros derrubados, fazendo uma chacina. Essa chacina prosseguiria na manhã seguinte quando o rei inglês mandou massacrar os feridos inimigos. De resto, a exploração desta atrocidade pela propaganda francesa foi um dos factores que tirou impacto à vitória de Agincourt.
Ganhar a batalha e perder a guerra
Mas houve outros factores. Como refere Pedro Barbosa, "Henrique V ganhou a batalha mas perdeu a guerra". Em vez de explorar o seu sucesso retirou para Calais e regressou a Inglaterra. Fosse por ter as tropas cansadas, fosse por lhe faltarem abastecimentos, fosse por ler mal a situação, tomou a pior das opções. Isto numa altura em que os franceses estavam desmoralizados, com um rei fraco e divididos numa quase guerra civil entre partidários dos duques de Borgonha (borguinhões) e de Orleães (armagnacs).
Ainda voltaria a França um ano depois mas já com sucesso limitado. Com a entrada em cena de um novo mito, Joana d'Arc, o insucesso britânico em terras francesas e o fim da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) seriam uma questão de tempo.