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António de Almeida (www.expresso.pt)
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0:00 Sábado, 27 de Fev de 2010
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Meu caro Duque.
Recomposto, o plebeu agradece os seus cuidados e, cheio de energia, retoma o hobby de croniqueiro. Quando o destino nos escolhe para lutas contra doenças graves, aprendemos o verdadeiro significado da vida. Por razões que não descortinamos, as transfiguradas células do nosso corpo, causadoras dessa doença, tentam, a princípio pacientemente, mas depois agressivamente, apressar o nosso fim. A luta que lhe é movida necessita de associar à dor física e psicológica dos exames, tratamentos, operações, pós-operatório e sequelas que ficam para sempre, a força da resistência da mente. É durante a noite, na inspiração do silêncio e no medo da escuridão, que fazemos as grandes reflexões sobre o nada que somos, as nossas ridículas vaidades, a convivência com o sofrimento e o valor do amparo dos familiares, amigos e profissionais da medicina a quem, com a maior humildade e confiança, entregamos o corpo doente. E como a mente ajuda a resistir e a vencer!
No final de Janeiro, na quente cama da clínica, que contrastava com o frio do exterior, pela televisão, fui acompanhando o que se passava em Portugal. Não fiquei tranquilo. De regresso, folheei os jornais publicados durante a minha ausência. Fiquei mais preocupado. Tentei escolher um tema para esta crónica que tenha sido tratado com objectividade, sem 'sacanices' e ódios pessoais e que contribua para a criação de condições de serenidade que permitam ao país ser governado com os sucessos e insucessos próprios de qualquer actividade. Cheguei à conclusão que a prioridade, direi mesmo obsessão, é arrastar temas que mantenham uma constante perturbação no país, releguem para segundo plano os verdadeiros assuntos cuja resolução possa ajudar a encontrar um rumo sustentado para Portugal e desviem as atenções de quem foi democraticamente escolhido para governar. Tal como sucede com doenças graves, quando se enfraquece a capacidade de resistência da mente, as outras forças cedem com facilidade e a probabilidade de derrota aumenta. Os médicos sabem isto e têm a preocupação de manter o moral do doente em alta.
Desisti e fixei-me em duas notícias. A primeira relativa à descoberta por neurologistas do California Institute of Tecnology de que o medo de perder dinheiro está na amígdala. A recente votação da lei das finanças regionais, que demonstrou como os partidos cedem tão despudoradamente à demagogia de conquista de votos, devia ser acompanhada por uma verba (afinal, mais um ou dois milhões de euros não fazem diferença) para se estudar o estado das amígdalas na RAM. É de admitir que o medo de perder dinheiro encontre explicação nesse trabalho de investigação. Já agora, podia avançar-se com uma vacina contra a amigdalite aguda daquela região.
O segundo é que os fuzileiros americanos têm de comer escorpiões para aprender a salvar a vida. Como é sabido, por mais combate que se lhes dê, os escorpiões fazem parte daquelas espécies que não correm o risco de extinção. E quanto mais venenosos mais engordam, com a agravante de se encontrarem por todo o lado. Não seria descabido pedir ao Presidente Obama que nos ceda um pelotão de fuzileiros esfomeados para comerem alguns escorpiões muito venenosos que, sem disfarce, abundam na nossa sociedade.
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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0:00 Sábado, 30 de Jan de 2010
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As imagens que a comunicação social nos tem dado sobre o drama que o povo do Haiti está a viver tiram interesse a qualquer tema de outra natureza. É a morte exposta cruelmente nas ruas de Port-au-Prince.
É o agravamento da miséria de quem ali vivia - se viver se pode chamar a quem dispunha de um dólar por dia. É o desespero da impotência de acudir aos gritos dos soterrados vivos. É o caos total de uma sociedade. Até a natureza é impiedosa com os mais pobres.
Comparado ao referido drama, nenhum significado têm outras notícias que nos chegam, como é o caso da falsidade dos dados sobre as finanças públicas que a Grécia forneceu à Comissão Europeia e da incapacidade desta para os detectar.
Como sucede depois das grandes tragédias, daqui a uns dias a comunicação social desinteressar-se-á do Haiti. Partirá para outra tragédia ou comédia que lhe garanta audiências.
