13/02/2012 atualizado às 19:13

Argentina sob a emergência da gripe A e da psicose

Ao ritmo das baixas temperaturas e da falta de medidas eficazes do governo, a gripe A foge ao controlo, deixa o país como o terceiro no mundo em números de mortos e leva temor à população.

Márcio Resende, correspondente na Argentina
22:10 Quarta feira, 1 de julho de 2009

Mariana Caset vive um dilema. Não sabe se permite os filhos irem às actividades com os colegas ou se os proíbe de sair de casa.

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"Tenho temor como muitas mães. Sinto uma angústia cada vez que os deixo ter actividades em grupo. É o medo de terem contacto com alguém que esteja infectado e não saiba", desabafa.

Com os filhos em idade escolar (um menino com 9 anos e uma menina com 10), Mariana convivia com a angústia de vê-los partir todos os dias ao colégio sob o risco de voltarem contagiados pela gripe A. Transportar as crianças sempre de carro particular (evitando os transportes públicos), fazê-los lavar as mãos após cada atividade e levar gel desinfectante ao colégio pareciam escudos insuficientes. Tanto que a quase totalidade das escolas do país decidiram suspender as aulas.

"Essa medida não serve de nada. Os shoppings e os cinemas, por exemplo, continuam abertos. É muito difícil manter as crianças em casa ainda mais para aquelas mães que têm filhos adolescentes", conclui.

Para enfrentar a epidemia de gripe suína que provoca mais temor, psicose e mortos a cada dia, os governos da cidade e da província de Buenos Aires, além de outros três distritos decretaram a emergência sanitária. Nesta área crítica de contágio, o sistema de saúde tanto público quanto privado está em colapso.

Faltam camas, medicamentos e médicos para tantos casos. Sobra preocupação, desorientação e medo. As salas de plantão vivem lotadas. Os serviços de médicos a domicílio estão saturados. Os hospitais suspenderam as cirurgias crónicas programadas só para atender os internamentos pela gripe A.

A emergência sanitária permite designar recursos financeiros e humanos de forma excepcional para atender as urgências, mas, por enquanto, não implica o fechamento de lugares de presença maciça de público como restaurantes, centros comerciais, cinemas ou espectáculos.

As autoridades provinciais deixaram a responsabilidade por evitar esses espaços públicos nas mãos da população.

"A medida correcta teria sido ter fechado tudo como foi no México e não agora, mas antes quando surgiram os primeiros casos concentrados nos colégios. Agora a medida não é mais eficaz. Não tem explicação lógica manter os espectáculos ou as discotecas abertas", dispara Célia Barugel, mãe de dois filhos de 12 e de 16 anos.

"No colégio dos meus filhos, houve casos de gripe A. Eles conviveram com contagiados, foram às festas de aniversário com colegas contagiados. O colégio foi fechado. As crianças tiveram aulas virtuais, via Internet", conta. Habituaram-se tanto ao convívio com o risco da doença que perderam o medo. "Quando recebiam o dever de casa por e-mail, diziam que tinha chegado o 'dever suíno'", brinca.

"O de 12 anos tem uma viagem marcada com todos os colegas de sala-de-aula e ninguém cancelou. O de 16 anos frequenta as discotecas. Não é possível proibir as crianças de saírem de casa por um mês", conclui.

Além da emergência sanitária, 19 das 24 províncias argentinas anunciaram a suspensão das aulas, a antecipação e a extensão das férias escolares durante todo o mês de Julho. Na teoria, a decisão só oficializa o que já vinha sendo a prática. Centenas de colégios e diversas faculdades pelo país já tinham suspendido as aulas de forma unilateral. O absentismo variava entre 30 e 40% nas escolas. Os filhos contagiaram os pais. O absentismo nas empresas é cada vez maior, afectando a produtividade.

