A minha última crónica gerou muitas reacções, o que, sendo agradável, me deixou admirado. Uma das mensagens que em maior número recebi dizia respeito ao espanto de Angola estar de passagem por Portugal. Ponto de esclarecimento: o facto de estar de passagem não quer dizer que não fique também por aqui. Mas ganhando fôlego, e Angola já corre pelo mundo, Portugal deixará de ser a peça tão importante que é hoje. É essa a mensagem.
Para ajudar a clarificar a questão, olhemos para o interessante caso que é a empresa multinacional - isso, multinacional - angolana Ridge Solutions Angola, Ltd. Constituída em 2004, a empresa dedica-se ao sector imobiliário, à exploração de recursos naturais e, mais recentemente, à gestão de fundos de investimento, particularmente imobiliários. Nesta altura tem uma carteira de activos de cerca de 4 mil milhões de dólares americanos e prevê para os vindouros cinco anos um volume de negócios de 15 mil milhões. Opera na África do Sul, República Democrática do Congo, São Tomé e Príncipe, Estados Unidos e, naturalmente, em Angola.
Tem como objectivo procurar parceiros em mercados emergentes. E como tem de se dar a conhecer, e ao país, nada melhor do que investir numa actividade vista por milhões de pessoas e em todo o mundo. Uma actividade que entusiasma todas as idades e profissões. E que é muito exigente em dinheiro e em tecnologia. Do que estou a falar? Da Fórmula 1, ela mesmo! Isto não é só a Sonangol. Em Maio deste ano a equipa britânica AT&T Williams, do conhecido Frank Williams e dos corredores Rosberg e Nakajima, passou a dispor de um novo patrocinador, a Ridge Solutions Angola.
A partir do Grande Prémio do Mónaco, ao lado de, entre outros, a Phillips Shavers, Royal Bank of Scotland, BR Petrobras, Allianz, ORIS Swiss Watches, Reuters, Bridgestone, Accenture e Lenovo. Na altura a empresa referiu o seu interesse em vir a desenvolver na província de Benguela um centro tecnológico! Em Agosto, noticiou a criação de uma fundação em Angola, a Williams Foundation, para trabalhar com o Comité Organizador da Taça das Nações Africanas de Futebol de 2010, em Angola, e com o Fundo de Solidariedade Social Lwini, onde a mulher do Presidente angolano assume o cargo de presidente do Conselho Geral, em projectos sociais e de prevenção rodoviária.
Mas outro dos objectivos é apoiar o marketing da empresa angolana junto de investidores internacionais, nomeadamente no Médio Oriente e Ásia. Ora, em Outubro, foi inaugurada a RS Capital Middle East Ltd. E nesta ofensiva, durante o Grande Prémio do Dubai, a empresa tinha um dos maiores e mais bem posicionados stands com o carro F1. Como se sabe, o Dubai é um paradigma para Angola. Assim, tudo em que os empresários angolanos tocam vira ouro.
É a versão Midas africano. No entanto, nem tudo são rosas para o país e a culpa é do carapau. Ou melhor, da foca! De acordo com o "Novo Jornal" de 13 de Novembro, pensa-se proibir a pesca do carapau porque o seu stock está a diminuir dramaticamente. Causa? As focas que andam a comer desalmadamente! Não há por aí um empresário que abra a empresa The Angolan Seal Terminator?
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009