Em Portugal, só quando for apresentado o Orçamento do Estado para 2010 e forem conhecidos os entendimentos e desentendimentos entre o Governo e a oposição, é que os croniqueiros terão matéria para cronicar. Sabiamente, mostrarão que se estivessem no Governo resolveriam todos os problemas de uma penada. Bastava implementarem as medidas adequadas.
Enquanto se aguarda pelo Orçamento, socorri-me de acontecimentos recentes. Detive-me no ataque à Cimpor. Na modalidade OPA hostil, lançada pela CSN, e a da fusão, proposta pela Camargo Corrêa. Esta operação e outras em formato diferente, levadas a cabo por empresas angolanas sobre algumas das mais importantes empresas portuguesas, trouxeram a terreiro, de forma mais suave do que aconteceu noutros casos que envolviam empresas da UE, a questão dos chamados "centros nacionais de decisão".
O Governo deu a sua opinião no sentido da preferência de que a Cimpor continue a ter um núcleo-duro que garanta o centro de decisão em Portugal. Não interferiu. E andou bem por várias razões, com destaque para duas.
A primeira, por se tratar de uma empresa cotada num mercado que tem regras. Quem investe nessas empresas fá-lo de acordo com essas regras, pelo que qualquer intromissão política que as distorça acaba por produzir danos no mercado de capitais. Os governos, respeitando essas regras, têm legitimidade para protegerem as empresas nacionais de particular significado e cuja mudança de núcleo-duro accionista possa perspectivar a transferência de poder para fora do país.
A segunda, por empresas portuguesas terem posições, mesmo maioritárias, em empresas do Brasil e de Angola. A reciprocidade é um princípio elementar de relacionamento entre os Estados. Acresce que propicia vantagens mútuas, tanto no mundo dos negócios como no campo político.
O Governo fez o seu papel. Agora cabe aos accionistas decidirem se preferem encaixar as mais-valias ou segurar a Cimpor.
Por imperiosas razões pessoais, o plebeu não vai poder acompanhar o duque durante algumas semanas, mas estará atento à evolução deste processo.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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0:00 Sábado, 16 de Jan de 2010
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Terminadas as 12 badaladas, o povo comeu as passas. Bebeu champanhe, espumante ou líquido correlativo, conforme o seu estatuto, bolsa ou capacidade de endividamento. Desejou tudo de bom para as pessoas de quem gosta. Fez votos do que deseja para si. Entrou feliz em 2010.
O ano começou com chuva e vento. Despenteou cabeças, mas o que nos espera em 2010 necessita delas bem arrumadas. Talvez por essa razão, o PR, na sua comunicação aos portugueses, lembrou-lhes a situação do país. Apontou os desafios que os esperam. Deixou uma palavra de esperança.
Digeridas as passas, ultrapassado o efeito dos copos bebidos no réveillon e antes que cheguem as contas do esforço pedido ao cartão de crédito no mês de Dezembro, será útil pensarmos em quatro pontos da mensagem. Desemprego elevado, que tudo indica se agravará. Dívida do Estado próxima de um nível perigoso, a qual vamos ter de pagar. Endividamento ao estrangeiro preocupante, sabendo-se que as reacções dos credores nunca são suaves. Défice das contas públicas que tem de começar a ser combatido já no corrente ano.
Apesar dos sacrifícios que têm sido pedidos aos portugueses, acredito que podemos superar mais esta situação se a mesma lhes for comunicada com rigor, transparência e verdade. Sem kanganhiça. Quem viveu em Moçambique, ouviu muitas vezes esta palavra. Os que apreenderam o seu sentido identificam, sem dificuldade, os kanganhiceiros. Nunca ofendem a lei. Falam muito, mas dizem pouco. Prometem tudo, sabendo que não podem honrar as promessas. Aparecem transpirados ao chefe, mesmo que o suor não seja do trabalho. Conseguem não perceber as situações que os podem prejudicar. Sabem fazer pela vida. Há kanganhiceiros em todas as profissões e em todos os tempos. A maioria safa-se bem. Quando, na década de 60, apanhava malária no Vale do Incomáti, assisti a actos de violência praticados por trabalhadores que descobriam os que estavam a fazer kanganhiça. Na nossa sociedade, a arte de kanganhiçar é mais sofisticada, mais fina e mais lucrativa.
O PR pediu aos agentes políticos para deixarem de lado as querelas artificiais. Mas não são só os agentes políticos que devem estar sob observação. Somos todos nós. Se políticos, empresários, sindicatos e cidadãos continuarem a pensar que o Estado tem um saco sem fundo para a tudo e todos acudir, que governar é ser porreiro e que as próximas gerações pagarão a conta, a situação só piorará.