Ao anunciar a medida, o governador da Capital argentina, Mauricio Macri, pediu que durante o período sem aulas os alunos fiquem em casa sem irem a lugares de grande concentração de gente. Horas antes, Macri dizia que "a gripe A é uma gripe como a de todos os Invernos".

"É um exagero absoluto. Sempre tivemos gripe, mas esta, como vem de fora, é mais midiática", comparou.

Enquanto pedia calma à população, o governador Mauricio Macri, admitia que dois dos seus ministros estão com gripe A e outros membros do governo podem ter sido contagiados. Enquanto pedia para os alunos ficarem em casa, o governo de Buenos Aires promove espectáculos gratuitos para pais e alunos.

Fora de controlo


O vírus da gripe A circula mais do que o da gripe comum. As probabilidades de uma pessoa ser contagiada pelo vírus da gripe A na Argentina são maiores do que pela gripe comum, segundo o próprio Ministério da Saúde.

O país vive uma situação de desorientação total. Sem números oficiais desde sexta-feira, o número de vítimas fatais, que somavam oficialmente 26, subiu a não menos de 42, se contabilizados os números soltos de cada província. Todos os mortos em apenas duas semanas e existem, pelo menos, outras 20 mortes sob estudo.

A Argentina já é o terceiro país com mais mortes pela gripe A no mundo, apenas atrás de México e Estados Unidos, embora proporcionalmente, por número de habitantes (40 milhões), o número de mortos é mais grave do que no epicentro original da gripe.

O Inverno com ondas de frio polar apenas começou e os especialistas prevêem que o ponto culminante de contágio aconteça dentro de duas ou três semanas. Outra situação agravante é que a gripe saiu das classes alta e média (que trouxeram o vírus ao país) e expandiu-se à classe baixa com deficiência de alimentação, de higiene e de informação.

A gravidade da situação estaria encoberta para não prejudicar a imagem do governo. Os casos positivos acumulados passavam de 1.600 no final de semana, mas o número actualizado não seria inferior a 2 mil. O líder da prestigiosa ONG Rede Solidária, Juan Carr, membro do Comité de Crise do Ministério da Saúde sempre procurou transmitir tranquilidade. Desta vez, deu um banho gelado de sinceridade pública: "Os casos positivos acumulados somam 50 mil".

A desarticulação entre as autoridades é total. O governo nacional evita determinar a emergência sanitária em todo o país enquanto os casos avançam em progressão geométrica. Empurra o custo político para as autoridades provinciais. Os governos locais, por sua vez, tomam medidas tímidas para evitar pânico e pagar o custo que o governo federal se recusa a assumir.

Verdade encoberta


Antes do último domingo, a falta de decisões oficiais era justificada pelas eleições legislativas. O governo temia que medidas impopulares tivessem reflexo no desempenho eleitoral dos seus candidatos. As eleições não evitaram uma dura derrota do oficialismo nas urnas. Para não agravar a situação política de um governo enfraquecido, as medidas drásticas sobre o combate à gripe A continuam sendo evitadas.

Dos países com epidemia de gripe A, a Argentina foi o primeiro país em enfrentar eleições nacionais. Para votar, os argentinos usaram máscaras, luvas e até álcool. Por temor ao contágio, o número de abstenções foi o mais alto da história.

O coordenador do comité de crise do Ministério da Saúde, Jorge San Juan, revelou que a então ministra da Saúde, Graciela Ocaña, pediu à presidente Cristina Kirchner que suspendesse as eleições legislativas de domingo e que declarasse a emergência sanitária com fechamento de espaços públicos. O vírus ainda estava contido na região metropolitana de Buenos Aires. A presidente não respondeu. A ministra renunciou na segunda-feira e o novo ministro só assume nesta quarta-feira.

Psicose regional


O cenário por aqui é cada vez mais semelhante ao mexicano. Já é comum ver pessoas com máscaras em espaços e transportes públicos. Taxistas e garçons atendem com máscaras. Nas prateleiras, máscaras, álcool e gel desinfectante desapareceram ou têm cotação de ouro.

