Não fosse o pedido da mulher de José Luís para ir comprar pão e a história podia ser diferente. "Ontem à noite estava a passar por aqui e a minha senhora ligou-me para ir a Padronelo, ao pão. Dei meia volta e fui. Passados uns dez minutos o viaduto ruiu".
José Luís tem os olhos nos escombros e a memória no saco do pão. A metros de distância, cinco máquinas giratórias tentam remover a enorme malha de ferro e betão que ainda ontem dava corpo ao viaduto que faz parte da duplicação do IP4 entre Amarante e Vila Real.
Do desabamento ocorrido por volta das 20h resultaram oito feridos ligeiros - todos trabalhadores da obra - e um morto. Um automobilista de 43 anos, de Matosinhos, que passava no local, rumo ao Porto, no exacto momento em que o viaduto ruiu.
Nuno Alves, tenente do Destacamento de Trânsito de Penafiel, desdobra-se em entrevistas. Às sete da manhã, já as máquinas de remoção dos escombros abriam caminho pelos ferros, cortavam pedaços, limpavam o possível.
"Ainda não é possível adiantar quando vamos reabrir o trânsito aos condutores", adverte Nuno Alves. Uma situação que se mantém até ao momento. O IP4 encontra-se cortado nos dois sentidos, estando o trânsito a ser desviado pela estrada nacional 210. Antes do final do dia a circulação não será reposta, isso é certo.
Segurança questionada
Alguns curiosos espreitam o trabalho de limpeza da via. Lutam contra o frio que se apodera das mãos. Questionam a segurança da obra. A empresa responsável pela construção do viaduto, Infratunel, promete para o dia de hoje um comunicado sobre o acidente. E nada mais adianta.
Da parte de cima do viaduto, com cerca de 10 metros de altura, junto ao que viria a ser o tabuleiro, dezenas de taipais são desmontados. Homens com coletes verdes florescentes removem o que há para remover, enquanto vão falando da sorte de não terem estado ali no dia de ontem.
A derrocada aconteceu durante o enchimento com betão da infra-estrutura. Gonçalo Monteiro, 2.º comandante dos Bombeiros Voluntários de Amarante, conta que ainda ontem à tarde se falava sobre a possibilidade de se fazer um simulacro de acidente junto às obras de ampliação do IP4.
Horas depois, o viaduto ruía mesmo. José Luís tem os olhos vermelhos. Garante que dormiu pouco. Passou a noite a fazer contas ao destino. "Se não tivesse ido comprar pão...". Mas foi. Um saco de pão. "A minha mulher salvou-me a vida". E continua a olhar para o viaduto transformado num monte de ferro.