A confirmação pelo PR que o governo dispõe de todas as condições de legitimidade para governar representa uma responsabilidade para o governo e a oposição. O país necessita de ser governado pelo partido que democraticamente o povo escolheu. A obrigação dos agentes políticos, empresariais e sindicais não é atrapalhar a acção do governo com o objectivo de conseguirem vantagens. Devem criticar, mas também têm a obrigação de adiantar propostas devidamente estruturadas, fundamentadas e quantificadas, por mais impopulares que sejam, que ajudem a atenuar os desequilíbrios. Oposição que queira comer a carne, chamando a si as propostas simpáticas, e deixar os ossos, as propostas antipáticas, para o Governo está a fazer kanganhiça. O próximo Orçamento do Estado será um excelente teste para os portugueses separarem quem quer governar dos kanganhiceiros.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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0:01 Sábado, 19 de Dez de 2009
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Desde o passado dia 7, Copenhaga está no centro do mundo. Numa tentativa para 'salvar o planeta', com a condição de 'promover o desenvolvimento'.
Equação difícil. Pelas variáveis em jogo, em Copenhaga estão cientistas, defendendo as suas teses sobre a correlação entre as emissões de CO2 e o aquecimento da Terra. Ambientalistas e ONG. Mestres do lóbi, pressionando negócios. Políticos esperançados em medidas que, tal como sucedeu com os caminhos-de-ferro, automóvel, avião, internet e telecomunicações, sejam a base de uma sustentada recuperação da economia. Jornalistas, explorando a esgrima entre as partes em confronto. Polícias com fartura para proteger os 15.000 participantes e acompanhantes.
O tema climate change está relacionado com as consequências geradas pelo aquecimento global. Terras submersas pelos oceanos. Desertos a crescer. Secas. Cheias. Temporais. Espécies em extinção. Doenças. Fome. Guerras. Tudo isto se o homem não arredar caminho do estilo de vida que os países avançados criaram. Sendo indiscutível a humanidade ter a obrigação de aproveitar a água, o vento, o sol, as ondas e as marés, a salvação do planeta é mais complexa do que a problemática da energia.
A população humana continua a crescer. A esperança de vida também. Os cidadãos dos países avançados afogaram a atmosfera com CO2 para gerarem um estilo de vida, baseado no consumismo desenfreado, no conforto e na geração de fabulosos lucros com a transferência da produção de bens, quantos totalmente inúteis, para os países em desenvolvimento, beneficiando dos custos da mão-de-obra.
São senhores das tecnologias e das capacidades de investigação indispensáveis da luta do climate change. O bem-bom dos países avançados fomenta a produção. Estimula os investimentos. Gera emprego. Engorda os impostos. Chamamos-lhe criação de riqueza, tornando a discussão política escrava das décimas do PIB. O pior são as inevitáveis pressões sobre os recursos da maltratada Terra, o ambiente, a geração de CO2 e as incidências nas alterações climáticas.
Os países em desenvolvimento aspiram a níveis de vida idênticos ao dos países avançados. Idealizemos o que representará de pressão sobre os recursos da Terra quando pelo menos 30% dos chineses e indianos tiverem a possibilidade de comer, de possuir automóvel, de gozar os pacotes turísticos, de beneficiar das comodidades da aparelhagem eléctrica e de se encantarem com tanta inutilidade provocada pelo consumismo. Para tal, não abdicam de serem apoiados financeiramente na promoção do desenvolvimento e de terem acesso rápido às tecnologias que vão ser o motor, designadamente na energia, e de beneficiarem dos milhares de milhões de negócios que vão gerar.
A energia é a geradora de oportunidades. Ajuda à retoma económica. Cria emprego. Provoca a inovação. Contribui para a redução de emissões de CO2. É aplaudida. As medidas que protejam as florestas, reduzam as viagens de avião, penalizem o automóvel, alterem os hábitos alimentares, designadamente de carne de ruminantes, eduquem as novas gerações no combate ao consumismo estúpido e fomentem a transferência de tecnologias, mexem com poderosos interesses.
Aguardemos pelos resultados de Copenhaga, para avaliarmos para que lado os políticos se inclinaram. A nossa Terra, que tanto tem dado ao homem, merece ser tratada com um pouco mais carinho do que os interesses.
