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Amor ou abuso?

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 6 de fevereiro de 2010

Onde acaba a protecção e começa o desrespeito?

Onde começa o abuso e termina o amor? Onde começa o amor e termina o abuso? Quem define o que é o amor e o abuso? Estas perguntas ocorreram-me por causa de "Blackbird", acutilante peça de teatro de David Harrower, agora em cena no Teatro Nacional, com encenação de Tiago Guedes. Miguel Guilherme interpreta - magistralmente, como sempre - Ray, um homem de 55 anos que recebe, no seu local de trabalho, a visita inesperada de Una, uma rapariga com quem vivera uma relação apaixonada 15 anos antes. Una - prodigiosamente interpretada por Isabel Abreu - tem agora 27 anos, o que significa que tinha apenas 12 quando se envolveu com Ray, que na época se chamava Peter. Percebemos rapidamente que Peter foi preso e depois foi obrigado de mudar de cidade, de vida e de identidade. Este reencontro provocado pela rapariga é um duelo de acusações e mágoas - mas no choque das raivas cruzadas começa a brilhar a antiga chama. Ela acusa-o de a ter transformado num "fantasma" ("as pessoas falavam de mim como se eu não estivesse presente. Não me deixavam falar".). Ela diz: "Eu não sei nada de ti a não ser que tu abusaste de mim". Mas também diz "Tu deixaste-me apaixonada". Ele acusa-a de o ter seduzido, e até de ser mais "forte" do que ele. Mas também diz que ela era uma menina quase "abandonada" pela família e que nunca devia ter feito o que fez - embora o fizesse por se ter apaixonado, de facto, por ela. Repete que nunca tinha tido nem voltou a ter relações com menores, que nunca olhou para ela como uma menor. Quase no final da peça, entra em cena, por breves minutos, uma menina de 12 anos. A aparição da menina serve para nos recordar que era isso que Una era quando Peter a seduziu - e que, por conseguinte, esta não é uma história de amor, mas um crime de abuso. A realidade nunca é a preto e branco: abusada ou não, esta Una adulta quer reconquistar Peter. Porque o abuso marca? Certamente. Mas uma menina de 12 anos que se tivesse apaixonado violentamente por um rapaz de 15 não poderia ficar refém daquele amor - traumatizada ou abusada por ele - para o resto da vida? Foi abusado, aquele rapaz de 14 anos que se envolveu com a professora de 35 anos, nos Estados Unidos? A professora teve um filho dele, foi presa, depois voltou a ser presa outra vez porque se encontrou com ele apesar da proibição, e acabaram por ir viver juntos, quando o rapaz atingiu a maioridade.

É evidente que os menores têm que ser protegidos. Mas onde acaba a protecção e começa o desrespeito pela sua personalidade e sentimentos? Quando se afastam as crianças das pessoas que elas amam sem lhes perguntar o que querem, está-se a proteger ou a abusar dessas crianças? Mesmo aos 4 ou 5 anos, o respeito pela opinião da criança - ou seja, pelo seu bem-estar imediato - deve prevalecer. Aos 12 anos, as pessoas não são já exactamente crianças - e nenhum ser humano é, aos 12 anos, igual a outro. Há pessoas que começaram a namorar nessa idade aquele ou aquela com que vieram a casar-se, e outras que não pensam ainda em namoros. Há pessoas que mantêm aos 50 anos uma maturidade emocional de 15, e outras que aos 60 largam tudo e enlouquecem por corpos de 20 anos. Respeitamos as diferenças nos adultos, mas tratamos as crianças e os adolescentes como objectos - os nossos brinquedos de estimação, na melhor das hipóteses. Claro que um adolescente não tem capacidade para tomar decisões para a vida inteira. Mas será que todos nós, só por sermos adultos, temos essa capacidade? Conseguimos escolher por quem nos apaixonamos? Conseguimos manter as nossas escolhas? Consentimos conscientemente tudo quanto nos acontece? Um dia acordamos com a idade do consentimento e ficamos automaticamente maduros? Una diz que ninguém a deixava falar. Ninguém deixa falar as crianças: os adultos decidem por elas. O seu destino foi decidido por outros: arrancaram-lhe dos braços o homem por quem estava apaixonada e meteram-no numa prisão sem sequer a ouvirem. Quinze anos mais tarde, ela pega no carro e vai à procura dele. São agora, para todos os efeitos, um homem e uma mulher. Pela primeira vez livres do poder dos outros. Mas não livres do que esse poder fez deles.

Texto publicado na edição da Única de 30 de Janeiro de 2010

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Amor ou abuso?
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:01 | Domingo, 7 de fevereiro de 2010
Como diria um amigo meu. O que há para dizer? rien.
Sendo o texto nos dias que correm um pouco extenso, consegui lê-lo com agrado sem ser linha sim linha não.
 
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Questão de Inteligência
Jonatas (seguir utilizador), 1 ponto , 11:51 | Sábado, 6 de fevereiro de 2010
As coisas nunca são a preto e branco. Devia haver alguma sensatez nos julgamentos que se fazem o que parece não ter acontecido no caso da professoara e do aluno que é um escândalo de falta de inteligência. Bela crónica.
 
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    Re: Questão de Inteligência    Ver comentário
clareza (seguir utilizador), 1 ponto , 18:51 | Sábado, 6 de fevereiro de 2010
Inteligência emocional
AvôMetralha (seguir utilizador), 1 ponto , 9:19 | Domingo, 7 de fevereiro de 2010
De vez em quando a Inês deixa a sua inteligência emocional prevalecer sobre o seu "alter ego" feminista, acérrima (e burocrata) defensora da cultura e de contra-(alguns) poderes. Nessa altura produz textos francamente bons, como este. Dos que conheço, apenas Nabukov escreveria melhor sobre o tema. Parabéns.
 
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Estupidez natural
Arrebenta (seguir utilizador), 1 ponto , 13:21 | Domingo, 7 de fevereiro de 2010
Aprende a escrever...
 
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Questões incómodas
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 13:02 | Quinta feira, 18 de fevereiro de 2010
Inês Pedrosa debruça-se aqui sobre questões incómodas, difíceis e complexas. Marguerite Yourcenar tem um trecho belíssimo nas suas memórias, onde recorda com ternura uma leve carícia erótica de um tio quando tinha doze anos.
A questão que levanta sobre a relação entre a maturidade e a idade é das mais pertinentes. Perguntas sem resposta, mas onde uma coisa é certa, as crianças devem ser ouvidas e ter o direito de se exprimir. As crianças não são coisas. São pessoas. Pessoas que devem ser amadas e respeitadas. E que devem poder amar. Duvido que a questão do abuso se coloque em crianças emocionalmente equilibradas no respeito pela sua individualidade. Se calhar o problema é mesmo outro. É a menorização e infantilização das crianças e adolescentes e o desrespeito pela sua individualidade. Educar não é fácil e a tentação do excesso de protecção e controle e da desresponsabilização é comum aos pais. Digo eu que sou mãe, e que sempre me obriguei a reflectir sobre as minhas decisões enquanto mãe. Não é fácil.
 
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