A Alemanha está hoje em estado de choque com a notícia do suicídio do ex-guarda-redes do Benfica Robert Enke, sucedendo-se as reacções de consternação de altos responsáveis do futebol, adeptos e companheiros de equipa.
Centenas de adeptos e alguns jogadores do Hannover 96, cuja camisola Enke ainda tinha envergado no sábado, num jogo em casa da Bundesliga contra o Hamburgo, reuniram-se até de madrugada junto ao estádio para uma cerimónia fúnebre, colocando velas e flores no chão em memória do seu ídolo.
"Estamos muitos tristes e as nossas condolências vão para a mulher e para a família de Robert Enke", disse o presidente da Federação Alemã de Futebol, Theo Zwanziger, em comunicado de imprensa.
Carta de despedida
Já esta manhã, a polícia alemã confirma ter sido encontrada uma note escrita que o jogador terá produzido antes de se suicidar. A polícia não revela o conteúdo da mesma e apenas reforça que os indícios da investigação que decorre apontam para suicídio.
"Confirmo a existência de uma carta de despedida, mas não posso revelar o seu conteúdo, em atenção à família e à memória de Robert Enke", disse Stefan Wittke, em declarações ao canal alemão de notícias N-TV.
Wittke recusou-se também a dizer o local onde a carta foi encontrada, mas sublinhou que a polícia "tem muito boas razões para crer que se tratou de um suicídio".
Alemanha-Chile em dúvida
O director desportivo da selecção nacional, Oliver Bierhoff, afirmou também que os jogadores, toda equipa técnica e restantes funcionários "estão chocados, sem palavras", e anunciou o cancelamento do treino de hoje, em Bona, admitindo ainda que o jogo particular contra o Chile, no sábado, em Colónia, está em dúvida.
Frank Beckenbauer, destacada figura do futebol germânico, afirma sentir-se "imensamente triste" e diz que "quando se recebe uma notícia destas, todos os outros problemas parecem muito pequeninos".
Enke, 32 anos, suicidou-se na segunda-feira à noite, perto da sua casa em Hannover, lançando-se contra um comboio, confirmou entretanto o seu amigo e empresário Joerg Neblung. "Posso confirmar que se tratou de suicídio, Robert matou-se pouco antes das seis horas da tarde", disse Neblung à imprensa alemã. Os pormenores da tragédia serão divulgados hoje em conferência de imprensa, acrescentou Neblung.
Ao fim da tarde de hoje haverá ainda um cortejo fúnebre pelas ruas do centro de Hannover para homenagear Enke. Também a chanceler alemã Angela Merkel enviou uma carta de pesâmes à viúva do antigo jogador do Benfica. A informação foi dada por um dos porta-voz do Governo germânico, Christoph Steegmanns, que não quis dar detalhes sobre o conteúdo da missiva. "Trata-se de uma carta muito pessoal, que se deve manter no âmbito privado", afirmou.
Morte imediata
Um porta-voz da polícia de Hannover confirma que Enke estacionou o seu carro a alguns metros da via-férrea e caminhou depois centenas de metros ao longo dos trilhos, até ser colhido por um comboio regional, tendo tido morte imediata.
O guarda-redes da selecção alemã deixa mulher e uma filha de oito meses, que o casal tinha adoptado em Maio. Em 2006, a família Enke sofreu um rude golpe com a morte da filha Lara, de 2 anos, que tinha nascido com uma malformação cardíaca e foi submetida sem êxito a várias operações.
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| Uma luva de guarda-redes e diversas velas foram colocadas ontem junto do estádio do Hannover 96 por adeptos inconsoláveis com a morte de Robert Enke |
| Joerg Sarbach/AP |
Enke tinha contraído um vírus que nos últimos meses o afastou dos relvados e não disputou os últimos quatro jogos pela selecção, depois de somar oito internacionalizações.
Regressou recentemente e parecia recuperado, mas não tinha sido convocado para os jogos particulares da equipa nacional contra o Chile e a Costa do Marfim, agendados para sábado e na quarta-feira. O seleccionador nacional, Joachim Low, deixou claro, porém, que contava com ele para o Mundial-2010 na África do Sul.
O presidente do Hannover 96, Martin Kind, garantiu entretanto que o suicídio do guarda-redes "não teve nada a ver com o futebol" e a televisão pública ARD disse que Enke tinha problemas privados, sem adiantar mais pormenores.
Diversos falhanços depois do Benfica
Enke nasceu em Jena, na ex-RDA, estreou-se na Bundesliga com 18 anos, com a camisola do Moenchengladbach, ganhou os seus galardões no Benfica, mais tarde, sob o comando do alemão Jupp Heynkes, e foi convocado pela primeira vez em 1999 para a selecção principal da Alemanha.
Transferiu-se depois para o Barcelona, em 2002, mas não conseguiu impor-se, saindo para o Fenerbace de Istambul, onde teve ainda pior sorte. Ofendido pelos adeptos, renunciou ao dinheiro a que tinha direito e terminou o contrato com o clube turco.
Depois de uma breve passagem pelos espanhóis do Tenerife, regressou à Alemanha, ao serviço do Hannover 96, onde todos o admiravam e se tornou titular da selecção nacional.
"Estou muito abalado, vamos tentar apoiar a mulher e a filha neste momento difícil", disse o director desportivo do seu último clube, Joerg Schmmadke.