Mariana Caset vive um dilema. Não sabe se permite os filhos irem às actividades com os colegas ou se os proíbe de sair de casa.
"Tenho temor como muitas mães. Sinto uma angústia cada vez que os deixo ter actividades em grupo. É o medo de terem contacto com alguém que esteja infectado e não saiba", desabafa.
Com os filhos em idade escolar (um menino com 9 anos e uma menina com 10), Mariana convivia com a angústia de vê-los partir todos os dias ao colégio sob o risco de voltarem contagiados pela gripe A. Transportar as crianças sempre de carro particular (evitando os transportes públicos), fazê-los lavar as mãos após cada atividade e levar gel desinfectante ao colégio pareciam escudos insuficientes. Tanto que a quase totalidade das escolas do país decidiram suspender as aulas.
"Essa medida não serve de nada. Os shoppings e os cinemas, por exemplo, continuam abertos. É muito difícil manter as crianças em casa ainda mais para aquelas mães que têm filhos adolescentes", conclui.
Para enfrentar a epidemia de gripe suína que provoca mais temor, psicose e mortos a cada dia, os governos da cidade e da província de Buenos Aires, além de outros três distritos decretaram a emergência sanitária. Nesta área crítica de contágio, o sistema de saúde tanto público quanto privado está em colapso.
Faltam camas, medicamentos e médicos para tantos casos. Sobra preocupação, desorientação e medo. As salas de plantão vivem lotadas. Os serviços de médicos a domicílio estão saturados. Os hospitais suspenderam as cirurgias crónicas programadas só para atender os internamentos pela gripe A.
A emergência sanitária permite designar recursos financeiros e humanos de forma excepcional para atender as urgências, mas, por enquanto, não implica o fechamento de lugares de presença maciça de público como restaurantes, centros comerciais, cinemas ou espectáculos.
As autoridades provinciais deixaram a responsabilidade por evitar esses espaços públicos nas mãos da população.
"A medida correcta teria sido ter fechado tudo como foi no México e não agora, mas antes quando surgiram os primeiros casos concentrados nos colégios. Agora a medida não é mais eficaz. Não tem explicação lógica manter os espectáculos ou as discotecas abertas", dispara Célia Barugel, mãe de dois filhos de 12 e de 16 anos.
"No colégio dos meus filhos, houve casos de gripe A. Eles conviveram com contagiados, foram às festas de aniversário com colegas contagiados. O colégio foi fechado. As crianças tiveram aulas virtuais, via Internet", conta. Habituaram-se tanto ao convívio com o risco da doença que perderam o medo. "Quando recebiam o dever de casa por e-mail, diziam que tinha chegado o 'dever suíno'", brinca.
"O de 12 anos tem uma viagem marcada com todos os colegas de sala-de-aula e ninguém cancelou. O de 16 anos frequenta as discotecas. Não é possível proibir as crianças de saírem de casa por um mês", conclui.
Além da emergência sanitária, 19 das 24 províncias argentinas anunciaram a suspensão das aulas, a antecipação e a extensão das férias escolares durante todo o mês de Julho. Na teoria, a decisão só oficializa o que já vinha sendo a prática. Centenas de colégios e diversas faculdades pelo país já tinham suspendido as aulas de forma unilateral. O absentismo variava entre 30 e 40% nas escolas. Os filhos contagiaram os pais. O absentismo nas empresas é cada vez maior, afectando a produtividade.
Ao anunciar a medida, o governador da Capital argentina, Mauricio Macri, pediu que durante o período sem aulas os alunos fiquem em casa sem irem a lugares de grande concentração de gente. Horas antes, Macri dizia que "a gripe A é uma gripe como a de todos os Invernos".
"É um exagero absoluto. Sempre tivemos gripe, mas esta, como vem de fora, é mais midiática", comparou.
Enquanto pedia calma à população, o governador Mauricio Macri, admitia que dois dos seus ministros estão com gripe A e outros membros do governo podem ter sido contagiados. Enquanto pedia para os alunos ficarem em casa, o governo de Buenos Aires promove espectáculos gratuitos para pais e alunos.
Fora de controlo
O vírus da gripe A circula mais do que o da gripe comum. As probabilidades de uma pessoa ser contagiada pelo vírus da gripe A na Argentina
são maiores do que pela gripe comum, segundo o próprio Ministério da Saúde.
O país vive uma situação de desorientação total. Sem números oficiais desde sexta-feira, o número de vítimas fatais, que somavam oficialmente 26, subiu a não menos de 42, se contabilizados os números soltos de cada província. Todos os mortos em apenas duas semanas e existem, pelo menos, outras 20 mortes sob estudo.
