O caso Face Oculta trouxe para o centro do debate público a promiscuidade entre política e interesses privados na gestão de empresas públicas. Logicamente, a ideia de proteger a Caixa Geral de Depósitos do arbitrário governamental regressa também ela à discussão. Que um banco com uma quota de mercado de 30% esteja à disposição de um poder político permeável a interesses particulares é pura e simplesmente aterrador.
Que o Governo - ou alguém por ele - possa escolher quem enriquece e quem se arruína - recordemo-nos do caso Fino - ou sequer influenciar a estrutura accionista de empresas privadas - um exemplo ao acaso, o BCP - deveria ser considerado uma séria ameaça à qualidade da nossa democracia. Este é, afinal, o mais poderoso vector da claustrofobia democrática. Como podemos ter uma sociedade civil independente se o sucesso económico depende da boa-vontade do poder político? E como podemos ter verdadeiro pluralismo político com uma sociedade civil domesticada? E como podemos ter uma democracia funcional com um pluralismo limitado?
Não podemos. E torna-se cada vez mais claro que não temos. Urge, por isso, encontrar formas de desgovernamentalizar a Caixa Geral de Depósitos. A crise financeira tornou a privatização inviável no futuro mais próximo, como o reconheceu o próprio Pedro Passos Coelho, que anteriormente a propôs. Mas a lottizzazione partidária a que o banco tem sido votado também já deu bastas provas de incapacidade em garantir a imparcialidade da sua administração.
Qualquer que seja a forma encontrada para o fazer, isolar a Caixa do poder político é um primeiro passo fundamental para remeter o Estado ao seu papel de árbitro na economia, e dessa forma iniciar a reconstrução de alguma da confiança desbaratada pela classe política. Mas sabemos que isso nunca acontecerá com Sócrates no poder. Afinal, árbitro e jogador é a sua posição favorita em campo.