13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Opinião » Manuel Ennes Ferreira » Angola, business as usual...

Angola, business as usual...

Manuel Ennes Ferreira (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 28 de outubro de 2009

Em Angola, a função de perscrutador dos acontecimentos continua a estar em alta. O que parece não é, em muitas ocasiões. Um facto recente é mais um daqueles momentos que merece alguma atenção. Petróleo, pois claro. Depois de durante muito tempo duas empresas petrolíferas chinesas terem andado na corrida para adquirirem 20% da participação da empresa petrolífera norte-americana Oil Marathon no bloco 32, avaliada em 1,3 mil milhões de dólares, era dado como certo que uma delas, a Sinopec, tinha o contrato assegurado, relegando para a valeta a CNOOC. Isto mesmo foi declarado pela empresa americana a 17 de Julho, no mesmo dia em que se soube que a Sonangol andava 'à procura' de mil milhões de dólares.

Mas eis senão quando, a 24 de Setembro, a empresa angolana declara que vai exercer o direito de preferência. Este direito poderia ter sido exercido por qualquer uma das outras empresas envolvidas naquele bloco, a saber: Total, Exxon Mobil ou Galp (que tem uma quota de 5%). A boa-nova do negócio com os chineses até havia tido honras de aparecer no site de notícias oficial, Portal das Empresas - Governo de Angola, em Julho.

Dadas as relações com a China, a compra pela Sonangol daquele quinhão apetecível (estima-se que as reservas sejam equivalentes a 1,5 mil milhões de barris a começar a produzir em 2012) causou surpresa! Terá chegado ao fim a lua-de-mel com a China? Alguns mais empertigados vaticinaram que isso era o princípio da derrocada amarela... Mas, porquê a decisão de última hora? Preparar-se-á a empresa angolana para dividir essa quota por empresas privadas angolanas? Entregar parte à Galp, que igualmente está naquele bloco? Conjecturas...

Ora, conjecturas é o que de mais estimulante se consegue ao observar Angola. Então é assim: quatro dias depois do anúncio do direito de preferência pela Sonangol, a 29 de Setembro, Angola assina pela primeira vez um acordo com o FMI que lhe permitirá obter um financiamento desta instituição. Falava-se em 500 milhões de dólares, já veio a lume a ideia de que pode ser mais, no mínimo, mil milhões. E se foi esta a contrapartida? Isto é, um bom gesto mostrando que Angola não está 'vendida' aos chineses tranquilizaria os espíritos no Ocidente, particularmente os americanos.

Se a isto associarmos o facto de a 23 de Setembro, o dia anterior à decisão da Sonangol, ter sido anunciado pelo Departamento do Tesouro dos EUA que este país vai passar a ter um consultor-residente em Angola para trabalhar "estreitamente" com o Ministério das Finanças e o Banco Nacional de Angola e que a secretária de Estado Hillary Clinton tinha estado em Luanda a 9 de Agosto (pouco mais de um mês antes) e que o ministro das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, havia visitado Washington em Maio, no que foi aproveitado para assinar um Acordo Quadro de Comércio e Investimento (TIFA), então. póim! Business as usual!

Venha daí o empréstimo! É trigo limpo, pardais ao ninho... Se os chineses já haviam passado a perna aos indianos no bloco 18, em 2004, quando estes pensavam que tinham o contrato na mão, agora foi a vez de a China compreender o que é a realpolitik angolana!

Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009 

 

Palavras-chave  opinião, EUA, China, realpolitik, petróleo, Angola
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Quem dá mais?
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 15:27 | Quarta feira, 28 de outubro de 2009
O seu entusiasmo é contagiante. Espero que, ao conta-la aos seus alunos, lhes explique quais as razões, de estratégia tão brilhante.

Quando uns já tinham, plok! A outros foi prometido e...Bang, surpresa. foi ganho por...Plink. Afinal; à ultima hora ganharam aqueles.

A "realpolitik", é quando adjudicado aos brasileiros. Noutros casos a preferência vai para "dollarpolitik" ou "europolitik". Depende portanto da moeda com que são pagas as comissões.

É que a rapaziada do ISEG, pode ficar com a ideia errada como os representantes do Estado devem agir.

 
 
 Regras da comunidade
Afinal,estavam á espera de quê.?Capitalismo,ou com
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 23:30 | Sexta feira, 30 de outubro de 2009
Afinal,estavam á espera e quê.??Capitalismo,ou comunismo.???É só pedirem.Tem para todods os gostos;e apetites.QUEM DÁ MAIS.???O RESTO;JÁ SABEM.Vai dar no mesmo.Tanto um sistema;como o outro,sempre os donos do poder,t~em que comer.Ou querem mais explicaçãos.??/Hoje é só.amanhã tem mais. cumprimentos.KANTIFLAS.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Cooperação e língua: conversa de mudos
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
Insensibilidade e falta de senso
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
Está a começar mal o ano...
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012,
A aventura de Chi Jianxin em África
0:00 Sexta feira, 30 de dezembro de 2011,
Em África também há Pai Natal
0:00 Sábado, 17 de dezembro de 2011,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP