13/02/2012 atualizado às 1:11
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Aldeias sem remédio

São cada vez mais as farmácias a fechar a porta nos pequenos povoados. Idosos ficam à mercê da boa vontade dos vizinhos mais novos.

Vera Lúcia Arreigoso (www.expresso.pt)
21:42 Quinta feira, 2 de setembro de 2010
A extinta Farmácia Central de Torroselo funcionava na porta ao lado da mercearia Nova Vida. O autarca diz que a perda “foi para toda a vida”
A extinta Farmácia Central de Torroselo funcionava na porta ao lado da mercearia Nova Vida. O autarca diz que a perda “foi para toda a vida”
José Ventura

Torroselo não está no mapa. A freguesia do concelho de Seia é feita de casas com portas e janelas quase sempre fechadas. Não escondem sonhos, foram levados por quem partiu para a cidade e para o estrangeiro à procura da vida que ali morreu. Quem ficou sobrevive com o que resta: a junta de freguesia, a escola primária, um lar e centro de dia, um posto médico, dois cafés e duas mercearias, "mas uma fecha quando vem a ASAE", ironiza o ex-presidente da junta Joaquim Pimentel.

Os 484 habitantes - a maioria ausente e idosa - perderam a Casa do Povo, o clube de futebol, a biblioteca, o restaurante e até o padre residente, mas foi a farmácia que lhes levou a esperança que ainda tinham no futuro da aldeia. "As pessoas de outras localidades vinham aqui à farmácia. Agora perdemos freguesia", lamenta Mário Mendes, dono do minimercado Nova Vida, que até outubro de 2008 era paredes meias com a Farmácia Central.

"A farmácia era centenária. Foi fundada por um tenente da Armada, junto à igreja. Era toda em madeira e os medicamentos estavam guardados em frascos de vidro castanho", conta o atual presidente da junta, António Sousa. Há vários anos foi transferida para o rés do chão da casa de um casal imigrado no Canadá, Beatriz Batista e António Correia, e ali esteve, por ¤300/mês, até mudar para Seia, a 10 km.

"Fiquei chateada porque me causa transtorno. O meu marido teve um AVC, eu ando no psiquiatra e preciso de muitos medicamentos", diz Ana Brás, 63 anos. "Agora", explica, "peço ao meu sobrinho para me trazer os medicamentos da farmácia onde trabalha". E o exemplo é seguido por outros habitantes. "A farmácia faz muita falta. Veja os velhotes... Se não fosse o rapaz que vive aqui e trabalha numa farmácia não sei como ia ser", desabafa Maria Figueiredo, 78 anos.

O proprietário da extinta Farmácia Central (agora com outro nome em Seia), Mário Gandarez, compreende a população. "Torroselo é uma aldeia envelhecida e sem renovação de clientes. A mudança foi inevitável por não poder suportar o aumento dos custos, a que se juntou a redução de lucros nos últimos anos. Mas lá fazia mais falta". Por isso, ofereceu-se para lhes levar os medicamentos a casa ou através do centro de dia. "Às vezes vamos duas vezes por dia e não cobramos nada. Mas, mesmo assim, há muitas pessoas que não querem, porque saímos de lá". Porém, "apesar dos custos inerentes a estas entregas, como tempo e combustível", o farmacêutico mantém a palavra. E as entregas, sobretudo no centro de dia.

"Todos temos de compreender que ninguém investe para perder. As farmácias são um negócio", salienta Joaquim Pimentel, presidente da junta de Torrozelo à data da transferência. "A farmácia foi vendida ao atual proprietário por mais de meio milhão de euros e tinha um custo mensal de ¤5 mil, sem contar com juros. Imagine-se quanto é preciso vender para gerar lucro", exemplifica. E é perentório: "A farmácia faz mais falta na aldeia para as pessoas conversarem e levarem umas injeções".

O sucessor na junta, António Sousa, reconhece que "a população acabará por se conformar, pois se era difícil manter a farmácia, mais difícil será agora trazê-la de volta". Por isso, há já quem opte por se meter ao caminho até Seia quando tem receitas para aviar. "Foi uma mais-valia tirada à terra e muitas pessoas, mesmo de outras freguesias, não ficaram contentes. Mas, olhe, a farmácia em Seia é mais bonita e venho aqui muitas vezes", diz o torroselense José Ribeiro, 74 anos, ao balcão do novo estabelecimento.