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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0:01 Sábado, 5 de Dez de 2009
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O dicionário define independência como libertação, falta de dependência. Povos, grupos e indivíduos aspiram pela genuína independência, tantas vezes condicionada por disfarçadas dependências.
No próximo dia 1 de Dezembro, celebra-se o dia da Restauração da Independência, no qual alguns fidalgos e muitos anónimos plebeus, sacrificaram a vida e bens para que, em 1640, iniciássemos a luta que levou à recuperação da nossa independência.
Na vida, todos temos o direito a ser independentes. O pleno uso desse direito é que se afigura problemático. O estatuto de independente é muito mais exigente do que muitos países, grupos e indivíduos, intitulados independentes, querem fazer crer. Ser efectivamente independente, correndo os riscos dessa livre e nobre opção, requer uma forte arquitectura ética, um elevado gosto pelo risco e o atirar pela janela saborosas situações, designadamente materiais, geradoras de dependências.
Não se pode usar orgulhosamente o estatuto de independente, querendo, simultaneamente, tirar partido, ou aceitando situações de dependência, designadamente materiais ou sociais.
Os restauradores tiveram uma demorada luta, como é timbre nas duras conquistas pela liberdade. Logo em 1628, no Porto, ocorreu o "Motim das Maçarocas". É normal. A maçaroca representa um importante e tentador elemento condicionador da efectiva independência.
Houve também as "Alterações de Évora", quando os plebeus da cidade deixaram de obedecer aos fidalgos e desrespeitaram o arcebispo. Ora nestas questões de dependências e independências há sempre 'fidalgos' com poder e 'arcebispos' que exigem ser respeitados.
Daí as recomendações que, embora vigorosas na forma, deixam amplas janelas para sensata flexibilidade do exercício da independência, quando estão em causa assuntos que envolvem 'fidalgos' que valorizam a dependência dos súbditos plebeus ou podem não agradar a 'arcebispos' que apreciam o beijo no anel.
Acresce que a verdadeira independência não resulta apenas do cumprimento formal de regras. Depois de 1945 e antes da queda do Muro de Berlim, países como a Hungria e a Checoslováquia eram formalmente independentes. Respeitavam todas as regras. Constituição. Parlamento. Governo. Tribunais. Exército. No entanto, nada faziam que ofendesse os 'arcebispos' do Kremlin e estavam sempre de acordo com os 'fidalgos' ali sediados.
Quando húngaros e checos revelaram a sua inquebrantável e legítima vontade de independência, sofreram a repressão. E esta gera medos que tornam os amantes da independência cautelosos, prudentes e silenciosos.
Bem diz o povo, na sua secular sabedoria, que "quem tem cu tem medo".
As minhas desculpas ao João Duque. Assumi o compromisso de escrever sobre a importância da independência e as condicionantes da acção dos independentes plebeus no governo das sociedades em Portugal, mas entusiasmei-me com o Primeiro de Dezembro. Fica para outra oportunidade.
De qualquer modo, permitiu-me, com uma ponta de saudade, recordar o Liceu Nacional da Guarda, que celebrava aquele dia, onde terminei o sétimo ano, e que me deixou gratas dependências de amizades para a vida.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta-feira, 18 de Nov de 2009
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Passaram oitenta anos desde o grande crash bolsista, uma das principais causas da Grande Depressão de 1929. Dez anos depois, deu-se início à Segunda Guerra Mundial. O mundo ficou dividido em dois grandes blocos. Um apoiado nos EUA. Outro na URSS. Tanto no bloco comunista, por ideologia, como no da economia de mercado, pelas destruições causadas pela guerra, a intervenção do Estado foi fundamental. Durante cerca de 25 anos, a teoria económica de Keynes, que tanto sucesso teve na fase pós-Grande Depressão, reinou.
Na década de 70, a forma de pensar economia no mundo ocidental alterou-se. Friedman defendeu uma interpretação diversa da de Keynes. Para ele, "a Grande Depressão, tal como outros períodos de acentuado desemprego, foi responsabilidade mais da má gestão de governos do que da instabilidade do sector privado". O free market encontrara um profeta. Reagon e Thatcher foram dois dos seus apóstolos. Desregularam mercados. Reduziram impostos. Atacaram sindicatos. A felicidade dos povos passou a assentar no consumismo gerado por uma iniciativa privada deixada a funcionar com o mínimo de regras. Crédito enfiado em doses industriais pelas goelas dos incautos, mas gulosos, cidadãos.
