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Alexander McQueen (1969-2010)

O estilista britânico com uma carreira fulgurante no mundo da moda era chamado pelos críticos de romântico do século XXI, com imaginação prodigiosa e visão negra do mundo.

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 27 de fevereiro de 2010

Lee Alexander McQueen, encontrado enforcado na sua casa em Londres no passado dia 11, véspera do enterro da mãe que morrera uma semana antes depois de longa doença e cuja desaparição cavara vazio sem fundo no coração do filho, fizera carreira fulgurante no mundo da moda, primeiro em Londres, depois em Paris, novamente em Londres e também em Nova Iorque, pólos principais desse mundo, subindo a altíssimo lugar e deixando rasto meteórico até de repente parar, havia nascido num dos bairros mais pobres de Londres, quinta criança de um motorista de táxi e de uma professora de liceu, genealogista amadora que estabelecera a sua ascendência huguenote (isto é, de protestantes franceses que a revogação do édito de Nantes por Luís XIV em 1685 levara a procurar refúgio em Inglaterra) e investigara depois as origens escocesas do marido, percebera desde a infância de Lee que esse seu último filho, misterioso, frágil e rebelde, era muito diferente e mais querido dela do que os outros, enquanto o pai cedo lamentou lhe ter saído na rifa descendência assim.

Lee dizia ter descoberto que era homossexual aos oito anos durante estada com a família numa estância da companhia Pontin's - que durante décadas forneceu férias baratas à baixa classe média britânica - quando lá fora eleito Príncipe de Pontin's. Depois, na escola secundária que frequentou e onde, desinteressado pelas aulas, foi reprovando em tudo salvo em duas cadeiras, ambas de arte, foi vítima de troça, desprezo e maus-tratos de condiscípulos. Imaginava roupas constantemente - aos três anos desenhara na parede do quarto da irmã uma Gata Borralheira com cintura muito fina e saia de balão - e aos dezasseis anos abandonou os estudos, rumou ao West End de Londres, apresentou-se numa alfaiataria de Saville Row, mostrou o que era capaz de fazer e foi contratado nesse instante.

Começava assim a sua relação, sempre agitada e contraditória, com o mundo de costureiros, modelos, jornalistas de moda, colunáveis, freguesas e fregueses, onde há mais artistas do que obras de arte, uns drogados outros não. O seu protesto podia ser travesso: escreveu a giz graffiti ordinário no forro de um casaco para o príncipe Carlos. Mas era a moda feminina que mais o interessava; depois de trabalho com outros alfaiates e um ou dois costureiros, matriculou-se no curso mais prestigioso que havia em Londres nessa altura, do Central St. Martin's College of Art and Design (pagando as propinas com empréstimo de quatro mil libras de uma tia) e depois estabeleceu-se por conta própria. A originalidade do seu talento era tão singular, a sua personalidade tão inesquecível e a energia que aplicava a tudo quanto fazia tão forte que depressa se teria tornado conhecido mas o caminho da fama foi acelerado quando Isabella Blow, aristocrata excêntrica (os seus proverbiais chapéus, embora fossem sempre esperados, causavam sempre sensação), ex-editora de moda da revista "Vogue", visitou a sua exposição de fim de curso, lhe comprou todas as peças, que foi pagando a cem libras por mês, e o lançou nas alturas mais rarefeitas da alta costura. Ficaram amigos até ao suicídio dela em 2007, bebendo um frasco de herbicida.

McQueen ganhou várias vezes o mais importante prémio de design de moda britânico, foi alguns anos estilista de Givenchy mas os charmes de França não o seduziram, voltou para Londres, associado a Gucci. Desenvolveu então as suas criações mais ousadas em material, traça e ambiente em que as mostrava. Críticos chamaram-lhe um romântico do século XXI, com imaginação prodigiosa e visão negra do mundo. Tinha uma relação de amor-ódio com a beleza e com mulheres. Inspirava-se em Jerónimo Bosch e nos crimes de Jack o Estripador. E, da concepção global ao pormenor mais pequeno, tinha instinto rigoroso em tudo quanto fazia. Na glória das passagens de modelos percebia que a ordem das coisas não era aquela - "São só roupas, está a perceber?" - respondeu um dia a uma admiradora.

Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010

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