Em Angola, a função de perscrutador dos acontecimentos continua a estar em alta. O que parece não é, em muitas ocasiões. Um facto recente é mais um daqueles momentos que merece alguma atenção. Petróleo, pois claro. Depois de durante muito tempo duas empresas petrolíferas chinesas terem andado na corrida para adquirirem 20% da participação da empresa petrolífera norte-americana Oil Marathon no bloco 32, avaliada em 1,3 mil milhões de dólares, era dado como certo que uma delas, a Sinopec, tinha o contrato assegurado, relegando para a valeta a CNOOC. Isto mesmo foi declarado pela empresa americana a 17 de Julho, no mesmo dia em que se soube que a Sonangol andava 'à procura' de mil milhões de dólares.
Mas eis senão quando, a 24 de Setembro, a empresa angolana declara que vai exercer o direito de preferência. Este direito poderia ter sido exercido por qualquer uma das outras empresas envolvidas naquele bloco, a saber: Total, Exxon Mobil ou Galp (que tem uma quota de 5%). A boa-nova do negócio com os chineses até havia tido honras de aparecer no site de notícias oficial, Portal das Empresas - Governo de Angola, em Julho.
Dadas as relações com a China, a compra pela Sonangol daquele quinhão apetecível (estima-se que as reservas sejam equivalentes a 1,5 mil milhões de barris a começar a produzir em 2012) causou surpresa! Terá chegado ao fim a lua-de-mel com a China? Alguns mais empertigados vaticinaram que isso era o princípio da derrocada amarela... Mas, porquê a decisão de última hora? Preparar-se-á a empresa angolana para dividir essa quota por empresas privadas angolanas? Entregar parte à Galp, que igualmente está naquele bloco? Conjecturas...
Ora, conjecturas é o que de mais estimulante se consegue ao observar Angola. Então é assim: quatro dias depois do anúncio do direito de preferência pela Sonangol, a 29 de Setembro, Angola assina pela primeira vez um acordo com o FMI que lhe permitirá obter um financiamento desta instituição. Falava-se em 500 milhões de dólares, já veio a lume a ideia de que pode ser mais, no mínimo, mil milhões. E se foi esta a contrapartida? Isto é, um bom gesto mostrando que Angola não está 'vendida' aos chineses tranquilizaria os espíritos no Ocidente, particularmente os americanos.
Se a isto associarmos o facto de a 23 de Setembro, o dia anterior à decisão da Sonangol, ter sido anunciado pelo Departamento do Tesouro dos EUA que este país vai passar a ter um consultor-residente em Angola para trabalhar "estreitamente" com o Ministério das Finanças e o Banco Nacional de Angola e que a secretária de Estado Hillary Clinton tinha estado em Luanda a 9 de Agosto (pouco mais de um mês antes) e que o ministro das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, havia visitado Washington em Maio, no que foi aproveitado para assinar um Acordo Quadro de Comércio e Investimento (TIFA), então. póim! Business as usual!
Venha daí o empréstimo! É trigo limpo, pardais ao ninho... Se os chineses já haviam passado a perna aos indianos no bloco 18, em 2004, quando estes pensavam que tinham o contrato na mão, agora foi a vez de a China compreender o que é a realpolitik angolana!
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009