Muita coisa mudou nestes oitenta anos. A mais significativa foi a queda do Muro de Berlim, que celebra vinte anos. No BERD constatei como a "venda apressada", às vezes despudorada, do free market aos completamente impreparados países além-muro, produziu verdadeiras catástrofes económicas, financeiras, ambientais e sociais.
Oitenta anos depois da Grande Depressão e vinte após a queda do Muro, o mundo, diferente e menos fechado, vive deprimido com os efeitos de uma nova grave crise. PIB com reumatismo. Investimento privado engripado. Bancos falidos. Poupanças destruídas. Desemprego galopante. Famílias na miséria. Défices públicos e endividamentos preocupantes. Assustados, os liberais políticos e agentes empresariais, como de costume, aconchegaram-se à protecção do Estado. Falou-se novamente de Keynes. Prometeram-se mudanças na forma de gerir e controlar a economia e supervisionar as empresas. Mas tardam.
No que se refere ao tecido empresarial, a actual crise ainda não provocou mudanças visíveis nas formas de gerir, avaliar e supervisionar. Nem apareceram pensadores com novas ideias. A avaliação da performance das empresas não conseguiu desligar-se da montanha-russa do curtíssimo prazo diário do sobe e desce das cotações. A supervisão interna continua com dificuldades em meter a mão onde quer e deve. Os modelos de governo não alteraram o paradigma actual da genuína independência e efectiva actuação dos denominados membros independentes. As exigências dos supervisores são pouco acarinhadas. O trade-off entre a manutenção de empresas sem futuro, mas pesadas em postos de trabalho, e a utilização desses recursos para uma verdadeira modernização de um tecido empresarial voltado para o século XXI, nem sempre é privilegiado.
Sem mudanças nas verdadeiras áreas prioritárias da economia, finanças e gestão, nem todas simpáticas, geradoras de votos e manutenção de lugares, dificilmente se conseguirá o objectivo de um crescimento sustentado. Mas cuidado, pois uma nova e mais violenta crise não esperará oitenta anos. Nem vinte.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta-feira, 4 de Nov de 2009
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No dia 27 de Setembro os portugueses aprovaram de forma inequívoca a governação do PS durante o primeiro mandato. Democraticamente, disseram que queriam que continuasse a governar por novo período de quatro anos. Em 26 do corrente, José Sócrates e a sua remodelada equipa tomaram posse.
Segue-se a governação, a qual será precedida pela votação do Programa de Governo, que não pode deixar de assentar no que o PS apresentou ao eleitorado. Trata-se de uma imposição democrática. Apesar de muita contestação de interesses corporativos, o governo anterior avançou com importantes reformas. O actual não pode recuar, embora seja normal rever alguns aspectos pontuais. Está fora de questão a oposição chumbar o programa de governo.
O orçamento para 2010 será interessante de acompanhar. Trata-se de documento de grande importância para o futuro dos portugueses. Vai ter de ponderar vários aspectos, nem todos facilmente conciliáveis. Depois, o país necessita de acção.
Na cerimónia de posse, o Presidente da República lembrou a preocupante situação económica e social do país. Salientou as consequências do desemprego. Acentuou o nível de endividamento externo. Recordou as prioridades da economia, a produção de bens transaccionáveis destinados à exportação e a melhoria da competitividade. Foi claro quando afirmou que a ausência da maioria não poderá servir de justificação ao adiamento das reformas.
Com o actual meio envolvente, a governação tem de ser eficaz, eficiente e conciliar os problemas imediatos, que afligem milhares de portugueses, com uma visão de sustentabilidade a longo prazo. O primeiro-ministro definiu as três grandes prioridades do governo. Combater a crise através da recuperação da economia e do emprego. Continuar a modernização do país. Privilegiar a justiça social. José Sócrates sabe o que quer. Conhece o caminho a percorrer. Transmitiu uma estratégia lúcida. Reafirmou o importante papel do Estado.
É útil ter presente o aviso de Keynes de que não há só uma grande crise por século, defendendo, na sua teoria, a possibilidade de ocorrer em qualquer altura. José Sócrates concretizou o seu estado de espírito em três palavras, ânimo, coragem e determinação.
