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Ano Novo, Cavaco novo

O PR disse umas verdades ao Governo, mas também desautorizou o 'PSD (m-l)' que aposta no bota-abaixo.

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 15 de janeiro de 2010

Raras vezes o discurso de um Presidente da República produziu resultados tão concretos e imediatos como a mensagem de Cavaco Silva no dia de Ano Novo. Mal se ouviu o seu apelo ao diálogo entre o Executivo e as oposições, proferido com firmeza e dramatismo bastantes para ser compreendido por todos - Governo, organizações políticas e opinião pública - aquilo que parecia impossível ou, pelo menos, duvidoso, aconteceu. Representantes da maioria e das oposições correram a declarar a sua disponibilidade para o tal diálogo. E, poucos dias depois, o próprio Governo tomou a iniciativa de convidar os principais partidos para conversas prévias acerca do Orçamento do Estado que lhe compete apresentar ao Parlamento no fim do mês. Isto porque Cavaco, retomando a iniciativa que lhe vinha faltando desde as célebres "escutas", não se limitou a fazer um apelo vago e sem prazo marcado: indicou também "o momento adequado" para a concertação política que pedia, o qual era, precisamente, o debate do Orçamento.

A prontidão na resposta, quer do Governo quer das oposições, não é garantia de uma efectiva intenção de negociar. Mas indicia, pelo menos, alguma mudança no clima de crispação crescente e sem sentido que todas as partes alimentavam desde as eleições. Como se, de um lado e do outro, houvesse o propósito de esticar a corda até ela se partir, forçando nova ida a votos.

Sem nunca o citar, nem dando margem para mais uma "querela artificial", Cavaco foi duro com o Governo. É impossível não ler críticas ao Executivo quando o Presidente enuncia como preocupações centrais - desemprego, endividamento externo e desequilíbrio das contas públicas - áreas que têm estado bastante arredadas do discurso governamental, como ainda agora se viu na mensagem de Natal do primeiro-ministro. E quando diz recusar-se, pela sua parte, a "vender ilusões" e a "esconder a realidade", é difícil não pensar, por exemplo, no orçamento rectificativo e na demora do ministro das Finanças em assumir o descontrolo do défice e a urgência de mais dívida.

Cavaco reafirma, por outro lado, que o Governo tem "todas as condições de legitimidade para governar". Com isso, responsabiliza-o pela promoção dos "entendimentos necessários", deixando claro que não pactuaria com uma crise artificialmente precipitada pelo próprio PS. Mas, ao mesmo tempo, desautoriza qualquer veleidade de quantos, do Bloco de Esquerda ao CDS, passando pelo 'PSD (m-l)' - aquela facção mais radical por que tem alinhado a líder ainda em funções - apostassem numa caução política do Presidente ao eventual derrube do Executivo.

Na aparência, Governo e partidos compreenderam, finalmente, que nenhuma das partes tem nada a ganhar - e que o país só tem a perder - se se juntar à crise económica uma crise política. E perceberam também, nomeadamente na área socialista, que a "palavra pública" de Cavaco continua a pesar mais do que alguns imaginavam e desejariam. Em especial, quando se faz entender com clareza, dizendo aquilo que o bom senso aconselha e que o país precisa de ouvir dos seus eleitos.

O "quero lá saber!"
A petição por um referendo sobre o casamento gay e as assinaturas de 90 mil cidadãos servem para confrontar os grupos parlamentares da esquerda com a incongruência de falarem muito em nome do povo e recearem a voz do povo. Mas só para isso. A iniciativa surgiu tarde e a más horas, visto que a questão do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ficou resolvida quando os socialistas se consideraram mandatados para legislar sobre ela, isto é, em 22 de Setembro.

Quer se concorde quer se discorde do casamento em si, o PS actuou com lisura política bastante, em termos processuais. Podendo tê-lo aprovado na anterior legislatura, quando dispunha de maioria absoluta e o Bloco de Esquerda apresentou um projecto com o mesmo objectivo, votou contra esse projecto. Esperou por novas eleições, inscreveu o tema no programa eleitoral e no programa do Governo e só depois apresentou no Parlamento a sua iniciativa legislativa. Não se pode dizer, portanto, que o PS quis uma aprovação à sorrelfa. E a verdade é que, durante todo este período, a questão do referendo não foi levantada sequer pelos que se opõem a esse tipo de união. A petição acabou, assim, por surgir de forma atabalhoada quando, por razões tácticas - matar o assunto antes da visita do Papa e enquanto a oposição não se organizava - as esquerdas apressaram a discussão dos projectos.

