No dia 27 de Setembro os portugueses aprovaram de forma inequívoca a governação do PS durante o primeiro mandato. Democraticamente, disseram que queriam que continuasse a governar por novo período de quatro anos. Em 26 do corrente, José Sócrates e a sua remodelada equipa tomaram posse.
Segue-se a governação, a qual será precedida pela votação do Programa de Governo, que não pode deixar de assentar no que o PS apresentou ao eleitorado. Trata-se de uma imposição democrática. Apesar de muita contestação de interesses corporativos, o governo anterior avançou com importantes reformas. O actual não pode recuar, embora seja normal rever alguns aspectos pontuais. Está fora de questão a oposição chumbar o programa de governo.
O orçamento para 2010 será interessante de acompanhar. Trata-se de documento de grande importância para o futuro dos portugueses. Vai ter de ponderar vários aspectos, nem todos facilmente conciliáveis. Depois, o país necessita de acção.
Na cerimónia de posse, o Presidente da República lembrou a preocupante situação económica e social do país. Salientou as consequências do desemprego. Acentuou o nível de endividamento externo. Recordou as prioridades da economia, a produção de bens transaccionáveis destinados à exportação e a melhoria da competitividade. Foi claro quando afirmou que a ausência da maioria não poderá servir de justificação ao adiamento das reformas.
Com o actual meio envolvente, a governação tem de ser eficaz, eficiente e conciliar os problemas imediatos, que afligem milhares de portugueses, com uma visão de sustentabilidade a longo prazo. O primeiro-ministro definiu as três grandes prioridades do governo. Combater a crise através da recuperação da economia e do emprego. Continuar a modernização do país. Privilegiar a justiça social. José Sócrates sabe o que quer. Conhece o caminho a percorrer. Transmitiu uma estratégia lúcida. Reafirmou o importante papel do Estado.
É útil ter presente o aviso de Keynes de que não há só uma grande crise por século, defendendo, na sua teoria, a possibilidade de ocorrer em qualquer altura. José Sócrates concretizou o seu estado de espírito em três palavras, ânimo, coragem e determinação.
O ânimo cria a motivação para, a nível pessoal e colectivo, se vencerem as situações mais críticas. Quando se perde, somos derrotados. A coragem permite enfrentar o risco e ter opinião com todas as consequências. Os dirigentes nim sobrevivem, mas deles não fica memória. A determinação fomenta a capacidade de acção nos momentos mais difíceis. Ânimo, coragem e determinação nunca faltaram ao primeiro-ministro, tanto em delicadas questões pessoais, como governativas.
Resta o papel da oposição, que se valoriza quando, pela sua prática de exigência, objectividade, seriedade e responsabilidade, traduzida em propostas concretas, mostra que está preparada aos olhos dos eleitores para, em próximas eleições, substituir o governo. Não por contínuas propostas de bondade franciscana.
Os plebeus que trabalham e pagam impostos estarão atentos à governação. Mas também ao comportamento da oposição. E não lhe perdoarão se bloquear a acção governativa e a concretização das reformas com base em propostas demagógicas, cujo efeito poderá ser inibidor da recuperação sustentada da economia. E sem esta, os franciscanos continuarão de pé descalço.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009