"Penso que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) estará a tentar ganhar tempo no sentido de se encontrar uma solução para o caso", afirma ao Expresso José Parreiro, porta-voz dos trabalhadores, no regresso ao Algarve após ter sabido do adiamento da reunião final de credores, que estava prevista para terça-feira à tarde.
Parreiro respirava de alívio, no regresso da manifestação que levou 350 trabalhadores das lojas Alisuper à porta da CGD, em Lisboa.
Na bagagem, levavam muita ansiedade, mas apenas um apelo: "Fomos recebidos pelo Secretário-Geral da CGD, uma vez que nos foi dito que tanto o presidente como o vice-presidente estavam fora, no estrangeiro. Correu bem, fomos bem recebidos e penso que a Caixa estará receptiva a tentar encontrar uma solução", adiantou a mesma fonte, ainda que o banco não tenha para alterado a sua posição, pelo menos publicamente.
A mesma interpretação tem o até aqui administrador do grupo Alicoop, José António Silva, que os credores decidiram manter na gestão do processo de insolvência.
"A minha opinião é de que a Caixa está à procura de uma solução, com o próprio Governo e neste momento tudo leva a crer que precisa de tempo para ter uma posição definida e não se quer comprometer sem ter uma decisão definida e daí adiar. Essa é a minha leitura, que é optimista sobre esta questão", afirma.
Grupo pode fechar algumas lojas já este mês
José António Silva admite, no entanto, que esta indefinição tem consequências: "A partir de agora compete-me, sem ter um apoio formal ao plano por parte da comissão de Credores, gerir com a máxima parcimónia os activos da empresa e chegar até à Assembleia de Credores sem defraudar o património. Numa actividade que é extraordinariamente deficitária no Algarve no Inverno acrescida das dificuldades que nós temos, a única alternativa que eu tenho é reduzir a actividade, senão a 100 por cento a 80 ou 90 por cento, e isso significará reduzir pessoal", salienta.
Após a declaração de insolvência, em Novembro passado, o caso tem motivado o interesse por parte de alguns sectores políticos, na tentativa de obter uma solução que minimize o impacto nas mais de 1200 pessoas que dependem directa ou indirectamente do grupo Alicoop.
Miguel Freitas, deputado socialista eleito pelo Algarve e líder da Federação Regional do partido, conseguiu na altura após conversações com os trabalhadores, administração e Segurança Social desbloquear o Fundo de Garantia Salarial que permitisse por em dia os salários dos 500 trabalhadores directos, que já não auferiam vencimentos havia dois meses. Mas em Janeiro, o Fundo 'secou', sem que os credores - em especial a CGD, diz a administração do grupo - tivessem chegado a acordo sobre um plano de recuperação da empresa apresentado pela consultora Deloitte.
O plano, que conclui pela viabilidade da empresa, prevê a injecção imediata de 5,5 milhões de euros por parte dos principais credores - millenium BCP, BPI, CGD e BPN - mas a Caixa Geral de Depósitos admitiu na semana passada publicamente "não estar interessada em aumentar o seu envolvimento financeiro no processo", uma forma de dizer não a uma injecção de capital que rondaria agora os 1,2 milhões de euros por parte do banco de capitais públicos.
Mendes Bota: "CGD deve ser o braço armado" do Governo
Hoje, em comunicado, o deputado socialista, que é também coordenador da Comissão de Agricultura e Pescas na Assembleia da República, adiantou que "não estão esgotadas todas as possibilidades de trabalho" entre os credores envolvidos no processo.
"É preciso encontrar uma solução sólida e com sustentabilidade futura da actividade da empresa", refere Miguel Freitas, sublinhando que até à data ninguém manifestou interesse no encerramento da empresa, nem questionou o estudo de viabilização do grupo, sendo por isso "necessário manter em aberto a linha negocial, para se aprofundarem soluções e serem discutidos o modelo económico e de gestão, com vista à viabilização da empresa e salvaguarda dos postos de trabalho".
Já o líder regional dos sociais-democratas, o deputado Mendes Bota, que fez questão de participar na manifestação frente ao Banco, considerou em comunicado ser "de difícil compreensão a posição da CGD, a maior instituição financeira de Portugal", que, "pelo seu carácter público, deveria ser o braço armado do Governo para intervir em apoio das pequenas e médias empresas, ou de outras empresas em dificuldades, mas com possibilidades de recuperação, como é o caso da Alicoop".
Mendes Bota interroga-se por que razão, para viabilizar a Alicoop, a CGD pediu um estudo de viabilidade, entregou a sua elaboração a uma empresa de consultadoria que concluiu que a empresa era viável "e a CGD transforma-se agora no principal obstáculo a essa viabilização?".
O líder distrital algarvio do PSD considerou que essa posição é "estranha" e que o Governo devia "ponderar" sobre o facto de "enviar para o desemprego de 700 pessoas representar um encargo para o Estado não recuperável em subsídios de desemprego" e que seria, só num ano, "superior ao dobro do montante que a CGD se recusa a colocar numa empresa que é recuperável".
Mário Lino, correspondente no Algarve (www.expresso.pt)
José António Silva (administrador do grupo Alicoop)
Oiça as declarações de José António Silva, administrador do grupo Alicoop, sobre o futuro próximo da empresa, que emprega perto de 500 pessoas.