O tema do casamento de homossexuais, tão dramatizado pelos media e por algumas forças políticas, só desperta verdadeira paixão entre os virtualmente interessados e alguns militantes da causa, que são, em geral, os mais fanáticos. A posição dominante na sociedade parece ser a do "quero lá saber!", um misto da proverbial inércia e de genuína tolerância. É isso que explica a aparente desmobilização das forças 'homofóbicas', isto é, de quem quer que se atreva a questionar um ponto que seja das exigências do lóbi gay, como a designação de 'casamento' para esse tipo de união. A própria Igreja Católica, sendo contra, não promoveu qualquer campanha. Limitou-se a afirmar as suas posições de princípio, fazendo um esforço notável e exemplar para não aprofundar clivagens políticas e sociais. Um esforço que é justo reconhecer e louvar, inclusive pelos defensores do casamento nos termos em que foi proposto, porque, muito provavelmente, outro seria o desfecho se a Igreja tivesse adoptado uma atitude diferente.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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Notas soltas
cjours (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 15:50 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
1- A lucidez e independência habituais. Raridade no jornalismo em Portugal.
2- PSD (m-l) - é lindo!! E verdade...
3- Discordo quanto ao relevo dado ao discurso presidencial. O que o Presidente disse e aquilo para que alertou, sabe-o o Governo melhor que ele. A verdade é que ninguém está interessado numa crise politica e, chamem-me naif, acho que é mesmo por consciência nacional e não por jogada politica.
4- O último parágrafo diz o que há que ser dito sobre o tema! Excelente!
Com uma ressalva... a IC amouxou porque a IC já não está em posição de fazer outra coisa que não seja amouchar! A IC já percebeu que quanto mais ondas criar, mais se molha!
E só lhe fica bem ser comedida! A República tolera uma Igreja Católica comedida, mas já não tolera uma IC metediça! E a IC sabe-o...
 
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Cavaco Silva
ANO1933 (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 23:36 | Sábado, 16 de janeiro de 2010
Porventura outro Presidente da República, que não Cavaco Silva, devido aos seus profundos conhecimentos de economia , de não ser dado a atritos e de ser uma personalidade conciliatória, conseguiria pôr o Governo e a Oposição a seguirem o caminho que ele indicou ?
Felizmente para Portugal, ultrapassou aquele mau momento das escutas ( Mas que atire a primeira pedra quem nunca errou ?) e voltou a ser o verdadeiro Cavaco Silva. Novinho em folha!
Será que Jorge Sampaio e Mário Soares conseguiriam tal desiderato ?
Eu, já nem me atrevo a falar em Manuel Alegre !
Senão teríamos uma lição de poesia , pesca, caça e locução!
Portugal, não poderia, nesta altura ter melhor Presidente da República.
 
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Ano Novo, Cavaco Novo
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 20:02 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
Mas o que é que queriam que o Presidente dissesse. A ele para já não lhe interessa que o quadro politico se altere. Sabe bem que o povo não gosta de por os ovos todos no mesmo cesto. Ou ainda alguém está convencido que não vai a votos. Para os que não gostam vão ter que comer ainda mais e se possivel com alegria. Quando é que já se viu um Líder de um partido não apresentar a demissão no dia das eleições, depois de uma pesada derrota, quando tinha todas as condições para as ter ganho. É mais que evidente que não passa de um pau mandado e só não vê quem não quer, porque até como ventriluco deixa muito a desejar. Uma coisa é certa com o estado em que estão e que irão ficar, quem não será beneficiado é o povo. Quando os politicos não têm juizo é sempre o mesmo a pagar. Também é ele o responsavel por ter ido na conversa de retirar a maioria absoluta. Isto deve-se essencialmente ao facto que o povo ainda não é culto na sua maioria, embora já não seja analfabeto na totalidade. Ainda o casamento dos gays não foi aprovado, mas eu já me sinto vontade de me divorciar do assunto. Como diz um amigo meu. Há muitos mais do que se pensa, caso contrário não havia tanto interesse. Continua dizendo que quem fala com marinheiros é porque quer embarcar. Já agora se o primeiro referendo sobre o aborto e a regionalização foram um fracasso este seria um desastre. Corriamos o risco de não irem votar além dos gays, das freiras e dos padres e pouco mais. Eu era um deles.
 
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Essa "PSD (m-l)" está bem conseguida e tem musica.
PIANINHO (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 17:47 | Domingo, 17 de janeiro de 2010

Enquanto o Pacheco Pereira continuar a soprar aos ouvidos de Manuela Ferreira Leite, indicando o caminho a seguir na política pelo PSD, iremos continuar ter alianças esquisitas na AR, com o único objectivo do Bota Abaixo.

