Lee Alexander McQueen, encontrado enforcado na sua casa em Londres no passado dia 11, véspera do enterro da mãe que morrera uma semana antes depois de longa doença e cuja desaparição cavara vazio sem fundo no coração do filho, fizera carreira fulgurante no mundo da moda, primeiro em Londres, depois em Paris, novamente em Londres e também em Nova Iorque, pólos principais desse mundo, subindo a altíssimo lugar e deixando rasto meteórico até de repente parar, havia nascido num dos bairros mais pobres de Londres, quinta criança de um motorista de táxi e de uma professora de liceu, genealogista amadora que estabelecera a sua ascendência huguenote (isto é, de protestantes franceses que a revogação do édito de Nantes por Luís XIV em 1685 levara a procurar refúgio em Inglaterra) e investigara depois as origens escocesas do marido, percebera desde a infância de Lee que esse seu último filho, misterioso, frágil e rebelde, era muito diferente e mais querido dela do que os outros, enquanto o pai cedo lamentou lhe ter saído na rifa descendência assim.
Lee dizia ter descoberto que era homossexual aos oito anos durante estada com a família numa estância da companhia Pontin's - que durante décadas forneceu férias baratas à baixa classe média britânica - quando lá fora eleito Príncipe de Pontin's. Depois, na escola secundária que frequentou e onde, desinteressado pelas aulas, foi reprovando em tudo salvo em duas cadeiras, ambas de arte, foi vítima de troça, desprezo e maus-tratos de condiscípulos. Imaginava roupas constantemente - aos três anos desenhara na parede do quarto da irmã uma Gata Borralheira com cintura muito fina e saia de balão - e aos dezasseis anos abandonou os estudos, rumou ao West End de Londres, apresentou-se numa alfaiataria de Saville Row, mostrou o que era capaz de fazer e foi contratado nesse instante.
Começava assim a sua relação, sempre agitada e contraditória, com o mundo de costureiros, modelos, jornalistas de moda, colunáveis, freguesas e fregueses, onde há mais artistas do que obras de arte, uns drogados outros não. O seu protesto podia ser travesso: escreveu a giz graffiti ordinário no forro de um casaco para o príncipe Carlos. Mas era a moda feminina que mais o interessava; depois de trabalho com outros alfaiates e um ou dois costureiros, matriculou-se no curso mais prestigioso que havia em Londres nessa altura, do Central St. Martin's College of Art and Design (pagando as propinas com empréstimo de quatro mil libras de uma tia) e depois estabeleceu-se por conta própria. A originalidade do seu talento era tão singular, a sua personalidade tão inesquecível e a energia que aplicava a tudo quanto fazia tão forte que depressa se teria tornado conhecido mas o caminho da fama foi acelerado quando Isabella Blow, aristocrata excêntrica (os seus proverbiais chapéus, embora fossem sempre esperados, causavam sempre sensação), ex-editora de moda da revista "Vogue", visitou a sua exposição de fim de curso, lhe comprou todas as peças, que foi pagando a cem libras por mês, e o lançou nas alturas mais rarefeitas da alta costura. Ficaram amigos até ao suicídio dela em 2007, bebendo um frasco de herbicida.
McQueen ganhou várias vezes o mais importante prémio de design de moda britânico, foi alguns anos estilista de Givenchy mas os charmes de França não o seduziram, voltou para Londres, associado a Gucci. Desenvolveu então as suas criações mais ousadas em material, traça e ambiente em que as mostrava. Críticos chamaram-lhe um romântico do século XXI, com imaginação prodigiosa e visão negra do mundo. Tinha uma relação de amor-ódio com a beleza e com mulheres. Inspirava-se em Jerónimo Bosch e nos crimes de Jack o Estripador. E, da concepção global ao pormenor mais pequeno, tinha instinto rigoroso em tudo quanto fazia. Na glória das passagens de modelos percebia que a ordem das coisas não era aquela - "São só roupas, está a perceber?" - respondeu um dia a uma admiradora.
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010