13/02/2012 atualizado às 8:38
Página Inicial » Blogues » Luís Carmelo » António Costa como personagem romanesco

António Costa como personagem romanesco

Esta é a sétima de uma série de crónicas em que venho analisando alguns dos personagens em que votamos. Há oito semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o sexto caso em análise: o de

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
8:00 Domingo, 1 de novembro de 2009

Ter mundo


Criado como personagem, António Costa seria fácil de conceber na oficina dum escritor interessado em tramas de cariz realista. Costa é assertivo, sabe fazer render sorrisos e afeições enquanto argumenta, embora tenda a fugir ligeiramente para a frente quando se sente pressionado. Mas mantém sempre um ar convicto, atento ao prefixado e não consegue disfarçar um olhar de supremacia que confunde, muitas vezes, os adversários com o risível. Seja como for, Costa é um personagem com espessura e talento, vem de uma família e de uma atmosfera cultas, teve um escritor marcante como pai. Já não é da geração que passou pela extrema-esquerda na sua rota de Santiago. Mais jovem, Costa é homem de opção única, consistente e acabou por aportar no cais da política através de um desafio ainda hoje lembrado: o burro da Calçada de Carriche (o seu 'mergulho no Tejo de Marcelo'). Não era difícil imaginar Costa como secretário-geral do PS, mas o calculismo que não é alheio à prudência que alimenta tem-no feito percorrer outras vias e outras travessias. Como quem guia tranquilamente na circunvalação com o intuito de chegar, no momento certo, à praça central. O sorriso primaveril de Costa tem escrito esta ambição. Esta sagração do seu mais íntimo mundo.

Ter futuro


Costa é dos poucos políticos portugueses que evidenciam futuro. Não um futuro que se possa descrever astrologicamente ou através de catecismo, nem um futuro que possa desenhar-se no tempo. Costa é de um campeonato em que os jogos se ganham um a um, com a vantagem de que qualquer derrota alheia fará sempre parte da sua vitória (ainda que lamente maquiavelicamente o facto com real compaixão). Costa não convive com a intranquilidade ou com os escândalos e prefere, se possível por muito tempo, um bom bastidor de onde a sua voz se faça ouvir e a partir de onde a sua estratégia acabe por ter influência na pilotagem da nave. Costa é um verdadeiro corredor de fôlego e tem a sagesse de um ancião, embora, naturalmente, não o seja.

Ter estrela



O mais ávido aristocrata da comunicação pode, de um momento para o outro, tornar-se no maior dos derrotados. Costa sabe isso como a figueira sabe dos seus figos. Não enjeita, pois, aparecer - e fá-lo com determinação e bastante naturalidade -, embora não se exceda no comentário, na opinião e na exposição desmesurada. A estrelinha de Costa passa - sempre passou - por algum silêncio e pelo relativo afastamento do espaço público mediatizado. É desse modo que 'aquilo que se diz' não precisa de ser sublinhado, nem sobretudo gritado. A densidade de Costa tem origem neste tipo - dir-se-ia cuidado e trabalhado - de carisma que é capaz de escolher a leveza de um amorti em vez do gesto de fachada precipitado e vibrante, mas inútil. Sem se contrapor à natureza fantasmática da comunicação actual, como é - de certo modo - apanágio de Ferreira Leite, António Costa gere as suas reservas de modo também comedido. Mas consegue tornar-se no maior dos aristocratas da comunicação sempre que Hermes o convoca para o centro dos holofotes. E aí, no coração dessa encenação táctica, raramente perde.

Ter um desejo mobilizador


Costa não é homem de sonhos. E se fosse não os expunha e não os revelaria à luz do dia. Costa é o tipo de político que poderá acreditar em sonhos, mas apenas como consequência de factos muito materiais e tangíveis. Quando chegar a sua hora, aparecerá num registo chão - muito terra a terra - e tudo fará para encarnar perante quem o apoiar a ideia de um sonho. O cenário imaginado pelo escritor para o seu personagem pode nunca vir a concretizar-se, mas este seria o cenário lógico de todo o agir de Costa: a frieza como móbil do sonho. 