De forma unilateral, cidades do interior da província de Buenos Aires começam paulatinamente a fechar todos os espaços públicos como clubes, cinemas e teatros.

Para aumentar ainda mais a paranóia, as autoridades sanitárias animais confirmaram que uma quantidade expressiva de porcos foi contagiada pela gripe A num estabelecimento de boa qualidade ao Norte da província de Buenos Aires.

Chile e Argentina como laboratórios da gripe


Em número de casos oficiais, a situação é ainda mais grave do outro lado da Cordilheira dos Andes. No Chile, os casos positivos chegam a 7.342, mas como assim na Argentina nem todos os suspeitos são submetidos ao exame oficial, calcula-se que o número de casos deva ser multiplicado por cinco. Com 15 milhões de habitantes (oito vezes menos do que o México), proporcionalmente, o Chile já tem mais casos do que o próprio México, embora o número de vítimas fatais esteja em 15, bem abaixo da Argentina.

O governo brasileiro recomendou que os turistas evitem viagens ao Chile e à Argentina. Operadores de turismo de ambos os países calculam que os cancelamentos de reservas aos centros de esqui chilenos e argentinos fique entre 20 e 30%. Cerca de metade dos casos de contágio nas cidades brasileiras é de turistas que estiveram na Argentina. Enquanto se cuidava dos passageiros provenientes do Hemisfério Norte, o contágio vinha do Sul.

Em comum entre Argentina e Chile, as mesmas latitudes sobre as quais avançam as temperaturas baixas próximas de zero grau. O frio rigoroso facilita a propagação do vírus. É a força natural que impulsiona a gripe.

Os especialistas encaram Argentina e Chile como os verdadeiros laboratórios sobre como o vírus vai evoluir. A gripe surgiu no México e avançou pelos Estados Unidos no final do Inverno no Norte. Mas por aqui chegou justamente quando as temperaturas começaram a cair forte.

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Na Argentina entrou-se na pior fase...
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 23:02 | Quarta feira, 1 de julho de 2009
... da pandemia: o medo. Segue-se o pânico e depois vem a desordem. Foi assim em 1918. E apesar de actualmente termos excelentes meios de comunicação e informação, também temos as barreiras de quem não leva, para já, isto a sério. Por isso há dias levantava dúvidas sobre a legitimidade de algumas pessoas portuguesas viajarem para países onde a situação já é grave. Considerei isso de egoísmo e mantenho. Há que, de forma voluntária, tomar todas as precauções. Quem nºao o fizer por si, nunca o fará pelos outros.
 
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Dados da OMS sobre a "Gripe A":
Sebastião da Treta (seguir utilizador), 1 ponto , 8:59 | Quinta feira, 2 de julho de 2009
Número de infectados no Mundo inteiro:

77,201 ==> 27,717 nos EUA; 8,680 no México; 7,983 no Canadá; 6,538 no País das Maravilhas; 6,211 no Chile; 4,090 na Austrália

Número de mortes no Mundo inteiro:

332 (!!) ==> 127 nos EUA; 116 no México

Ou seja... O número de infectados é extremamente baixo, e mais baixo ainda é o número de mortos.
Outra coisa... As pessoas que morrem quando estão infectadas com esta gripe e com a gripe normal, morrem
porque já estão debilitadas.

Face a este número de casos num planeta de 6 mil milhões de pessoas e a um número de mortes que nem chega a 400 e que está concentrada em dois países, que não têm um sistema de saúde decente, para quê assustar as pessoas?

Ainda ontem ouvi "será que é seguro ir a Espanha?", por causa de uma morte!! Isto é de loucos!

Sinceramente, esta Contra-Revolução já mete nojo. Criam a Grande Depressão, ganham eleições com os efeitos dela, e ainda estão preocupados?

 
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