A história de Torroselo é uma entre 265, tantas quantas as localidades portuguesas que, desde 2007, perderam a farmácia devido à alteração do regime jurídico que alargou a propriedade a não farmacêuticos e abriu a porta à deslocalização. "Recebemos mais de 200 reclamações. Dentro do mesmo concelho, as farmácias mudam-se para zonas economicamente mais favoráveis, deixando as populações mal servidas. Funciona a lei do mercado", salienta o secretário-geral da Associação Nacional de Municípios, Artur Trindade. O Ministério da Saúde garante que vai emendar o erro (ver texto ao lado), mas para algumas populações será tarde de mais.

Vilgateira, em Santarém, ou Trinta, na Guarda, são dois casos irremediáveis. "A farmácia saiu no ano passado. Nós gostamos de ter as coisas na aldeia, mas não podemos fazer nada. Agora temos um posto farmacêutico onde entregamos as receitas e depois a farmácia vem da Guarda entregar-nos os medicamentos a casa", explica o presidente da Junta de Freguesia de Trinta, António Dionísio. A solução não irá ser muito diferente na aldeia de Vilgateira quando a farmácia cumprir a anunciada transferência.

"Ainda não se sabe qual é a data para a farmácia sair. Não concordamos, mas não é viável do ponto de vista económico e não há nada a fazer", lamenta o presidente da Junta de Freguesia da Várzea, José Coelho. "O espaço, com 100 anos, não tem condições: são duas divisões sem casa de banho. Isto vai desertificando cada vez mais a aldeia, mas as pessoas vão acabar por compreender". Não há remédio que valha às aldeias.


Balanço

265

transferências de farmácias autorizadas desde a entrada em vigor da nova lei, em novembro de 2007. Destas, 56 ainda estão em instalação e há mais 18 novos pedidos em análise

844

farmácias mudaram de proprietário entre o final de 2007 e o primeiro semestre deste ano

29

concursos para a instalação de novas farmácias foram abertos até junho. Do total, 12 processos continuam em avaliação pelo Infarmed

81

postos farmacêuticos foram transformados em farmácias desde que a nova legislação entrou em vigor

1

farmácia foi encerrada entre o final de 2007 e o primeiro semestre deste ano, segundo o Infarmed


Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010

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Aldeias sem remédio
WebLogs (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 22:54 | Quinta feira, 2 de setembro de 2010
Este país, esta democracia, tem cada piada. O povo votou, paga. Foi com as maternidades. Foi com as escolas. Agora é isto. O povo dá o voto, agora paga as facturas. Que repita na proxima votação.
    Não é teoria dos governantes deste precario paisito de utilizador pagador, Né?
 
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Solução final
CãodaRosa (seguir utilizador), 2 pontos , 10:14 | Sexta feira, 3 de setembro de 2010
Fecham-se escolas, mudam-se os alunos e os pais vão atrás, encerram-se urgências e centros de saúde e os idosos vão morrendo devagarinho, acabam as farmácias e restam as mézinhas caseiras, o chá de tília, erva-cidreira ou de flha de laranjeira, não cura os males mas ajuda a alma. Por isso haja coragem e aplicque-se a solução final, feche-se o país, entregue-se a chave de Portugal aos espanhóis, se eles quiserem tomar conta do que resta.
 
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Alvega (Abrantes ) sem Farmácia
Alveguense (seguir utilizador), 1 ponto (Normal), 23:58 | Quinta feira, 2 de setembro de 2010
Nós em Alvega (Abrantes) temos Farmácia desde sempre, durante 50 anos pertenceu a uma Senhora com S grande, a Saudosa Dra Maria da Piedade, ela com esta Farmácia criou 5 filhos e deu para viver em abundância, para além disso nunca falhou a ninguem. A farmácia entretanto foi comprada por uma fulana que agora quer mudar a farmácia para Abrantes, a farmácia abrange uma zona com 4000 utentes, quando ficarmos sem a farmácia o posto médico fecha a seguir, não há ninguem neste País que pare esta pouca vergonha... A fulana diz que a Farmácia fecha mas promete que fica um Posto para entregar as receitas e vai porta a porta entregar os remédios, segundo já me informei isto é ilegal, porque no sitio onde era a Farmácia não pode abrir Posto nenhum de recolha de receitas.
Senhores Jornalistas sois convidados a vir a Alvega.
 
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    Nem a propósito..os pitróilinos..    Ver comentário
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 0:35 | Sexta feira, 3 de setembro de 2010
OK. As farmácias e os recibos verdes
Outubro1560 (seguir utilizador), 1 ponto , 4:58 | Sexta feira, 3 de setembro de 2010
Se calhar é a única ilegalidade capaz de vos fazer receber os remédios, à laia de estrépito. Do not jump into conclusions.