O sonho mobilizador de Costa não surgirá, pois, espelhado nos lábios ou na mácula do olhar. Até porque Costa não é Sarkozi, nem mesmo Zapatero. O sonho mobilizador de Costa terá sempre - paradoxalmente - o seu quê de Opus Dei: trabalho, muito trabalho. Terapia de corredor de fundo.

Ter retaguarda


António Costa é daqueles políticos que pode dizer - mesmo a sorrir - que está na política "para servir" sem que toda a gente se ria de imediato. Há em Costa uma espécie de pacífica cascata que separa a esfera pública da privada. Sabe-se tudo sobre a sua mãe, o seu irmão e a sua mulher (que esteve na famosa manifestação dos professores de Março de 2008). Um tudo com sabor a nada. Um nada com sabor a tudo.

Costa manterá sempre o mesmo sorriso ao dizer 'tudo' ou 'nada'. Como se, neste caso, lhe fosse igual. O que verdadeiramente lhe interessa como que está sempre no alhures. Noutro lado. No vértice silencioso de um propósito porventura maior. Costa não o esconde. É essa a sua real retaguarda.

Estar aberto à contingência


Por vezes Costa pode ser um tanto radical. Limitar o trânsito a duas pistas no Terreiro do Paço não é algo apenas simbólico, ou feito à pressa para eleitor ver. É como - diria José Gil - uma "inscrição". 

Costa pode deixar-se iludir pelo seu próprio vigor e ver-se abruptamente a falar a sós. E a repetir teimosamente a mesma ordem e a mesma deixa para os demais personagens. É dessa irascibilidade que as duas pistas do Terreiro do Paço são sintoma. Uma máquina segura de si pode vacilar e, quanto maior for a contingência que se lhe atravesse no destino, tanto maior será a probabilidade da impetuosa "inscrição". 

A solidez e a complexidade do personagem têm destas coisas. Sobretudo quando a maleabilidade se torna numa urgência essencial. Um ser por mais pensado que seja pode, a qualquer altura, ser apanhado por um meteorito. É esse o perigo real da contingência para personagens que têm - ou parecem ter - o fado já todo traçado.

Luís Carmelo
Professor universitário e autor

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Biografia do quotidiano de A.Costa
PIANINHO (seguir utilizador), 1 ponto , 12:08 | Domingo, 1 de novembro de 2009
Aos explanar os seus conceitos sobre as praticas comportamentais do quotidiano de um político com potencial para o desempenho de cargos de maior responsabilidade que o actual, é antecipar uma visão de futuro arrojada. mas que face à "concorrência" corre poucos riscos de não acertar no alvo.

Nem tudo o que luz é ouro, mas este, tem à partida o contraste de fabrico, que o certifica a sua qualidade.

Excelente análise, o cronista está de parabéns.
 
 Regras da comunidade
"políticos portugueses que evidenciam futuro"
fimdalinha (seguir utilizador), 1 ponto , 12:43 | Domingo, 1 de novembro de 2009
LOL.... o futuro o dirá...
Só mesmo os falecidos não "evidenciam" futuro....
É melhor ler outra vez os búzios... o futuro normalmente não corre como se prevê... ele vai acontecendo e nós vamos prevendo...
Para o Costa (como para a maioria dos politicos) prevê-se um futuro risonho a viver à conta do Pagode.... e isso não é "evidente" é óbvio...
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Provas de Aferição: uma metáfora do país
10:30 Sábado, 8 de maio de 2010, 3
Ricardo Rodrigues, a Luísa Vilaça de Eça
10:00 Sexta feira, 7 de maio de 2010, 1
A ilusão da liberdade
14:18 Quinta feira, 6 de maio de 2010,
Manuel Alegre: No, you can´t!
22:37 Terça feira, 4 de maio de 2010, 1
1ª de Maio: o tabu ou o nosso Ganges?
8:00 Sábado, 1 de maio de 2010, 3
Silêncio sem 'share' nem perdão
19:36 Quinta feira, 22 de abril de 2010,
O abismo da confiança
10:30 Quarta feira, 14 de abril de 2010, 8
Os Fukuyamas da igreja
14:29 Terça feira, 13 de abril de 2010,
O Wrestling político e o PSD
23:48 Sábado, 10 de abril de 2010, 6
Valença e a alma ferida
15:21 Quarta feira, 7 de abril de 2010, 1
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP