António Calvário
Cantor e actor
O RESPEITO ao director da escola que frequentava fê-lo ser cantor. Sim, que António Calvário não era dado a trautear melodias nem entre a família, quanto mais passar-lhe pela cabeça querer ser vedeta da música nacional. "Foi um acaso", considera ao recordá-lo. Talvez hoje seja diferente, mas "à época não passava pela cabeça de nenhum garoto dizer que não a um director", garante. "Quando ele me disse: 'Na próxima festa tu vais cantar', fiquei aflito, mas nem me ocorreu discordar."
O destino oferecia-lhe, afinal, e de mão beijada, a descoberta da vocação. "Fiz por superar a timidez e com a ajuda da minha professora de piano lá me preparei para fazer o espectáculo." No palco da escola de Portimão, ante o deleite dos pais e a aprovação da restante plateia, rendida aos acordes de 'Canta Brasil' - um sucesso do momento -, nascia uma estrela. "Gostei de tal forma que nunca mais fui capaz de abandonar as aulas de canto. Ainda hoje as faço."
O mais que lhe estava reservado não podia adivinhar. António Calvário vem para Lisboa completar os estudos e, na área musical, prossegue a formação com a ainda prima Corina Freire, também ela actriz e cantora. É entusiasmado pelos seus conselhos que participa nas audições da Emissora Nacional, sendo admitido. A partir daí, acontece tudo tão rapidamente que "quando dou por mim já não podia andar na rua", tal o grau de popularidade conquistado.
Da música para o teatro e para o cinema, quase em simultâneo, nos primeiros anos da década de 60 o seu rosto começa a encher capas de revista e faz apaixonar as jovens donzelas do país, ainda a viver a maravilha e o espanto trazido pela recente estreia da televisão. Mais que deslumbrado, António Calvário (que vence o primeiro Festival da Canção, em 1964) reconhece ter vivido "aterrado" os primeiros tempos de fama. O público era simpático - "enfim, não o masculino que, por inveja, me insultava na rua e me enviava cartas anónimas" -, mas o excesso de entusiasmo fazia muitas vezes que as situações se descontrolassem.
O cantor recorda, por exemplo, uma passagem num hotel do Porto, onde uma multidão feminina o aguardava à saída para pedir autógrafos. Incapazes de afastar as fãs, as autoridades tentavam em vão conter a euforia, enquanto Calvário temia sair, não querendo provocar distúrbios no hotel. "Acabei por tentar escapar por uma porta das traseiras, qual artista norte-americano, disfarçado com uma gabardine que nem sequer era minha, e um par de óculos escuros". Esforço inglório. Alguém o reconhece e solta o grito de guerra: "Vai ali o Calvário. É ele, é ele!", sem que o cantor conseguisse fugir a tempo de salvar a gabardine ou escapar a umas quantas nódoas negras, graças aos empurrões.
Foi gerindo a glória como a sua formação pessoal lhe ditou. "Sentia ter responsabilidades acrescidas por ser figura pública e procurei nunca me esquecer dos conselhos da minha prima, que, mesmo antes de eu chegar à fama, me avisara para contar com os seus reveses: os falsos amigos, o perigo da queda..." Mesmo assim, houve uma altura em que António Calvário ponderou desistir. "A pressão era muita. Pensei atirar uma moeda ao ar e decidir pela opção que a sorte me ditasse. Curiosamente, foram os meus pais que não me deixaram desistir. Eles que, de início, nem concordaram muito com a minha carreira, disseram-me nessa altura que voltar atrás já não fazia sentido."
Aos 71 anos, António Calvário já não tem dúvidas sobre ter tomado a decisão acertada: "A profissão deu-me muito", mesmo considerando os seus aspectos menos positivos e os sacrifícios pessoais que lhe possa ter exigido. Não casou, "porque assistia demasiado perto ao casa-descasa de colegas meus e não queria isso para mim", além de saber que, na época, "as fãs não viam com bons olhos que os seus ídolos casassem. Pediam-me tanto que não casasse com a Madalena Iglésias quando correu essa notícia..." Mas vive hoje de bem com a vida. "Gostei de tudo o que vivi e vivi, de facto, muito", afirma sem hesitar, "por isso não me sinto triste ou só, nem sequer saudosista".