Claro que entretanto a Direcção deve ter interiorizado, depois de ouvir o discurso do PR, que é tempo de acabar com as "filosofias" de que o futuro do PSD passa pelo "quanto pior melhor", porque quando as crises são profundas e batem no fundo, o caminho ascendente a percorrer, para além de moroso, torna-se um labirinto de que é muito difícil encontrar o sentido, da porta de saída.

Até ao lavar dos cestos é vindima, mas com MFL de saída, os acordos com o governo são tanto mais difíceis, quanto no PSD deixarem Paulo Portas e o PP assumirem serem eles, os interlocutores privilegiados, para contribuírem com os seus votos na aprovação do Orçamento de Estado, na AR.

E se esta perspectiva se consumar, mais uma vez Portas e PP ganham aos pontos ao PSD, na luta entre lideranças de oposição.

Vamos esperar para ver quem consegue retirar dividendos, para mim, deveriam ser sempre e só os portugueses.
 
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Estará certo o PSD-ml?
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 9:58 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Entalado entre Sócrates e Portas e com um líder não assumido escondido atrás da máscara de Ferreira Leite, o PSD tem tido desde as eleições uma estratégia de quanto pior melhor parecendo acreditar que com eleições antecipadas e um novo lider afastaria Sócrates do poder. Isto é o PSD-ml que aprovou na AR propostas 'armadilha' do CDS irrecusáveis pela extrema esquerda.
Grande parte do problema que temos vivido está que no PSD se pense que o partido sairia beneficiado de eleições antecipadas, ao mesmo tempo que Sócrates pensa o mesmo em relção ao PS e Portas o mesmo em relação ao CDS. Quem estará certo?
Para mim, o PSD está a cometer um erro crasso, na medida em que só se podem conseguir eleições antecipadas à custa de um sério agravamento da situação do país. Sócrates sairia beneficiado como vítima e Portas como o verdadeiro lider da direita e do centro direita.
 
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Não é de agora!!!
costinha79 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:31 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
O discurso do Presidente da República não é novidade nenhuma!!! Só para os mais desatentos!!!

Desde à muito tempo que o Dr. Cavaco Silva tem vindo a evidenciar as prioridades do debate político (défice das finanças públicas, exportações, investimento e crescimento económico e desemprego) bem como a necessidade de concertação política no sentido da manutenção da estabilidade!!!

O Presidente da República demonstra ser a personalidade mais lúcida e mais preparada para enfrentar os problemas com que a sociedade se debate!!!!

Finalmente o PS acordou e decidiu abrir espaço para negociações!!! O PSD e o CDS há muito tempo que mostraram essa abertura!!!!

Que trabalhem num Orçamento sério, responsável, credível e corajoso!!! Portugal assim o exige para começar a ultrapassar os seus problemas!!!!
 
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Cavacadas
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:35 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
As intervenções do Presidente da República não passam de cavacadas para o Governo e oposição, leia-se Partido Social Democrata. Ambos fingem aceitar e agir de acordo com as posições do mais alto Magistrado da Nação, mas no fundo já estão a afiar a espada com que vão entrar no próximo combate, que se seguirá à aprovação do orçamento, conforme imposição do presidente do PSD, Aníbal Cavaco Silva. Não é por acaso que o Partido Social Democrata tem a actual direcção e está no estado de agonia que todos conhecemos, tal deve-se à missão que lhe reservou o seu militante presidencial. As duras cavacadas do PR, são fogo de vista para o Governo e para o PSD são orientações como se deve comportar na defesa das causas que interessam ao ocupante do Palácio de Belém. Veja-se a forma ingénua e simplória como a presidente nomeada do PSD reagiu às "inventadas" escutas palacianas, com o disparatado discurso da asfixia democrática e a cavacal rasteira do PR quando veio com aquela conversa do correio electrónico, na mais espatafúrdia explicação que há memória, sobre a propalada espionagem governamental. Por isso, não vai ser bonito o que se vai passar daqui para a frente e o Povo é que vai pagar as favas, aprove-se ou não o orçamento, concertem-se ou não Governo e oposições. Quanto ao referendo ao casamento de homossexuais é um falso problema para iludir os cidadãos que andam preocupados com a sua vidinha e não sabem como hão-de resolver a situação. Os homossexuais que casem ou se unam,tanto faz.
 
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Ano novo costumes velhos
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:09 | Segunda feira, 18 de janeiro de 2010
Cavaco só faz aquilo que lhe compete.
A oposição é sempre do contra? mas sera que não tem o direito de se opor, quem é que tem levado o país á ruina com mentiras e falsidades.
Antes das eleições as finanças estavam controladas, agora estão um caõs?
Não apoio este socialismo porque este não promove a sériedade e honestidade.
 
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