O ânimo cria a motivação para, a nível pessoal e colectivo, se vencerem as situações mais críticas. Quando se perde, somos derrotados. A coragem permite enfrentar o risco e ter opinião com todas as consequências. Os dirigentes nim sobrevivem, mas deles não fica memória. A determinação fomenta a capacidade de acção nos momentos mais difíceis. Ânimo, coragem e determinação nunca faltaram ao primeiro-ministro, tanto em delicadas questões pessoais, como governativas.
Resta o papel da oposição, que se valoriza quando, pela sua prática de exigência, objectividade, seriedade e responsabilidade, traduzida em propostas concretas, mostra que está preparada aos olhos dos eleitores para, em próximas eleições, substituir o governo. Não por contínuas propostas de bondade franciscana.
Os plebeus que trabalham e pagam impostos estarão atentos à governação. Mas também ao comportamento da oposição. E não lhe perdoarão se bloquear a acção governativa e a concretização das reformas com base em propostas demagógicas, cujo efeito poderá ser inibidor da recuperação sustentada da economia. E sem esta, os franciscanos continuarão de pé descalço.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta-feira, 21 de Out de 2009
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Segundo o FMI, a recuperação começa a ganhar consistência na zona euro. Tomando 2008 como base, levará quatro anos. Chipre recuperará em 2010. A Espanha em 2014. Portugal, em 2013.
Esta débil esperança de crescimento foi suficiente para, mais uma vez, gerar exuberâncias bolsistas. Joseph Stiglitz, Nobel da Economia, alertou para os riscos de optimismo excessivos e usou a expressão "irracionalmente exuberantes".
O mercado de capitais representa um instrumento fundamental para a economia de mercado. No entanto, desafina com frequência. Quando ganha exuberâncias irracionais, torna-se perigoso. Quando desce razoavelmente, está a corrigir ganhos. Quando dá trambolhões, argumenta-se que investimentos na Bolsa são a longo prazo. Nas fases de exuberância, os jogadores de Bolsa viram gabarolas. O êxito é fruto da sua arte. Nas fases de desastre, calam-se. A culpa é da crise.
A funcionar com transparência e supervisionado com rigor, o mercado de capitais representa uma via privilegiada de financiamento das empresas e de aplicação de poupanças. Mal usado e com conivências nefastas pode transformar-se num desastre. As cíclicas euforias e crises bolsistas falam por si.
Antes do 25 de Abril, quando vinha a Portugal, os meus amigos falavam das fortunas geradas na Bolsa. Estoirou. Hibernou até à fase do "gato por lebre". Anunciava-se esbelta lebre, mas era só bem tratada pele. A muitos, a rifa das OPV destinou fedorentas ratazanas. Rebentou.
Tivemos "eufóricas" privatizações. "Generosos" aumentos de capital. "Bem vestidas" OPV.
Portugal tem de competir na qualidade, o que requer exigência em todos os domínios. No mercado de capitais pede-se muito aos supervisores nacionais, mas a supervisão interna representa importante trincheira da transparência, do rigor, da verdade, do uso do dinheiro dos accionistas. Dá conforto aos investidores não representados nos órgãos sociais. Não é apreciada.
Para fazer a diferença no mercado de capitais, Portugal tem de ser mais exigente do que as recomendações dos supervisores. Há tabus, vícios, interesses, subserviências e poderes desproporcionados nos órgãos sociais. A mudança é o caminho. Originará resistências.
A alternativa é o faz de conta. Pelo exemplo, rigor, isenção e capacidade crítica, o accionista Estado tem um papel fundamental no governo das sociedades. Tenho a certeza de que o novo Governo de José Sócrates vai deixar marca nesta importante área.
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta-feira, 7 de Out de 2009
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Foram duas semanas de agitação. Pobres de conteúdo. Ricas de promessas. Arruadas. Jantaradas. Jogadas. Caçadas ao voto. Piadas de gatos fedorentos. Verdades. Meias verdades. E outras assim-assim.
O povo passou ao lado dos profissionais do agitar bandeiras. Serenamente, foi formando a sua decisão. O Zé tem consciência da situação em que o país se encontra. Sabe que a saída vai exigir suor, sacrifícios, lágrimas e será demorada. Não acredita nas varinhas mágicas da felicidade material exibidas durante a campanha. Por isso, revelando bom senso, no dia 27 deu a vitória ao PS. Como escrevi no último artigo, José Sócrates é, nesta fase da vida do país, o político com capacidade, vontade, energia, conhecimento e credibilidade para enfrentar as dificuldades. Acresce que o faz num ambiente de esperança e de motivação e não de derrotismo. Foi uma extraordinária vitória. Ganhar com 7,5 pontos percentuais de vantagem sobre o segundo, o PSD, que andou convencido que, no dia 28, estaria com o problema de escolher entre os inúmeros candidatos a ministros, secretários de Estado, chefes de gabinete, assessores e profissões correlativas, é obra.
