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Alexander Haig (1924-2010)

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 6 de março de 2010

O general e político, durante a crise do Watergate, manteve o Governo dos EUA unido e a funcionar, levando Kissinger a dizer: "Al Haig aguenta o país e eu aguento o mundo".

Alexander Meigs Haig, que morreu no sábado passado de uma infecção no hospital de Johns Hopkins em Baltimore, nascera na Pensilvânia, ficara órfão de pai aos dez anos, sentira a vocação das armas mas, estudante medíocre no liceu, chumbara na sua primeira tentativa de admissão à Academia de West Point, só com cunha muito forte entraria à segunda, sairia número 274 (de 310) no fim de curso (que a guerra encurtara de quatro para três anos, com menos ensino de inglês, ciências sociais e história - lacunas que se viriam a sentir na sua fala e na sua escrita), seguira carreira militar, com passagem pelas guerras da Coreia e do Vietname, ferimentos em combate, muitas condecorações - até nomeação no gabinete do secretário da Defesa Robert MacNamara o meter em política que passaria a ser uma paixão e a quem ficaria a dever não só notoriedade internacional mas também promoção militar meteórica pois ao deixar o lugar de adjunto de Henry Kissinger na Casa Branca Nixon nomeá-lo-ia vice-chefe do Estado-Maior do Exército, passando à frente de 240 generais mais antigos.

Tomou posse em Janeiro de 1973 mas não aqueceu o lugar. O escândalo de Watergate (assalto nocturno a um escritório do Partido Democrata em Washington que se veio a descobrir ter sido planeado na Casa Branca) minava a presidência, daí a meses o chefe de gabinete de Nixon foi forçado a demitir-se e o Presidente pediu a Haig que o substituísse.

A fama tem caprichos cruéis. Nos muitos cargos militares, políticos e político-militares (como o de Supremo Comandante Aliado da NATO na Europa entre 1974 e 1979) que Haig desempenhou, dois sobressaem claramente pela importância: Primeiro, o de chefe de Gabinete na Casa Branca no fim do tempo de Nixon (que aconselhou a demissão para não ser impugnado) e no começo do tempo de Ford (que Haig aconselhou a perdoar Nixon). Segundo, o de secretário de Estado no começo do primeiro mandato de Ronald Reagan (até ao dia em que o Presidente lhe entregou uma carta a aceitar pedido de demissão que Haig não lhe fizera). Dos erros cometidos no segundo e do ridículo de que se cobriu, muita gente se recorda. Ao desempenho do primeiro, que poupou os Estados Unidos a vergonhas além daquelas por que Nixon já os fizera passar, só às vezes se referem contemporâneos ou especialistas. E, todavia, Haig foi exemplar. Apesar de admirar a sua firmeza em crises e habilidade em guerras burocráticas, Kissinger achava-o demasiado egocêntrico e tinha-se oposto à nomeação. Mas dera depois a mão à palmatória: com Nixon quase sempre bêbado, outros movidos por desnorte ou calculismo, Haig "por pura força de vontade, dedicação e autodisciplina, manteve o Governo unido e a funcionar". Juntos conseguiram chamar à pedra Brejnev que queria aproveitar a crise em Washington para marcar pontos no Médio Oriente. (Com modéstia característica, Kissinger disse também: "Al Haig aguenta o país e eu aguento o mundo".)

A passagem por Foggy Bottom foi outra história. Haig vinha recomendado por Nixon a Reagan, que mal o conhecia. Quando tomara posse dissera que se considerava "o vigário da política externa" (Haig era católico) mas outros, na Casa Branca, consideravam-se vigários também e a luta era homérica. Anticomunista visceral, acções que iniciou na América Central complicaram muitos anos a acção dos Estados Unidos na região. Na guerra das Falklands tentou mediar mas perdeu a confiança quer dos argentinos quer dos britânicos. O pior veio com Reagan ferido a tiro por um maluco que o quis matar, quando Haig anunciou a colegas e televisões na Casa Branca que quem mandava agora ali era ele. A mistura de nervosismo, ambição e confusão constitucional mostrada urbi et orbi nesse momento foi-lhe fatal - também quanto a qualquer tentativa futura de alcançar a Presidência.

Haig dizia que esse episódio viria no terceiro parágrafo dos seus obituários. Neste vai no quinto, com precedência dada aos meses cruciais na Casa Branca em 1973 e 1974.

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010

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