Sentado à mesa de uma pastelaria de Lisboa, com a sobrinha-neta ao lado - uma companhia frequente -, António Calvário sorri e, no rosto cuidado, sem marcas profundas que denunciem a passagem dos anos, a expressão do galã ainda não se perdeu. Recusa parar. "Esqueço-me da idade que tenho." É por isso que, no próximo dia 26, quem quiser pode ir ver o seu próximo espectáculo, no Cadaval.
Filipe Pinto
Vencedor do Ídolos
ÍDOLO, não. Pode a euforia das fãs projectá-lo como tal ou a vitória no concurso televisivo da SIC oficializar o estatuto, mas não há maneira de Filipe Pinto se sentir confortável nessa categoria. "Acho a palavra muito pesada e não consigo encaixar-me nela. Nem quero. Talvez possa ter sido um ídolo para mim próprio, porque me ultrapassei e consegui vencer um certo pessimismo, entrando nesta aventura. Mas não mais do que isso", confessa, com um sorriso meio envergonhado a sublinhar a afirmação.
E que aventura. De jovem estudante, habituado a cantar sozinho na garagem - "a música sempre foi um refúgio" -, a vencedor do "Ídolos", vai exactamente a distância do anonimato à glória repentina. Um susto. "Foi muito surpreendente. Primeiro, logo com o casting e a quantidade de pessoas que passaram a abordar-me, depois, com o correr do programa, o entusiasmo que sentia à minha volta..."
Em pouco tempo, Filipe não sente apenas necessidade de comprar uma agenda "para acabar de vez com a minha desorganização", brinca. Teve já de preparar-se para os holofotes. "Comecei a criar as minhas defesas e os meus limites, a definir o que queria e o que não queria dizer", explica, para reconhecer logo em seguida a dificuldade da tarefa: "É impossível controlar tudo o que te rodeia. Mesmo as pessoas à minha volta, tão ingénuas como eu, acabavam por falar, quase sempre com boa intenção, mas muitas histórias acabaram distorcidas às mãos de uma certa comunicação social".
Aos 21 anos, Filipe Pinto tem consciência de que este é um dos custos da fama. Do júri do concurso já recebera alertas e da produtora, a Fremantle, recebe "grande ajuda para gerir a exposição pública". A intuição decide o resto. "Quero seguir o meu caminho na música, mas acredito que este não tem de passar necessariamente pela fama. Considero mais importante ser verdadeiro e fiel a mim mesmo".
Em boa verdade, Filipe afirma ter "mais medo da fama que vontade de conquistá-la". "Não quero que as coisas mudem, muito menos por vaidade ou arrogância", diz peremptório. "Tenho medo de dar por mim a gostar das coisas que até aqui sempre considerei fúteis e só espero que, no caso de isso vir a acontecer, alguém me bata no ombro para mo lembrar e me puxar de volta." Por isso, garante, não teme voltar a cair no anonimato.
É outro o brilho que o faz sonhar. Há três anos a estudar Engenharia Florestal, em Vila Real, Filipe tem as suas prioridades bem definidas. Quer, em primeiro lugar, voltar ao convívio familiar em São Mamede de Infesta, recuperar as suas rotinas habituais, "pensar no que me está a acontecer" e, sem lugar para dúvidas, "acabar o curso". Depois disso "será mais fácil tomar outras decisões". Disciplina é a sua palavra de ordem. "Tenho muito bem definidos os dois lados da minha vida actual e não os quero misturar." Será possível? "Tem de ser, detesto deixar coisas a meio."
Admirador de Eddie Vedder, Ornatos Violeta, Radiohead, Filipe quer, para já, alargar os seus conhecimentos. Descobrir novas vias musicais, "como o jazz", explorar as potencialidades da voz e aproveitar a oportunidade de ir estudar para Londres, graças à vitória no concurso, são realidades que fazem ter valido a pena o esforço para ultrapassar a timidez e as dúvidas iniciais. "Este lado tem sido muito bom e a fama, enquanto durar, quero aproveitá-la para participar em coisas úteis. Sensibilizou-me muito ter sido dador de medula e acho que o mais importante de ser conhecido devia ser isso, o poder dar a cara por boas acções."
Publicado na Revista Única do Expresso de 13 de Março de 2010