Aproveito, estupidamente, aliás, para sublinar que os camelos precários, descontam 21,5% de IRS, segundo a muy recente portaria do Governo, nada mediática, pelos vistos, ganhem 1.000, 2.000 ou 10.000 euros/mês.

Venham falar com os trabalhadores precários, depois de irem às farmácias da dita aldeia, mediáticamente votada ao furo jornalístico. Há coisas mais mediáticas e outras menos, enfim... Mas mesmo que os sindicatos não nos encarem como uma classe defensável, seria conveniente que se falasse no assunto.

Só hoje soube. Leio vários jornais on-line. Porque motivo isto não foi noticiado??

Como sou essencialmente histriónica propuz-me falar do assunto, sempre que puder nos próximos dias, por muito desontextualizada que pareça.
 
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Farmaceuticos não procuram o lucro.
Samm (seguir utilizador), 1 ponto , 10:22 | Sexta feira, 3 de setembro de 2010
As farmácias são uma actividade privada, exploradas por privados e movem-se por interesses económicos, procuram obter lucro.

Do que estão à espera? Que um privado, se tiver hipótese, não deslocalize a sua farmácia para uma localização mais favorável para si? As condições para que isso possa acontecer foram criadas.

As farmácias não são um serviço público, independentemente dos bens que venderem e da sua importância para a população.

Se o problema é a sobreposição da procura do lucro aos interesses de uma determinada população, a solução parece-me óbvia.
 
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É !!!!
pamaga (seguir utilizador), 1 ponto , 12:43 | Sexta feira, 3 de setembro de 2010
Mudem-se todos para o litoral, para ver se este país inclina definitivamente para o mar e se afunda rapidamente, porque esta morte lenta começa a ser insuportável.
 
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TORROSELO CONSTA NO MAPA HÁ MUITOS ANOS
LRodriguesS (seguir utilizador), 1 ponto , 20:48 | Domingo, 5 de setembro de 2010
Só não compreendo como é que há pessoas que nesta reportagem criticam a deslocalização da farmácia Gandarez de Torroselo para Seia e ao mesmo tempo é lá que vão buscar os medicamentos para os utentes do Lar. Isto ou se dá no cravo ou na ferradura...nunca nos dois.Não sei porquê mas parece-me uma reportagem encomendada por quem já "passou há história" há muito tempo e ainda não se mentalizou disso. É engraçado a reportagem "encomendada" não referir que a farmácia Gandarez quando estava em Torroselo não servia só aquela população. Além de Torroselo (400 hab), servia também Folhados (300 hab), Sandomil (250 hab), Várzea (100 hab), Carragosela (350 hab), Vila Cova (200 hab) e Catraia de S. Romão (50 hab). Isto tudo somado dá aprox. 1650 hab., portanto o target não era assim tão baixo. Quanto ao facto de Torroselo não aparecer no mapa como diz no inicio da reportagem, gostava de perguntar à jornalista do Expresso que mapa é que viu, se foi o de Portugal ou de Espanha, porque Torroselo há muitos anos que consta no mapa, além disso gostaria de lhe perguntar onde é que viu assim tantas casas fechadas, sem ninguém. O retrato da Freguesia não está correcto o que me leva a dizer que foi uma reportagem "encomendada" por alguém que tem interesse em diminuir aquela população. Gostava de conhecer a jornalista Vera Lúcia Arreigoso que escreveu a reportagem para ver até que ponto tem ligações a certas pessoas de Torroselo e convidá-la a vir ver se as casas estão fechadas, ao mesmo tempo ...
 
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TORROSELO NÃO É NENHUMA ALDEIA FANTASMA
LRodriguesS (seguir utilizador), 1 ponto , 21:04 | Domingo, 5 de setembro de 2010
A reportagem pinta de negro a localidade, faz lembrar que é uma aldeia fantasma e não é assim. Torroselo é atravessada pela EN 17, estrada da Beira, tem centro de saúde, tem uma banda centenári...a, tem um museu rural, tem turismo de habitação, é servido pela rede Expressos, tem Lar e Centro de Dia, tem escola 1.º ciclo e jardim de infância, tem cafés e mercearias, tem população em grande numero quando comparada com outras freguesias do Concelho, portanto o cenário negro que pintaram na reportagem não é verdadeiro.
 
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