A Argentina já é o terceiro país com mais mortes pela gripe A no mundo, apenas atrás de México
e Estados Unidos, embora proporcionalmente, por número de habitantes (40 milhões), o número de mortos é mais grave do que no epicentro original da gripe.
O Inverno com ondas de frio polar apenas começou e os especialistas prevêem que o ponto culminante de contágio aconteça dentro de duas ou três semanas. Outra situação agravante é que a gripe saiu das classes alta e média (que trouxeram o vírus ao país) e expandiu-se à classe baixa com deficiência de alimentação, de higiene e de informação.
A gravidade da situação estaria encoberta para não prejudicar a imagem do governo. Os casos positivos acumulados passavam de 1.600 no final de semana, mas o número actualizado não seria inferior a 2 mil. O líder da prestigiosa ONG Rede Solidária, Juan Carr, membro do Comité de Crise do Ministério da Saúde sempre procurou transmitir tranquilidade. Desta vez, deu um banho gelado de sinceridade pública: "Os casos positivos acumulados somam 50 mil".
A desarticulação entre as autoridades é total. O governo nacional evita determinar a emergência sanitária em todo o país enquanto os casos avançam em progressão geométrica. Empurra o custo político para as autoridades provinciais. Os governos locais, por sua vez, tomam medidas tímidas para evitar pânico e pagar o custo que o governo federal se recusa a assumir.
Verdade encoberta
Antes do último domingo, a falta de decisões oficiais era justificada pelas eleições legislativas. O governo temia que medidas impopulares tivessem reflexo no desempenho eleitoral dos seus candidatos. As eleições não evitaram uma dura derrota do oficialismo nas urnas. Para não agravar a situação política de um governo enfraquecido, as medidas drásticas sobre o combate à gripe A continuam sendo evitadas.
Dos países com epidemia de gripe A, a Argentina foi o primeiro país em enfrentar eleições nacionais. Para votar, os argentinos usaram máscaras, luvas e até álcool. Por temor ao contágio, o número de abstenções foi o mais alto da história.
O coordenador do comité de crise do Ministério da Saúde, Jorge San Juan, revelou que a então ministra da Saúde, Graciela Ocaña, pediu à presidente Cristina Kirchner que suspendesse as eleições legislativas de domingo e que declarasse a emergência sanitária com fechamento de espaços públicos. O vírus ainda estava contido na região metropolitana de Buenos Aires. A presidente não respondeu. A ministra renunciou na segunda-feira e o novo ministro só assume nesta quarta-feira.
Psicose regional
O cenário por aqui é cada vez mais semelhante ao mexicano. Já é comum ver pessoas com máscaras em espaços e transportes públicos. Taxistas e garçons atendem com máscaras. Nas prateleiras, máscaras, álcool e gel desinfectante desapareceram ou têm cotação de ouro.
De forma unilateral, cidades do interior da província de Buenos Aires começam paulatinamente a fechar todos os espaços públicos como clubes, cinemas e teatros.
Para aumentar ainda mais a paranóia, as autoridades sanitárias animais confirmaram que uma quantidade expressiva de porcos foi contagiada pela gripe A num estabelecimento de boa qualidade ao Norte da província de Buenos Aires.
Chile e Argentina como laboratórios da gripe
Em número de casos oficiais, a situação é ainda mais grave do outro lado da Cordilheira dos Andes. No Chile, os casos positivos chegam a 7.342, mas como assim na Argentina nem todos os suspeitos são submetidos ao exame oficial, calcula-se que o número de casos deva ser multiplicado por cinco. Com 15 milhões de habitantes (oito vezes menos do que o México), proporcionalmente, o Chile já tem mais casos do que o próprio México, embora o número de vítimas fatais esteja em 15, bem abaixo da Argentina.
O governo brasileiro recomendou que os turistas evitem viagens ao Chile e à Argentina. Operadores de turismo de ambos os países calculam que os cancelamentos de reservas aos centros de esqui chilenos e argentinos fique entre 20 e 30%. Cerca de metade dos casos de contágio nas cidades brasileiras é de turistas que estiveram na Argentina. Enquanto se cuidava dos passageiros provenientes do Hemisfério Norte, o contágio vinha do Sul.
Em comum entre Argentina e Chile, as mesmas latitudes sobre as quais avançam as temperaturas baixas próximas de zero grau. O frio rigoroso facilita a propagação do vírus. É a força natural que impulsiona a gripe.
Os especialistas encaram Argentina e Chile como os verdadeiros laboratórios sobre como o vírus vai evoluir. A gripe surgiu no México e avançou pelos Estados Unidos no final do Inverno no Norte. Mas por aqui chegou justamente quando as temperaturas começaram a cair forte.