Torroselo não está no mapa. A freguesia do concelho de Seia é feita de casas com portas e janelas quase sempre fechadas. Não escondem sonhos, foram levados por quem partiu para a cidade e para o estrangeiro à procura da vida que ali morreu. Quem ficou sobrevive com o que resta: a junta de freguesia, a escola primária, um lar e centro de dia, um posto médico, dois cafés e duas mercearias, "mas uma fecha quando vem a ASAE", ironiza o ex-presidente da junta Joaquim Pimentel.
Os 484 habitantes - a maioria ausente e idosa - perderam a Casa do Povo, o clube de futebol, a biblioteca, o restaurante e até o padre residente, mas foi a farmácia que lhes levou a esperança que ainda tinham no futuro da aldeia. "As pessoas de outras localidades vinham aqui à farmácia. Agora perdemos freguesia", lamenta Mário Mendes, dono do minimercado Nova Vida, que até outubro de 2008 era paredes meias com a Farmácia Central.
"A farmácia era centenária. Foi fundada por um tenente da Armada, junto à igreja. Era toda em madeira e os medicamentos estavam guardados em frascos de vidro castanho", conta o atual presidente da junta, António Sousa. Há vários anos foi transferida para o rés do chão da casa de um casal imigrado no Canadá, Beatriz Batista e António Correia, e ali esteve, por ¤300/mês, até mudar para Seia, a 10 km.
"Fiquei chateada porque me causa transtorno. O meu marido teve um AVC, eu ando no psiquiatra e preciso de muitos medicamentos", diz Ana Brás, 63 anos. "Agora", explica, "peço ao meu sobrinho para me trazer os medicamentos da farmácia onde trabalha". E o exemplo é seguido por outros habitantes. "A farmácia faz muita falta. Veja os velhotes... Se não fosse o rapaz que vive aqui e trabalha numa farmácia não sei como ia ser", desabafa Maria Figueiredo, 78 anos.
O proprietário da extinta Farmácia Central (agora com outro nome em Seia), Mário Gandarez, compreende a população. "Torroselo é uma aldeia envelhecida e sem renovação de clientes. A mudança foi inevitável por não poder suportar o aumento dos custos, a que se juntou a redução de lucros nos últimos anos. Mas lá fazia mais falta". Por isso, ofereceu-se para lhes levar os medicamentos a casa ou através do centro de dia. "Às vezes vamos duas vezes por dia e não cobramos nada. Mas, mesmo assim, há muitas pessoas que não querem, porque saímos de lá". Porém, "apesar dos custos inerentes a estas entregas, como tempo e combustível", o farmacêutico mantém a palavra. E as entregas, sobretudo no centro de dia.
"Todos temos de compreender que ninguém investe para perder. As farmácias são um negócio", salienta Joaquim Pimentel, presidente da junta de Torrozelo à data da transferência. "A farmácia foi vendida ao atual proprietário por mais de meio milhão de euros e tinha um custo mensal de ¤5 mil, sem contar com juros. Imagine-se quanto é preciso vender para gerar lucro", exemplifica. E é perentório: "A farmácia faz mais falta na aldeia para as pessoas conversarem e levarem umas injeções".
O sucessor na junta, António Sousa, reconhece que "a população acabará por se conformar, pois se era difícil manter a farmácia, mais difícil será agora trazê-la de volta". Por isso, há já quem opte por se meter ao caminho até Seia quando tem receitas para aviar. "Foi uma mais-valia tirada à terra e muitas pessoas, mesmo de outras freguesias, não ficaram contentes. Mas, olhe, a farmácia em Seia é mais bonita e venho aqui muitas vezes", diz o torroselense José Ribeiro, 74 anos, ao balcão do novo estabelecimento.
A história de Torroselo é uma entre 265, tantas quantas as localidades portuguesas que, desde 2007, perderam a farmácia devido à alteração do regime jurídico que alargou a propriedade a não farmacêuticos e abriu a porta à deslocalização. "Recebemos mais de 200 reclamações. Dentro do mesmo concelho, as farmácias mudam-se para zonas economicamente mais favoráveis, deixando as populações mal servidas. Funciona a lei do mercado", salienta o secretário-geral da Associação Nacional de Municípios, Artur Trindade. O Ministério da Saúde garante que vai emendar o erro (ver texto ao lado), mas para algumas populações será tarde de mais.
Vilgateira, em Santarém, ou Trinta, na Guarda, são dois casos irremediáveis. "A farmácia saiu no ano passado. Nós gostamos de ter as coisas na aldeia, mas não podemos fazer nada. Agora temos um posto farmacêutico onde entregamos as receitas e depois a farmácia vem da Guarda entregar-nos os medicamentos a casa", explica o presidente da Junta de Freguesia de Trinta, António Dionísio. A solução não irá ser muito diferente na aldeia de Vilgateira quando a farmácia cumprir a anunciada transferência.
"Ainda não se sabe qual é a data para a farmácia sair. Não concordamos, mas não é viável do ponto de vista económico e não há nada a fazer", lamenta o presidente da Junta de Freguesia da Várzea, José Coelho. "O espaço, com 100 anos, não tem condições: são duas divisões sem casa de banho. Isto vai desertificando cada vez mais a aldeia, mas as pessoas vão acabar por compreender". Não há remédio que valha às aldeias.
Balanço
265
transferências de farmácias autorizadas desde a entrada em vigor da nova lei, em novembro de 2007. Destas, 56 ainda estão em instalação e há mais 18 novos pedidos em análise
844
farmácias mudaram de proprietário entre o final de 2007 e o primeiro semestre deste ano
29
concursos para a instalação de novas farmácias foram abertos até junho. Do total, 12 processos continuam em avaliação pelo Infarmed
81
postos farmacêuticos foram transformados em farmácias desde que a nova legislação entrou em vigor
1
farmácia foi encerrada entre o final de 2007 e o primeiro semestre deste ano, segundo o Infarmed
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010