E não fica mal lembrar que a extraordinária vitória do PS foi conseguida num ambiente de gravíssima crise mundial económica, financeira e social. O PIB a diminuir. O défice a crescer. O endividamento a aumentar. O investimento parado. O desemprego em níveis anormalmente altos. O descontentamento dos professores por causa das quotas. As corporações agarradas a privilégios. As inventonas. A nojenta exploração do processo Freeport. As campanhas de alguma comunicação social. Ataques maciços e ferozes de toda a Oposição à pessoa do primeiro-ministro. Como não o conseguiram vencer, agarraram-se à tábua de salvação da perda da maioria absoluta. Ficaram todos felizes.
Agora é a sério. Há que governar. Sem o rufar dos bombos. Sem o agitar das bandeiras. Sem a demagogia da campanha. Os números são frios. O que nos espera é quente. Com maioria, a responsabilidade é apenas do governo. Sem maioria, é de todos os partidos e do Presidente da República. Os portugueses ficaram cansados de eleições e querem que José Sócrates governe. Se a Oposição enveredar pelo bota abaixo, impedir que se tomem medidas estruturais e se tiver como principal objectivo derrubar o governo, os portugueses não perdoarão. Lembrem-se do processo que levou Cavaco Silva à primeira maioria absoluta que o PSD tanto gabou e agora pede para a Câmara Municipal de Lisboa.
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009
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António de Almeida (www.expresso.pt)
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8:00 Quarta-feira, 23 de Set de 2009
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A quem a roleta da vida destinou doenças graves, aprende muito com os médicos. Explicam as causas. Avaliam a gravidade. Apresentam soluções. Se a cura for admissível, indicam as modalidades. Elucidam as consequências de cada, durante e depois do tratamento. Algumas são penosas. Cabe ao dono do corpo escolher e comunicar a decisão ao médico. Este pede documento a desresponsabilizá-lo pelas consequências. Ao médico cabe executar bem a terapia escolhida e minimizar os efeitos da mesma. Há as meramente paliativas. Não curam, mas dão mais alguns anos de vida. E há as que aceleram o fim.
No dia 27 de Setembro, os portugueses vão fazer uma responsável escolha. A economia mundial está doente. Portugal não podia escapar. Muitos portugueses pensam que a questão não lhes diz respeito. Temos saúde de ferro para aguentar tudo. Os doentes são os espanhóis. Os que não pagam impostos, por falta de rendimentos, embalam-se nas promessas de uma migalha de conforto material. Os que usam a engenharia fiscal jogam com o crescimento económico, quantas vezes alavancado em apoios públicos, para que as nesgas das leis fiscais apenas sejam disfarçadas. As centenas de milhar que pagam impostos, mas recebem do Estado vários múltiplos do que desembolsam, aprenderam a vender o peso do seu voto.
Os debates televisivos mostraram muita táctica de conquista de votos, à custa do atropelo de elementares princípios da economia. Na diplomacia, um desastre relativamente a Espanha e Angola. Foram reveladores da ausência de estratégias de longo prazo e de reformas, vias privilegiadas para tirar o país das conhecidas debilidades estruturais. Faltou esclarecimento quanto à origem de recursos para tanto maná eleitoral. José Sócrates foi atacado por todos, dentro e fora dos debates. Bom indicador do receio que o seu valor provoca aos outros líderes. Mesmo com debilidades, revelou-se, distanciadamente, o político mais bem preparado para governar Portugal. Com ideias seguras. Equilibrado no papel do Estado e da iniciativa privada. Sereno. Bom diplomata. Sem 'ódios' que impeçam soluções pós-eleições.
Para se desresponsabilizarem, os médicos pedem uma declaração. Os políticos, o voto. Que a euforia da noite de 27 de Setembro seja a festa do voto consciente. Os tempos não estão para aventuras. Nem para políticas de suspensões. E as consequências de algumas das terapias recomendadas podem não passar de paliativos. Os meus netos não querem definhar mais tarde. Desejam afirmar-se mais cedo.
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