Na segunda fui à SIC-Notícias comentar, juntamente com Eduardo Dâmaso, Luís Delgado, Ricardo Costa e Mário Crespo (a moderar) a entrevista de Sócrates a Miguel Sousa Tavares. Foi uma entrevista longa. Além dos casos da PT/TVI e do TagusPark/Figo, falou-se da situação económica nacional e internacional e das opções do Estado ou das decisões mal tomadas.
Quando olhei para o telemóvel tinha dezenas de mensagens e chamadas não atendidas. Um número raro. Conversei com uns, li os sms de outros. Havia de tudo: gente ligada a partidos, gente independente de centro, de direita e de esquerda. Uma pequena amostra sociológica da audiência e do eleitorado português numa classe média que consome informação qualificada. Profissionais, homens e mulheres. Nenhum jornalista. Tema único? As escutas.
Reparei que o tom era exaltado. Havia os que defendiam Sócrates e me atacavam dizendo que não se esperava que eu cometesse o erro de pensar que ele era aquilo que eu parecia implicar que ele era, baseada em escutas criminosas e que visavam a destruição do PS. Havia os que acusavam Sócrates de ser um aldrabão. Havia os que acusavam Miguel Sousa Tavares de ter facilitado a vida a Sócrates e de eu ter sido, com ele, uma das que mais contribuíram para a absolvição de Sócrates do caso Freeport. Havia os que, num encolher de ombros, profetizavam que ele ia ganhar e nada havia a fazer. Havia os que diziam que ele era indestrutível e que nós jornalistas não passávamos de imbecis que quanto mais o atacavam mais ajudavam. Havia psd's que diziam que o PSD não tem combatentes à altura. Havia ps's que diziam que não voltariam a votar no PS. E gente de direita que dizia que a direita era a responsável pela ascensão de Sócrates. Havia os que gritavam "Sócrates tem de cair" e os que gritavam "Sócrates vive". Um velho amigo acusou-me de ter sido injusta ao interpretar a frase de Marcos Perestrello como uma piada quando era um repúdio da negociata com Figo, dizendo o contrário: gastem o dinheiro em subsídios de desemprego.
O que é que o Sócrates tem? Provoca paixões exacerbadas que fazem perder a perspectiva e clareza que permitiriam destrinçar o que é, nas palavras do primeiro-ministro, a demonstração de uma realidade verdadeira ou uma falsidade. Estão criadas as condições, como estariam num tribunal, para um mau veredicto do júri.
A verdade é que Sócrates, com os seus spinners e conselheiros (e o talento político) é o produto do país que somos e da informação que produzimos e do modo como a produzimos. Ao substituir o jornalismo sério e de investigação, longo no tempo e minucioso nos pormenores, caro de manter e sujeito a uma edição sistemática das falácias, pelo imediatismo da denúncia e da reprodução de conversas de telemóvel, ao substituirmos a notícia seca pelo comentário da notícia, ao fazermos o nosso próprio spinning e montarmos o nosso próprio espectáculo, estamos a colaborar numa indústria de entretenimento que pouco tem a ver com o jornalismo como primeiro esboço da História de que falava Philip Graham, o fundador do "Washington Post". E isto não é culpa dos jornalistas, que perseguem o que podem com os fracos meios que têm, com as pressões que sofrem, mas da estratégia lucrativa dos grupos de media.
O que sobra é esta gritaria onde a verdade se afunda. O que sobra é a guerra entre uma corporação política, os socialistas, e uma profissional, os jornalistas. Com a guerra entre as corporações da justiça ao fundo. Guerra em que os dois lados se acusam e se acusam entre eles de corrupção e mentiras, de crimes e conluios, com o elenco de ressentimentos. É: ou estás connosco ou estás contra nós. Sócrates estabeleceu a zaragata. Fê-lo porque está convencido, como antes dele Tony Blair e agora Gordon Brown (que passou a semana a explicar-se das acusações de ser um bully), que não se ganham eleições sem controlar os media. Uma coisa é controlar os media por meios legítimos, utilizando o assessor, o blogue, a agência, o telefonema, o almoço, o convencimento, a informação privilegiada, o processo, a intimidação verbal, outra coisa é controlar os media utilizando homens e meios de empresas ou bancos onde o Estado ou os partidos têm homens de mão, uma participação e um poder. Ou utilizando dinheiros públicos. Uma coisa é defender a justa redistribuição de riqueza pelo Estado, outra é absolver e usar pessoas em instituições onde o dinheiro corre em enxurradas quando há seca no resto do país. Isto, Sócrates não explicou. E não é culpa dos jornalistas.
Texto publicado na edição da Única de 27 de Fevereiro de 2010