Ter mundo
Criado como personagem, António Costa seria fácil de conceber na oficina dum escritor interessado em tramas de cariz realista. Costa é assertivo, sabe fazer render sorrisos e afeições enquanto argumenta, embora tenda a fugir ligeiramente para a frente quando se sente pressionado. Mas mantém sempre um ar convicto, atento ao prefixado e não consegue disfarçar um olhar de supremacia que confunde, muitas vezes, os adversários com o risível. Seja como for, Costa é um personagem com espessura e talento, vem de uma família e de uma atmosfera cultas, teve um escritor marcante como pai. Já não é da geração que passou pela extrema-esquerda na sua rota de Santiago. Mais jovem, Costa é homem de opção única, consistente e acabou por aportar no cais da política através de um desafio ainda hoje lembrado: o burro da Calçada de Carriche (o seu 'mergulho no Tejo de Marcelo'). Não era difícil imaginar Costa como secretário-geral do PS, mas o calculismo que não é alheio à prudência que alimenta tem-no feito percorrer outras vias e outras travessias. Como quem guia tranquilamente na circunvalação com o intuito de chegar, no momento certo, à praça central. O sorriso primaveril de Costa tem escrito esta ambição. Esta sagração do seu mais íntimo mundo.
Ter futuro
Costa é dos poucos políticos portugueses que evidenciam futuro. Não um futuro que se possa descrever astrologicamente ou através de catecismo, nem um futuro que possa desenhar-se no tempo. Costa é de um campeonato em que os jogos se ganham um a um, com a vantagem de que qualquer derrota alheia fará sempre parte da sua vitória (ainda que lamente maquiavelicamente o facto com real compaixão). Costa não convive com a intranquilidade ou com os escândalos e prefere, se possível por muito tempo, um bom bastidor de onde a sua voz se faça ouvir e a partir de onde a sua estratégia acabe por ter influência na pilotagem da nave. Costa é um verdadeiro corredor de fôlego e tem a sagesse de um ancião, embora, naturalmente, não o seja.
Ter estrela
O mais ávido aristocrata da comunicação pode, de um momento para o outro, tornar-se no maior dos derrotados. Costa sabe isso como a figueira sabe dos seus figos. Não enjeita, pois, aparecer - e fá-lo com determinação e bastante naturalidade -, embora não se exceda no comentário, na opinião e na exposição desmesurada. A estrelinha de Costa passa - sempre passou - por algum silêncio e pelo relativo afastamento do espaço público mediatizado. É desse modo que 'aquilo que se diz' não precisa de ser sublinhado, nem sobretudo gritado. A densidade de Costa tem origem neste tipo - dir-se-ia cuidado e trabalhado - de carisma que é capaz de escolher a leveza de um amorti em vez do gesto de fachada precipitado e vibrante, mas inútil. Sem se contrapor à natureza fantasmática da comunicação actual, como é - de certo modo - apanágio de Ferreira Leite, António Costa gere as suas reservas de modo também comedido. Mas consegue tornar-se no maior dos aristocratas da comunicação sempre que Hermes o convoca para o centro dos holofotes. E aí, no coração dessa encenação táctica, raramente perde.
Ter um desejo mobilizador
Costa não é homem de sonhos. E se fosse não os expunha e não os revelaria à luz do dia. Costa é o tipo de político que poderá acreditar em sonhos, mas apenas como consequência de factos muito materiais e tangíveis. Quando chegar a sua hora, aparecerá num registo chão - muito terra a terra - e tudo fará para encarnar perante quem o apoiar a ideia de um sonho. O cenário imaginado pelo escritor para o seu personagem pode nunca vir a concretizar-se, mas este seria o cenário lógico de todo o agir de Costa: a frieza como móbil do sonho.
O sonho mobilizador de Costa não surgirá, pois, espelhado nos lábios ou na mácula do olhar. Até porque Costa não é Sarkozi, nem mesmo Zapatero. O sonho mobilizador de Costa terá sempre - paradoxalmente - o seu quê de Opus Dei: trabalho, muito trabalho. Terapia de corredor de fundo.
Ter retaguarda
António Costa é daqueles políticos que pode dizer - mesmo a sorrir - que está na política "para servir" sem que toda a gente se ria de imediato. Há em Costa uma espécie de pacífica cascata que separa a esfera pública da privada. Sabe-se tudo sobre a sua mãe, o seu irmão e a sua mulher (que esteve na famosa manifestação dos professores de Março de 2008). Um tudo com sabor a nada. Um nada com sabor a tudo.
Costa manterá sempre o mesmo sorriso ao dizer 'tudo' ou 'nada'. Como se, neste caso, lhe fosse igual. O que verdadeiramente lhe interessa como que está sempre no alhures. Noutro lado. No vértice silencioso de um propósito porventura maior. Costa não o esconde. É essa a sua real retaguarda.
Estar aberto à contingência
Por vezes Costa pode ser um tanto radical. Limitar o trânsito a duas pistas no Terreiro do Paço não é algo apenas simbólico, ou feito à pressa para eleitor ver. É como - diria José Gil - uma "inscrição".
Costa pode deixar-se iludir pelo seu próprio vigor e ver-se abruptamente a falar a sós. E a repetir teimosamente a mesma ordem e a mesma deixa para os demais personagens. É dessa irascibilidade que as duas pistas do Terreiro do Paço são sintoma. Uma máquina segura de si pode vacilar e, quanto maior for a contingência que se lhe atravesse no destino, tanto maior será a probabilidade da impetuosa "inscrição".
A solidez e a complexidade do personagem têm destas coisas. Sobretudo quando a maleabilidade se torna numa urgência essencial. Um ser por mais pensado que seja pode, a qualquer altura, ser apanhado por um meteorito. É esse o perigo real da contingência para personagens que têm - ou parecem ter - o fado já todo traçado.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor