Meu caro Duque.
Recomposto, o plebeu agradece os seus cuidados e, cheio de energia, retoma o hobby de croniqueiro. Quando o destino nos escolhe para lutas contra doenças graves, aprendemos o verdadeiro significado da vida. Por razões que não descortinamos, as transfiguradas células do nosso corpo, causadoras dessa doença, tentam, a princípio pacientemente, mas depois agressivamente, apressar o nosso fim. A luta que lhe é movida necessita de associar à dor física e psicológica dos exames, tratamentos, operações, pós-operatório e sequelas que ficam para sempre, a força da resistência da mente. É durante a noite, na inspiração do silêncio e no medo da escuridão, que fazemos as grandes reflexões sobre o nada que somos, as nossas ridículas vaidades, a convivência com o sofrimento e o valor do amparo dos familiares, amigos e profissionais da medicina a quem, com a maior humildade e confiança, entregamos o corpo doente. E como a mente ajuda a resistir e a vencer!
No final de Janeiro, na quente cama da clínica, que contrastava com o frio do exterior, pela televisão, fui acompanhando o que se passava em Portugal. Não fiquei tranquilo. De regresso, folheei os jornais publicados durante a minha ausência. Fiquei mais preocupado. Tentei escolher um tema para esta crónica que tenha sido tratado com objectividade, sem 'sacanices' e ódios pessoais e que contribua para a criação de condições de serenidade que permitam ao país ser governado com os sucessos e insucessos próprios de qualquer actividade. Cheguei à conclusão que a prioridade, direi mesmo obsessão, é arrastar temas que mantenham uma constante perturbação no país, releguem para segundo plano os verdadeiros assuntos cuja resolução possa ajudar a encontrar um rumo sustentado para Portugal e desviem as atenções de quem foi democraticamente escolhido para governar. Tal como sucede com doenças graves, quando se enfraquece a capacidade de resistência da mente, as outras forças cedem com facilidade e a probabilidade de derrota aumenta. Os médicos sabem isto e têm a preocupação de manter o moral do doente em alta.
Desisti e fixei-me em duas notícias. A primeira relativa à descoberta por neurologistas do California Institute of Tecnology de que o medo de perder dinheiro está na amígdala. A recente votação da lei das finanças regionais, que demonstrou como os partidos cedem tão despudoradamente à demagogia de conquista de votos, devia ser acompanhada por uma verba (afinal, mais um ou dois milhões de euros não fazem diferença) para se estudar o estado das amígdalas na RAM. É de admitir que o medo de perder dinheiro encontre explicação nesse trabalho de investigação. Já agora, podia avançar-se com uma vacina contra a amigdalite aguda daquela região.
O segundo é que os fuzileiros americanos têm de comer escorpiões para aprender a salvar a vida. Como é sabido, por mais combate que se lhes dê, os escorpiões fazem parte daquelas espécies que não correm o risco de extinção. E quanto mais venenosos mais engordam, com a agravante de se encontrarem por todo o lado. Não seria descabido pedir ao Presidente Obama que nos ceda um pelotão de fuzileiros esfomeados para comerem alguns escorpiões muito venenosos que, sem disfarce, abundam na nossa sociedade.
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010