Sempre que vem a Lisboa, Andrea Tocha, 28 anos, aproveita para comprar alguns artigos de luxo que custam o dobro em Luanda
Luís Faustino
Se o armário de Andrea Tocha, 28 anos, tivesse mais alguns metros, podia ser confundido com uma loja de luxo. A apresentadora de televisão, em Angola, e imagem de um programa a estrear sobre automóveis, gosta de ver a roupa pendurada nos cabides por cores e dividida por categorias (vestidos de noite, calças e peças casual). Arranjou até um cantinho só para sapatos e carteiras, acessórios que lhe levam uma boa fatia do que ganha. "São a minha perdição. E quando me apaixono por uma peça, o preço não é o mais importante", conta.
O 'vai e vem' entre Luanda e Lisboa, por motivos profissionais, permite-lhe renovar o guarda-roupa nas melhores lojas da capital. Entre as peças mais caras que carrega na bagagem - as que Andrea, depois, exibe nas festas e casamentos (onde é quase um crime repetir a toilette) - vão também os básicos que compra nas grandes cadeias de roupa barata, "que tanta falta fazem lá", admite.Se é certo que o investimento chegou em força à capital angolana, para onde estão projectados novos centros comerciais, está por construir uma avenida no eixo principal da cidade que possa acolher marcas premium. "Faço compras nas boutiques multimarcas. O problema é que a roupa custa duas vezes mais em Luanda do que em Lisboa".
A melhor oferta, a preços mais competitivos, explica a 'dependência' das lojas de luxo nacionais dos clientes angolanos.
De acordo com as várias marcas contactadas pelo Expresso, quase todas concentradas na Avenida da Liberdade ou Chiado (e que preferiram manter o anonimato), os angolanos já representam quase 30% dos clientes. "Quando aqui entram, não olham a preços. Procuram qualidade e peças com o logo visível", afirma o responsável por uma conhecida marca de moda masculina. É comum a loja facturar, numa só venda, entre €50 e €100 mil, pagos por transferência bancária ou cartão de crédito. "Há dois anos, os mesmos clientes utilizavam o dinheiro, mas isso agora está ultrapassado", relata a mesma fonte.
O mesmo diz Manuela Saldanha, responsável pela Loja das Meias, marca centenária que, em 2007, apostou num espaço próprio em Luanda, e ainda não se arrependeu. Também em Lisboa, na Rua Castilho, as mulheres angolanas têm cada vez mais peso na contabilidade da empresa familiar. "Preferem as marcas de referência, como a Dior ou Prada. Compram grandes quantidades para oferecerem à família e amigas", conta, o que contraria a suspeita de que as peças sejam revendidas em Angola.
Para o relações públicas, e especialista no mercado de luxo, Ricardo Figueiredo, a importância dos angolanos na vida económica das marcas> premium "acentuou-se com a crise económica", e foram eles "os principais responsáveis pelo facto de as lojas, em Portugal, não se terem ressentido tanto como em Espanha, mais dependente do turismo asiático, por exemplo". Conscientes da importância dos clientes angolanos, na maioria homens de negócios (ver caixa com perfil), as marcas desdobram-se em acções de charme. "Alguns são convidados para as melhores festas internacionais".
Angolanos não sentem crise
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Na joalharia de luxo, os angolanos também se destacam, tanto pelo valor dos artigos que compram como pela facilidade com que os pagam. António Moura, que representa em Portugal a Chaumet, Dior e H. Stern, fala do caso recente de "uma senhora angolana que comprou uma pulseira por €120 mil, e pagou com cartão de crédito, sendo o pagamento imediatamente autorizado pelo banco".
Nos últimos quatro meses, foi a vez dos turistas chineses, sobretudo de Hong Kong e da Tailândia, começarem a dar nas vistas nas ourivesarias da capital. "Adquirem artigos equivalentes aos dos angolanos. Ou seja, compram com facilidade peças muito caras", explica António Moura, sublinhando que são ainda em menor número do que os primeiros.
Também Pedro Rosas, director-geral da joalharia David Rosas, admite que, entre os turistas que nos visitam, os angolanos são os melhores clientes, e já representam cerca de 12% do total das vendas em Lisboa. "São consumidores muito informados, que procuram as últimas novidades e marcas boas", garante, acrescentando que se trata geralmente de "homens, empresários ou ligados ao governo de Angola, que compram sobretudo relógios de ouro para si próprios".
Já os brasileiros, cerca de 8% do total de clientes da David Rosas em Lisboa, escolhem Portugal para as suas compras com o intuito de pouparem. "Adquirem produtos mais baratos do que os angolanos e aproveitam para contornar as taxas de importação do Brasil".
No final do ano passado, segundo António Moura, as vendas retraíram-se de uma maneira geral, uma vez que o anúncio da crise gerou pânico mesmo entre os clientes com mais recursos financeiros. "Ficaram mais cautelosos e não queriam exibir determinadas peças para não serem mal-interpretados", explica.
Ainda que os clientes angolanos em Portugal não sejam uma tendência recente, como confirmam os dois empresários, o que acontece é que os turistas russos ou japoneses, que também compravam artigos de griffe, foram os mais afectados pela crise. "Já os angolanos, continuaram a gastar dinheiro numa altura em que os outros desapareceram, dando mais nas vistas", diz António Moura. E explica que "a ideia de que são meia dúzia de pessoas com muitos milhões que fazem andar o negócio do luxo está errada". Afinal, são os largos milhares que não são ricos, mas que optam por comprar uma ou outra peça cara, embora com menos frequência.
Perfil
Cliente angolano Homem, 40 anos, empresário do ramo da construção, ex-militar ou com ligações ao governo. Veste Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna. Compra relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.
Cliente brasileiro Casais. Compram produtos mais baratos e querem contornar as taxas de importação. Pagam com cartão de crédito.
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009